Um casal ao lado
Fim de semana desses fui com meu cachorro passear na Praça do Papa e sempre levo uma toalha, almofadas, um bom livro, às vezes até uma…
Um casal ao lado

Acervo pessoal
Fim de semana desses fui com meu cachorro passear na Praça do Papa e sempre levo uma toalha, almofadas, um bom livro, às vezes até uma cadeira de praia pra ficar mais confortável. Levo lanche, água e assento debaixo de uma sombra de árvore gostosa e fresquinha e deixo Dudu socializar. De vez em quando é preciso uma interferência porque sempre aparece um mais assanhado que ele, ou um mais agressivo e já viu, mãe de filho único né?! Sempre protegendo a cria, mesmo que seja canina.
Nesse dia, apareceu um casal de senhores mais idosos com um casalzinho de cãezinhos bem bonitinhos, shih-tzu, como Dudu. Chegaram com suas cadeiras de praia, iguais a minha e foram logo compartilhando a enorme sombra da frondosa árvore que eu já tinha pegado a beirada de cá.
Nos cumprimentamos, os cachorrinhos começaram a brincar com Dudu e eu ali só de ‘rabo de olho’. Tomei uma água e fiquei pensando quem seriam aquelas pessoas?! Do que gostavam, o que já tinham feito da vida? O que pretendiam dali pra frente? O que gostavam de comer? Como era o nome dos bichinhos de estimação? Nessa altura já tinha abandonado o livro. E fiquei pensando…
Eles sorriram, os cachorrinhos brincavam, não deu outra a conversa começou. Como é o nome do seu cachorrinho? É Dudu. Ele só tem um olhinho? É. Infelizmente. Um menino, por acidente furou o olho dele quando era bebê. Foi um corre-corre, mas no final e muita gastança depois deu tudo certo. É um cãozinho saudável. E os de vocês? Como chamam? Ela é a Tarsila e ele o Gaudí. Que chic! Mas ele tinha que chamar Oswald, não?! Todos rimos alto. E a prosa, claro, se estendeu por um bom tempo.
E a gente foi se tornando ‘amigos de infância’. Quero dizer, nem tanto porque sou muito mais nova, mas foram me contando a história da vida. E eu também.
Tarsila e Gaudí eram mãe e filho. E foram adotados. Ela tinha acabado de dar à luz e foram abandonados bem na porta o casal que iria viajar daí uma semana para visitar o filho que mora na Espanha. Corre daqui, corre dali, leva no veterinário, dá as vacinas, os antibióticos, os ante pulgas e pronto, os dois bem acolhidos e prontinhos para viver na nova casa que ficava bem ali próxima à Praça do Papa. No Mangabeiras mesmo.
Depois de todo o cuidado com os cãezinhos lá foram eles para a viagem com um apertinho no coração de ter que deixar os novos filhinhos para trás. Mas tinham quem cuidasse deles. A cozinheira, o jardineiro, a filha que morava com eles. Casal simpático, cultos, boa gente. Ele médico aposentado, anos a fio trabalhando pesado. Ela arquiteta, dona de uma galeria de artes que agora era da filha. Mereciam a aposentadoria tranquila. Trabalharam duro, criaram os quatro filhos e agora curtiam os netos, as viagens e o casal de shih-tzu que trouxe alegria para uma vida que já era boa e ficou melhor.
Coisas da vida…da praça… do jeito mineiro de ser.
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