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Os Sambas-enredo de 2024 — Portela

Enredo: Um Defeito de Cor

O Fuzuê · 2023-08-08 01:07 · 0 claps · 7.5 min read
#samba-enredo #carnaval #rio-de-janeiro #samba #escolas-de-samba
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Sambas-enredo 2024 — Portela

Enredo: Um Defeito de Cor

O enredo

A Portela elaborou seu enredo a partir da obra de Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor. Entretanto, seus novos carnavalescos, André Rodrigues e Antônio Gonzaga preferiram subverter o ponto de vista do romance, passando a palavra da matriarca Luiza Mahin — cuja história se confunde com as histórias de todas as mães pretas do Brasil — para seu filho, Luiz Gama. O enredo se apresenta como uma carta do jurista abolicionista endereçada a sua mãe.

Antes da “carta”, a sinopse apresenta a citação de Luiz Gama que inspirou o título do romance: “Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime. Mas nossos críticos se esquecem que essa cor é a origem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão, tão semelhante à da terra, abriga, sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade”. A carta apresenta um Luiz Gama que liga a sua história a luta de sua mãe e de todos os seus antepassados; uma luta da qual ele é herdeiro. Nessa luta, a tradição, a identidade e sobretudo o afeto aparecem como elementos centrais. Explica também a importância de contar a história não contada de Luiza Mahin — “Rainha do Brasil”: “Eles combinaram de nos matar, nós combinamos de não morrer… Pelo menos até que nos encontrássemos. E por isso não morremos, porque eu não deixarei tua história desaparecer”. Ao afirmar: “Sou filho dos muitos colos negros que te acolheram na vida”, Luiz Gama reconhece o elo afetivo que justifica e impulsiona a sua luta e a de tantos para existir. Uma luta por existência que se dilata, cruzando fronteiras espaciais e temporais, para além dos horizontes do Atlântico Negro e da abolição, perdurando até os dias de hoje: “Eu estava em África e no Brasil. Você estava em mim e eu em você. Como estamos e estaremos amanhã”.

A safra

A safra de sambas é espetacular, a melhor em muitos anos na Portela, talvez a melhor dentre todas as escolas. Tenho três preferidos, porém acredito que são cinco os que podem chegar à final com grandes chances de levar. Com o sarrafo tão alto, é possível que, durante o desenrolar da disputa e das apresentações na quadra, minha opinião mude bastante.

Os sambas que eu mais gostei

Luiz Carlos Máximo, Manu da Cuíca, Cecília Cruz, Thayssa Menezes, Fabinho Gomes, Luciano Fogaça, Cláudio Cruz. O samba mais diferente. Apresenta uma linha melódica saudosista, com uma letra que só compete em lirismo com a parceria Feital. Bico Doce arrebenta, como já havia arrebentado no samba (extremamente) injustiçado que Luiz Carlos Máximo e Manu da Cuíca apresentaram ano passado na Imperatriz. A parceria do casal se juntou à “Família Cruz”, que por sua vez, também merecia ter ido mais longe na disputa pelo “samba do centenário” da Portela. Destaque para a compreensão do papel do afeto no enredo, e as fórmulas que a letra emprega para expressá-lo, por exemplo já de cara, na cabeça do samba com aliterações e diminuitivos em volta de “mãe”: “Mãezinha minha, Mahin mainha / Escrevo com a tinta retinta de mim / Para bordar os caminhos / E cada cantinho tirado de nós”. Talvez o meu trecho favorito seja o que Luiz Gama, aqui se confundindo com a própria escola, decide homenagear a mãe mais pelo canto que pela reza. O trecho além de ser ouro de poesia, se sintoniza com o enredo, que prefere tratar da ancestralidade numa chave mais humana, ainda que a religiosidade esteja sempre presente; de quebra, os versos repetidos elevam também as escolas de samba e o gênero samba-enredo, que são afinal parte dessa tradição: “Se eu te quisesse santa, ó mãe Faria uma oração em segredo / Mas te quero ancestral / E te faço samba-enredo”. Passando para o Atlântico Negro e as histórias que o atravessaram, O samba acerta em cheio mais uma vez ao religar a saga particular de Mahin com a grande saga dos escravizados, suas culturas e o papel das mães pretas pela sobrevivência física e simbólica de seus povos: “A maré guardou seu nome de erê / Junto do abebê de Yemanjá / Histórias de amor e de luta / Que só o sonho escuta / E só as mães souberam contar”. O refrão na sequência é o momento mais divertido do samba, precedendo a transição para versos de luta e resistência também muito inspirados: “O fio jêje da espada malê / Forjou a ponta de lança em você / Ìyà, sua saga é meu abrigo / A certeza de jamais / Esquecer os esquecidos / É saber que não tem paz / No silêncio da migalha / É semente que dá colo e navalha”. O refrão de cabeça surpreende com uma melodia com certo apelo nostálgico, prezando mais por um balanço balanceado, do que pela tentativa de “explodir”: “Nasceu d’Oxum flor de Kehindé / Nas esquinas de Madureira com Daomé / Yabá quituteira, Ìyàmì quizumbeira / Brasil, Terreiro Preto de Mulher”. Além do mérito de citar Madureira sem forçar a barra, esses versos finais também sintetizam e amplificam o poder do enredo.

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Samir Trindade, Valtinho Botafogo, Junior Falcão, Brian Ramos, Fabrício Sena, Deiny Leite e Paulo Lopita 77. Injustiçado nas duas últimas disputas, Samir Trindade se reúne com outros compositores de peso e mais uma vez desponta como um dos favoritos. Samba pesado, que arrebata como de costume. A escolha dos versos “Omotunde, Do seu ventre, sou fruto, mulher / Matriarca, heroína Kehinde, rainha preta” logo na cabeça pode causar certo estranhamento, mas a afirmação do nome africano no início me pega muito pela poesia e coerência com o enredo. Esse samba também foi certeiro na junção de afeto e luta, e tem a característica interessante de condicionar suas linhas melódicas e andamentos a cada momento da narrativa sobre Mahin e aos orixás e lugares relacionados a ele, como no trecho sobre a travessia “Yemanjá segurou sua mão / Vai a noite na imensidão”; em um dos poderosos refrões: “Malê malê, kaô kaô / Contra a covardia, a revolta de Xangô / O que há em nós não é defeito / E nos fez sobreviver / Nossa cor, nosso poder”; ou no chicletaço chamando Mestre Nilo pra brincar “Ê Nanã ê…foi Nanã quem criou / Lá na Bahia, a saudade apertou…” Gosto muito do refrão de cabeça, inclusive das respostinhas simples que podem causar algum estranhamento: “Senhora do meu afeto, iyá /A dona do meu destino, yabá / Ginga da Portela sempre acalanta / Nega que embala o samba”. Diferente da menção à águia em outro verso, que não funcionou tão bem — achei excelente a solução encontrada para citar a Portela, fazendo dela um amálgama com Mahin e as mulheres pretas do Brasil.

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Paulo Cesar Feital, Rafael Faustino, Allan Corrêa, Raphael Gravino, Rodrigo Guerra, Madalena Simões e Pirique Neto Outro samba bastante ousado e que teria minha preferência para completar a final. Ainda que fiel ao enredo, Feital e seus jovens parceiros decidiram extrapolá-lo mais que seus concorrentes, trazendo referências e críticas a acontecimentos recentes. Além de assumir riscos no conteúdo, corre também todos os riscos possíveis na forma, com muitos versos longos e métricas no limite do “cantável”, como em “Meu nome é Luís Gama / Eis aqui o teu legado: Okolofé, Kehinde! Ó, Mãe da Liberdade! / Enfrentaste o desatino, negaste o peso da cruz / Se essênio, devia ser preta a pele de Jesus”. A parceria foi muito feliz nas escolhas poéticas nos versos que juntam luta e afeto, sendo talvez a melhor letra nesse aspecto. Um bom exemplo está na repetição carinhosa de Luiza e nos sinônimos “Iyá” e “mamãe”: “Odoyá, Iyá Luiza! / À África voltaste pra tentar me encontrar / Mas eu vivo em ti, você em mim, mamãe Luiza / Meu corpo é o teu corpo, e o nosso verbo é o verbo amar!” A preparação para o refrão é minha parte favorita, sobretudo pela referência a Mahin como “rainha” e pela decisão difícil de manter fielmente a estrutura de “carta” proposta na sinopse: “Sou herança de Taiwo, Durojaiwé / Peço as bênçãos de Xangô a essa mátria não gentil / Eu assino aqui, Luis Gama, Omotundé! Com todo meu amor, à Rainha do Brasil!”. O refrão de cabeça, um dos melhores da safra, fecha a obra com boa referência a escola como guardiã do pertencimento, e com o uso genial do verbo “alafiar” inspirando otimismo: “Odara, ê! A Portela é meu ylê, onde finda a saudade… / Yabá, emoriô! Meu ifá alafiou, Negra Majestade! / Por mais que tentem nos sucumbir / Ser teu filho e ser mãe preta são atos de resistir!”.

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Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Wanderley Monteiro, Jefferson Oliveira, Hélio Porto, Bira e André do Posto 7 Um samba excelente da parceria que inclui o atuais bicampeões Rafael Gigante e Wanderley Monteiro — sendo o último também o maior vencedor de sambas-enredo da história da Portela (junto a Noca e David Corrêa). Ao final da disputa pode facilmente ser o escolhido e certamente funcionaria muito bem. Apesar de apresentar sintonia perfeita com o enredo, e alguns trechos que são melodicamente impecáveis — reforçados pela interpretação magistral de Wander Pires — o samba como um todo apresenta um pouco menos de poesia do que os três citados anteriormente. A conversa com o enredo é perfeita em trechos como “Me embala, oh! mãe, no colo da saudade /Pra fazer da identidade nosso dialeto”; “Orayeye oxum, Kalunga! É mão que acolhe outra mão, macumba!” e “Em cada prece, em cada sonho, nêga / Eu te sinto, nêga / Seja onde for / Em cada canto, em cada sonho, nêgo / Eu te cuido, nêgo cá de onde estou”. O primeiro e arrebatador refrão é o grande momento do samba: “Salve a lua de Benin / Viva o povo de Benguela / Essa luz que brilha em mim / E habita a Portela / Tal a história de Mahin / Liberdade se rebela / Nasci quilombo e cresci favela!” Já o refrão de cabeça, um tanto quanto arrastado, não me agrada tanto.

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Jorge do Batuke, Claudinho Oliveira, Zé Márcio Carvalho, Leko 7, Romeu D´Malandro, Silas Augusto e Araguaci Talvez seja a obra com a melhor sequência pré-refrão e refrão de cabeça. É poderoso, além de sintetizar o enredo e tocando o seu coração e o dos portelenses: “Se prometeram nos matar / Prometemos não morrer / Se prometeram nos matar / Nós vamos sobreviver”, chamando os versos “Eu sou Portela / Quero o que é meu de direito / Consertando o defeito que a história escreveu / Eu sou a ‘Gama’ preta nessa claridade / Portelense de verdade / Povo preto que venceu”. Há outros momentos de grande inspiração, como na ligação entre “…Pergunto onde está o defeito da cor?” e “No pensamento, será na sabedoria? No preceito, na magia que herdei de Daomé? Resistência é a força que nos guia / E o fogo da justiça queima tudo que vier”. Também no trecho “Toda preta mergulhada em agonia / É a noite em pleno dia / Com histórias pra contar”. Acredito que a sensação de que está um pouco atrás dos outros se explica pela falta de coesão entre algumas partes do samba — tanto na letra, quanto na melodia — na comparação com as melhores obras da safra.

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Meu palpite

Parceria Samir Trindade leva. Feital e Luiz Carlos Máximo estarão na final.


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