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Gasping

Quando eu cuidadosamente me deitei e tentei dormir ao lado de minha mãe na cama do hospital, semana passada, eu sabia que aquela seria…

T. G. · 2022-10-15 17:38 · 0 claps · 4.8 min read
#psicologia #psdb #saúde #câncer #luto
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Gasping

Quando eu cuidadosamente me deitei e tentei dormir ao lado de minha mãe na cama do hospital, semana passada, eu sabia que aquela seria minha última noite com ela viva e, tenho certeza, ainda consciente de boa parte do que estava se passando. Consciente da solidão ao final da esteira de sua vida, de que o final de seus dias estava bem próximo.

Ela havia perdido primeiro boa parte da visão, então deixou de ler e de fazer o seu adorado crochê. Depois perdeu a força e o vigor muscular, dormia muitas horas do dia. Efeito colateral da quimioterapia, disseram os médicos. Por fim as tonturas, perda brusca de apetite e massa muscular, da força, depois a fala. Vê-la perder a completa capacidade de se comunicar de forma verbal, logo ela que adorava conversar, ler e que foi professora por anos. Ver aquilo foi como um tiro no meu peito.

Mas eu também notava que ela mantinha a audição e a cognição muito preservadas. Logo ela, que sempre foi tão criteriosa e perfeccionista nos cuidados, devia estar ali no leito “aceitando” as posições do corpo e as coisas que ouvia ou que fazíamos. Aquele suporte total e ao mesmo tempo mínimo que tínhamos a possibilidade de lhe oferecer naquelas condições.

Tudo a partir dali, do não verbal, eram deduções sobre a vida de uma mulher acamada de um câncer cujo tratamento passou por demonstrações de negligência hospitalar, com suspeita de haver evoluído rápido demais para o quadro paliativo, reduzindo a sobrevida de minha mãe. Fora o desprezo institucional que não consegui deixar de associar ao etarismo.

Meu luto, mas acredito que também o de muitos familiares com a morte de um ente querido por câncer, é um luto que constantemente se cerca de culpas quanto ao que poderia ter sido feito. Até que você passe por isso em sua família, não sendo você um especialista, você muito provavelmente não se perceberá uma pessoa completamente leiga no assunto. Mas se passar, quando isso ocorrer, você irá perder a noção do tempo que o tratamento leva, acreditando que o caminho para dias melhores, por si só, está assegurado pela medicina e pelo que dizem os especialistas.

As ideias de uma viagem ou grande encontro em família ficaram para quando acabassem as sessões de quimioterapia. Comparecer ao centro espírita ou receber os grandes amigos dela em casa, apenas quando a visão melhorasse, ou seja, também após a químio. Toda uma privação de vida para se dedicar às sessões — na verdade a todo e qualquer tratamento indicado pelos médicos, nisso ela sempre foi certinha — e tudo isso para a gente descobrir apenas no final, quando os sintomas já eram irreversíveis, que ela possuía uma metástase agressiva e enorme no cérebro.

Em alguns momentos cheguei a ter uma revolta quase capaz de externar minha total agressividade: berrei com os médicos indiferentes no plantão, também com os recorrentes em quem minha mãe confiava, chutei a porta da ouvidoria, queria fazer alguém de refém com uma arma na cabeça e gritar pro hospital todo escutar:

— Só vou liberar o doutorzinho de merda se a porra da direção dessa espelunca vier aqui pra ter uma palavrinha comigo! O secretário de saúde!

Contive os meus modos mais grosseiros, mas sigo ne luto condensando as nossas culpas sobre o que não dávamos conta de saber antecipar, sobre quase tudo o que só tivemos conhecimento com o acontecimento e após. Sobre cada pequena decisão de encarar uma dura verdade que devíamos ter topado desde o início, mas — verdade seja dita — ela foi a primeira a recusar. Nós nos acomodamos em alguma esperança, precisamente a confiança de que uma equipe médica especializada seria capaz de fazer mais do que nós, mas não fizeram. Ficou claro que se nós mesmos não brigarmos por nossas próprias vidas, eles muito menos o fazem.

Em parte houve o sucateamento nítido da estrutura hospitalar por parte da gestão Dória, e isso é inegável para quem usufrui do IAMSPE há muitos anos (eu nasci e fui atendida até os meus 21 anos lá). O hospital mais parece que virou um experimento de terceirização do SUS. No caso, um case de fracasso, na linguagem doriana.

Tudo mudou desde quando minha mãe havia feito sua primeira cirurgia em 2013, quando a equipe ainda não era terceirizada. Dessa vez, minha mãe sequer teve atendimento prioritário, obrigatório por lei a quem tem câncer. Tudo precisou acontecer a base de registro na ouvidoria do hospital e, somente após a mastectomia, mais de seis meses após a detecção do carcinoma mamário (câncer altamente agressivo), é que ela se tornou oficialmente paciente da oncologia, ou seja, somente quando foi necessária a quimioterapia, o que não deve ser o critério científico para enquadramento de paciente na ala oncológica.

Até então, de agosto de 2021 a março de 2022, ela era atendida por residentes da equipe de mastologia, a cada consulta um residente diferente acessando e preenchendo seu prontuário com informações lacônicas e isoladas. Solicitamos a cópia do documento posteriormente e de fato foram pouquíssimo esclarecedores os relatos quanto à condição de sofrimento de minha mãe. A ponto de, em fevereiro, quando tivemos a sua consulta de retorno pós-cirúrgico, eu testemunhar o preceptor da mastologia, Dr. Odair Ferraro, questionar a última residente que a atendeu por que não foi feito mastectomia total, apenas unilateral. Não, não era uma pergunta retórica ou com finalidade pedagógica e foi somente nesse dia que ela foi encaminhada para a oncologia, com encaixe para o mês seguinte.

Ainda estou processando muitas coisas e sei que também há muito para ser assimilado. Enquanto escrevo, tento compreender o que fiz com essas informações todas à época, se as tranquei em um baú inconsciente para não sofrer o impacto de, já naquele momento, descobrir que estava perdendo minha mãe. Se resolvi focar no tratamento dela dali por diante, pois o mais importante era tentar salvá-la de um fim próximo, prolongar ao máximo seus dias e sua estadia amorosa conosco. Ou se foi uma dor tão profunda que travei quando, destino cruel, já não mais era mais possível reverter seu quadro de saúde, sendo que agora precisarei retomar isso para voltar a ter paz. Eu realmente não sei…

O que eu sei é que perdi minha mãe, perdi o refúgio e proteção sem igual no mundo, que era o seu abraço. Perdi a pessoa que mais me amou, que mais amei e a quem mais dei trabalho na vida. Uma perda que poderia ter sido postergada, programada com uma despedida mais afetuosa, mais do jeitinho dela. Ela que era altamente espiritualizada, mas não falava da morte, não queria ouvir falar de sua impermanente condição. Nem na terapia especializada, nem no diálogo com o companheiro de vida, quiçá com os filhos, eles que lidem com a informação dos médicos. Quem diria, mãezinha rainha, inimiga do fim.

Não sei se somente viver o luto e ressignificar esta história vai ser possível ou bastar para eu seguir em frente. Não foi somente pela morte de minha mãe, que infelizmente já estava em nosso horizonte desesperado, mas pelo possível crime de terem abreviado ainda mais sua vida por descaso à sua idade. Também, e especialmente, por desconsideração com a vida da população que depende dessa gestão hospitalar desumana do IAMSPE, que prefere precarizar atendimento e corpo clínico com terceirizações, negando dignidade às pessoas em situação extremamente vulnerável, no momento em que mais precisam confiar em quem as atende.

É pela covardia dos interesses políticos que vitimam as pessoas que mais amamos que meu luto vai demorar a passar.


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