Mediação, desvios e bastões:
Gulabi Gang em ação!
Mediação, desvios e bastões:
Gulabi Gang em ação!
Fiz esse texto como Trabalho Final para a disciplina de Estudos Culturais do curso de Estudos de Mídia da UFF. Gostei do resultado e quis compartilhá-lo por aqui :)
Espero que gostem!
RESUMO
A intenção desse trabalho é reconhecer conceitos discutidos em aula e desenvolvê-los em cima do objeto escolhido: uma movimentação social de mulheres no Norte da Índia, suas disputas por direitos e segurança, e seus recursos de negociação e resistência. Irei introduzir o contexto e as lutas que motivaram a insurgência das mulheres indianas na região rural no norte da Índia, seguido de uma tecitura das abordagens teóricas em conversa com a narrativa territorial gerada por essas mulheres. Por fim, apresentarei os desdobramentos audiovisuais que foram produzidos a partir da repercussão do movimento, procurando refletir sobre a importância do registro como permanência e memória, além da visibilidade e possibilidade de redes de fortalecimento e potências femininas.
INTRODUÇÃO: Gulabi Gang
Pensando para este trabalho uma discussão a partir da noção de território, desvios, performance e empoderamento feminino interseccional, estas, por sua vez, locus e maneiras de disputa cultural por direitos e segurança diante de uma perspectiva de mulheres indianas, que vivem um território com costumes tradicionais patriarcais e machistas no contexto que aqui discuto. Considerando que a Índia como país, conquistou sua independência apenas em 1947, se tornam evidentes as dificuldades de ‘emergência’ e ‘desenvolvimento’ econômicos e sociais característicos de um território que simbolicamente ainda busca sua descolonização, enfrentando grandes dificuldades estruturais como governos corruptos, diferenças sócio-econômicas extremas e fortes tradicionalismos nas relações de gênero e classe. No norte da Índia, território rural e marginalizado, com agentes estatais corruptos e ineficazes, a população sem acessos a direitos básicos de educação e muito menos de segurança, em especial para mulheres, surge a Gulabi Gang, uma manifestação de resistência feminina na região rural do distrito de Banda, em Uttar Pradesh. Nesse território, a maior parte de seus moradores são dalits, uma casta indiana que representa a hierarquia mais baixa da sociedade, os “intocáveis”.
Dentro deste contexto, as mulheres dalit se encontram na camada inferior tanto em termo de casta quanto de gênero, evidenciando uma experiência interseccional forte por essas sujeitas. Diante das opressões vividas pelas mulheres, de abuso doméstico, violência contra a mulher e feminicídios, algumas mulheres resolveram fazer justiça com as próprias mãos. Uma grande massa de mulheres enfrentam violências, atuando onde um estado ausente e uma polícia negligente, machista e corrupta não se mobiliza. Essas mulheres, vestidas de sari (traje de mulheres indianas) rosa (gulabi) saem às ruas para fazer o que a justiça não faz. Além da vestimenta rosa característica, as mulheres usam um bastão de bambu, instrumento esse que usam para intimidar possíveis assediadores. Na falta de polícia e política de direitos a mulheres, Sampat Pal, líder do movimento, age como mediadora de conflitos, é informada de incidentes e procura a polícia local procurando resolver os casos de violência. Caso o incidente não seja resolvido por meios institucionais, a Gulabi Gang age e investe — por vezes usando suas armas, outras gerando um alvoroço, uma comoção — contra os criminosos, geralmente maridos ou pais dessas mulheres, evidenciando uma cultura misógina ainda mais fortalecida em ambientes rurais, considerada “normal” essa conduta de violência contra mulheres, além de casos de casamento infantil… Essas mulheres se unem e disputam seus direitos numa situação que parece impossível de mudar.
DESENVOLVIMENTO: Mediações e transformações culturais
Considerando o conceito de Cultura a partir de Stuart Hall (2016) como arena de disputas por atribuição de sentidos, vemos nas mulheres de Gulabi Gang uma forte disputa física e corporal em cima de uma vontade de mudança simbólica a respeito dos espaços e direitos das mulheres.
Todos os grupos sociais fazem regras e tentam (…) impô-las. Regras sociais definem situações e tipos de comportamento a elas apropriados, especificando algumas ações como “certas” e proibindo outras como “erradas”. Quando uma regra é imposta, a pessoa que presumivelmente a infringiu pode ser vista como um tipo especial, alguém que não se espera viver de acordo com as regras estipuladas pelo grupo. Essa pessoa é encarada como um outsider. (BECKER, 2008)
Trago como exemplificação de comportamentos desviantes em cima do que Howard Becker chama de “outsiders” aqueles ou aquelas que rompem com os padrões estabelecidos e sedimentados por laços simbólicos como tradições. Romper com a cultura e comportamentos vigentes dos espaços em que vivemos requer uma fissura no status quo, esse determinado por aqueles sujeitos que detém certos poderes. As mulheres de gulabi (rosa) se empoderam com seus bastões e com a união de pertencimento de um grupo vigilante, utilizam uma forma de poder coercitivo, construído em cima dessas defesas em prol de uma mudança estrutural.
O uso da força ao empunhar os bastões de bambu não representa a totalidade da resistência desse grupo de mulheres, as disputas ocorrem em diferentes níveis de influência, acredito que a maior mobilização se dê por conta do efeito “manada” que as mulheres de rosa causam ao se dirigir aos locais em que vão atuar. Sua líder Sampat Pal, constantemente entoa gritos de guerra com suas seguidoras, fala alto diante de autoridades institucionais, gera comoção e constrangimento àqueles os quais seus embates são direcionados. Pensando com Enne e Dutra (2016) a respeito de “conter e resistir” diante de “relações assimétricas” e “esferas de poder desiguais”, a apropriação da força e da violência ao empunhar os bastões de bambu, é uma forma consistente de resistir e negociar por direitos e segurança.
As relações em torno dos territórios vividos são, portanto, relações de negociações e disputas, processo no qual as dimensões da memória e da identidade se colocam como fundamentais para a configuração de projetos de territorialidades, ou seja, de formas de ocupar e significar o espaço vivido. (ENNE e DUTRA, 2016)
Considerando também suas atuações performáticas ao falar alto, andar em grupos e suas repercussões locais, a ocorrência de seu reconhecimento como instância de embate e afronte também representa uma configuração de negociação e resistência, criando uma nova narrativa e vivência daquelas mulheres no espaço que ocupam.
DESDOBRAMENTOS: Documentário e Bollywood
A força dessas mulheres de rosa repercutiu na Índia e caminhou para as telas do cinema. Através do audiovisual, a história de Sampat Pal e seu grupo de mulheres vigilantes rendeu um filme longa-metragem documentário (2012) em uma co-produção entre Noruega, Índia e Dinamarca, com a direção de Nishtha Jain, diretora indiana que registrou as atuações de Sampat Pal com a Gulabi Gang em Uttar Pradesh; o documentário recebeu diversos prêmios em instâncias nacionais e internacionais. A prática do registro documental carrega uma importância de permanência e memória da ação dessas mulheres, além de alcançar diversos outros territórios que podem se beneficiar e se fortalecer com a história e incentivo simbólico das mulheres de rosa. No Rio de Janeiro, o filme rodou no festival de cultura indiana que ocorreu em 2017 na Caixa Cultural, foi onde tive conhecimento da existência da Gulabi Gang.
Na produção cinematográfica de Bollywood, Sampat Pal também foi representada no filme Gulaab Gang (2014), um longa-metragem de ficção que exalta as lutas e disputas dessas mulheres tanto no aspecto físico quanto político. Apesar de explorar a violência em um formato de filmes blockbuster, com muitos estouros e exageros, rodar num circuito reconhecido mundialmente como um dos maiores mercados cinematográficos garante uma disputa simbólica grande no imaginário das pessoas e traz a reflexão, empoderamento e disputa das mulheres por seus direitos e de todos que buscam transformar o mundo com suas ações desviantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Rumo a uma nova consciência
Para concluir o raciocínio deste trabalho, busco a conexão com Gloria Anzaldúa (2005) e seu texto La conciencia de la mestiza / Rumo a uma nova consciência que trata da potência da mulher em suas várias identidades marcadas pelo território e violências. A apropriação do poder coercitivo pelas mulheres indianas quebra um paradigma de violência homem-mulher e o reverte a ponto de potencializar as mulheres de sua força e capacidade de interferir nas questões as quais dizem respeito a elas mesmas
(…) apesar de ser uma fonte de dor intensa, sua energia provém de um movimento criativo contínuo que segue quebrando o aspecto unitário de cada novo paradigma. (…) Porque o futuro depende da quebra de paradigmas. (…) Extirpar de forma massiva qualquer pensamento dualista no indivíduo e na consciência coletiva representa o início de uma longa luta, que poderá, com a melhor das esperanças, trazer o fim do estupro, da violência, da guerra. (ANZALDÚA, 2005).
REFERÊNCIAS
ANZALDÚA, Gloria. La conciencia de la mestiza / rumo a uma nova consciência. In: Estudos Feministas, Florianópolis, 13(3): 320, setembro-dezembro/2005, pp. 704–719.
BECKER, Howard S. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de
Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2008, pp. 1–49.
ENNE, Ana Lucia e DUTRA, Marina. “Entre conter e resistir: relações entre cultura e territorialidades”. In: Revista Z Cultural. Revista do Programa Avançado de Cultura Contemporânea. Ano XI. 1º semestre de 2016.
HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Apicuri, 2016.
SÍTIOS (online)
Índia no Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndia>. Acesso em: 11 nov 2018.
Gulabi Gang on Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Gulabi_Gang Acesso em: 10 nov 2018.
Gulabi Gang (film) on Wikipedia. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Gulabi_Gang_(film)> Acesso em: 10 nov 2018.
GULABI GANG NO YOUTUBE
The Gulabi gang <https://www.youtube.com/watch?v=UHl_nLDptV8>
Gulabi Gang — The Documentary — Official Theatrical Trailer
<https://www.youtube.com/watch?v=Av39YJTnMM8>
Gulaab Gang — Official Trailer | Madhuri Dixit, Juhi Chawla
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