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Um casal ao lado

Fim de semana desses fui com meu cachorro passear na Praça do Papa e sempre levo uma toalha, almofadas, um bom livro, às vezes até uma…

Jaqueline Lima in Clube da Escrita Afetuosa · 2021-11-24 02:56 · 0 claps · 2.2 min read
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Um casal ao lado

Acervo pessoal

Acervo pessoal

Fim de semana desses fui com meu cachorro passear na Praça do Papa e sempre levo uma toalha, almofadas, um bom livro, às vezes até uma cadeira de praia pra ficar mais confortável. Levo lanche, água e assento debaixo de uma sombra de árvore gostosa e fresquinha e deixo Dudu socializar. De vez em quando é preciso uma interferência porque sempre aparece um mais assanhado que ele, ou um mais agressivo e já viu, mãe de filho único né?! Sempre protegendo a cria, mesmo que seja canina.

Nesse dia, apareceu um casal de senhores mais idosos com um casalzinho de cãezinhos bem bonitinhos, shih-tzu, como Dudu. Chegaram com suas cadeiras de praia, iguais a minha e foram logo compartilhando a enorme sombra da frondosa árvore que eu já tinha pegado a beirada de cá.

Nos cumprimentamos, os cachorrinhos começaram a brincar com Dudu e eu ali só de ‘rabo de olho’. Tomei uma água e fiquei pensando quem seriam aquelas pessoas?! Do que gostavam, o que já tinham feito da vida? O que pretendiam dali pra frente? O que gostavam de comer? Como era o nome dos bichinhos de estimação? Nessa altura já tinha abandonado o livro. E fiquei pensando…

Eles sorriram, os cachorrinhos brincavam, não deu outra a conversa começou. Como é o nome do seu cachorrinho? É Dudu. Ele só tem um olhinho? É. Infelizmente. Um menino, por acidente furou o olho dele quando era bebê. Foi um corre-corre, mas no final e muita gastança depois deu tudo certo. É um cãozinho saudável. E os de vocês? Como chamam? Ela é a Tarsila e ele o Gaudí. Que chic! Mas ele tinha que chamar Oswald, não?! Todos rimos alto. E a prosa, claro, se estendeu por um bom tempo.

E a gente foi se tornando ‘amigos de infância’. Quero dizer, nem tanto porque sou muito mais nova, mas foram me contando a história da vida. E eu também.

Tarsila e Gaudí eram mãe e filho. E foram adotados. Ela tinha acabado de dar à luz e foram abandonados bem na porta o casal que iria viajar daí uma semana para visitar o filho que mora na Espanha. Corre daqui, corre dali, leva no veterinário, dá as vacinas, os antibióticos, os ante pulgas e pronto, os dois bem acolhidos e prontinhos para viver na nova casa que ficava bem ali próxima à Praça do Papa. No Mangabeiras mesmo.

Depois de todo o cuidado com os cãezinhos lá foram eles para a viagem com um apertinho no coração de ter que deixar os novos filhinhos para trás. Mas tinham quem cuidasse deles. A cozinheira, o jardineiro, a filha que morava com eles. Casal simpático, cultos, boa gente. Ele médico aposentado, anos a fio trabalhando pesado. Ela arquiteta, dona de uma galeria de artes que agora era da filha. Mereciam a aposentadoria tranquila. Trabalharam duro, criaram os quatro filhos e agora curtiam os netos, as viagens e o casal de shih-tzu que trouxe alegria para uma vida que já era boa e ficou melhor.

Coisas da vida…da praça… do jeito mineiro de ser.


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