Introdução ao pensamento de Georges Sorel
Estou republicando uma parte de um antigo estudo que escrevi sobre o pensamento de Gerges Sorel. Nessa introdução, apresento uma síntese…
Introdução ao pensamento de Georges Sorel
Estou republicando uma parte de um antigo estudo que escrevi sobre o pensamento de Gerges Sorel. Nessa introdução, apresento uma síntese das bases sociológicas, históricas e religiosas do sorelismo, uma síntese que ajudará os interessados a se aprofundarem no pensamento do famoso sindicalista francês.

Georges Sorel (1847–1922).
Georges Sorel foi um engenheiro, teórico sindicalista e nacionalista francês. Seu pensamento é, até os dias de hoje, debatido não apenas pela sua amplitude — há quem o considere um polímata — , mas também pela sua escrita confusa e fragmentada, isso porque Sorel publicou a maioria dos seus escritos em diversos periódicos e jornais, raramente transformando-os em livro. Outra complicação surge do fato de que a qualidade e a profundidade dos assuntos tratados variam: há escritos que são pura propaganda ideológica e outros, mais influentes, que até hoje são lidos pela profundidade da especulação filosófica; essa inconstância no corpo literário de Sorel parece ser a única constante. Sorel adquiriu notoriedade na Paris de seu tempo pelo seu vasto conhecimento; ele frequentava a livraria de Charles Péguy e ficava horas conversando e debatendo sobre os mais variados assuntos: desde a filosofia grega clássica até os regulamentos de segurança para locomotivas a vapor. Seus contemporâneos se impressionaram pela enorme quantidade de informação que conseguia transmitir oralmente, com profundidade e entusiasmo. Seus admiradores o viam como uma “inteligência viva” e inquieta, que precisava saber tudo.[1]
Mas uma coisa é certa: Sorel se encontrava muito mais à vontade com a palavra falada do que com a escrita, tanto que só começou a publicar seus escritos já na meia-idade. Esse fato impõe uma verdadeira dificuldade para o intérprete dos textos sorelianos: tentar achar alguma constância em algum assunto tratado por Sorel. A opinião que Sorel expressou em um artigo, muitas vezes, é contradita pelo próprio Sorel em outro artigo posterior, e amiúde se percebe que Sorel se desinteressou completamente pelo assunto ao não publicar mais sobre ele. Isso é reflexo das relações também inconstantes de Sorel, que fazia e desfazia amizades constantemente, pulava de periódico em periódico por, aparentemente, nunca estar satisfeito. As consequências de uma mente irrequieta. Para se ter ideia da personalidade enigmática que é Sorel, em menos de três décadas como intelectual público, ele conseguiu se dizer um marxista ortodoxo, mas buscou uma explicação heterodoxa para seu marxismo; foi pro e contra Dreyfus no famoso caso penal francês; tinha Benito Mussolini e Vladimir Lênin como os dois maiores políticos já saídos do movimento socialista; expressava opiniões antissemitas, mas admirava a antiga civilização hebraica; tornou-se o mais conhecido teórico do sindicalismo radical e também apoiador do movimento nacionalista e direitista de Charles Maurras.[2] Mas, para os fins deste estudo, é possível traçar a evolução do pensamento soreliano com razoável clareza nos pontos que nos interessam: a sua visão sociológica mais abrangente, a sua relação com Proudhon e o marxismo e a sua teoria sindicalista. Primeiro, deve-se fazer um breve esboço do pensamento sociológico de Sorel.
Pode-se começar com a relação de Sorel com a antiguidade clássica, mais especificamente com a civilização grega. Em um dos seus primeiros livros, o Les Procès de Socrates, de 1889, Sorel refaz o julgamento que levou o filósofo grego à morte, mas seu juízo é completamente a favor da condenação e a justifica dizendo que o crime de Sócrates foi, nada menos, que a destruição da civilização grega. Quando Sorel diz “civilização grega”, ele não está se referindo ao apogeu da Atenas de Péricles e Sócrates no século V a.C, mas à sociedade grega dos séculos VIII a.C até meados do século V a.C, a sociedade rural e militar de Homero e Hesíodo. O relevante nessas sociedades antigas era a retidão moral de seus habitantes, educados nos poemas clássicos e que vivam uma vida simples de pobreza e trabalho duro. Aqui, entra um tema muito importante para a compreensão das ideias de Sorel: a pobreza, o trabalho duro, a virtude de uma vida dedicada à ação e ao sacrifício pelo coletivo criam a moralidade necessária para empreendimentos sociais. Sorel admirava os gregos pré-socráticos por sua simplicidade de pensamento, sua dedicação e obediência à família, às leis e às religiões locais e considerava a frugalidade e a piedade centrais para uma sociedade saudável. Isso tudo constitui o que Sorel chamava de a “tradição heroica” grega: a força marcial, que era reverenciada como algo essencial e louvável da vida, advinha da educação nos poemas clássicos e era na guerra que a estrutura social encontrava toda sua razão de ser. A guerra e o conflito, para Sorel, avançam a sociedade e aguçam o senso de coletividade, heroísmo e sacrifício dos cidadãos. Trabalho, ação, guerra e sacrifício eram os valores nobres dos gregos que Sorel tinha em alta conta e culpava Sócrates por tê-los destruído.[3]

Sócrates, condenado ao sucídio por cicuta, um resultado comemorado por Sorel.
Mas como, aos olhos de Sorel, Sócrates destruiu a antiga sociedade heroica grega? Sorel não está querendo dizer que foi exclusivamente Sócrates o culpado, mas, sim, a filosofia e os sofistas. Sorel distingue duas consequências desastrosas advindas da filosofia socrática: o otimismo e o racionalismo. Por otimismo, Sorel está se referindo ao abandono da visão trágica e religiosa da vida que os gregos tiravam de suas tragédias e poemas clássicos, assim como da tradição de trabalho duro e frugalidade econômica; essa tradição de um sóbrio realismo quanto ao destino trágico da existência e da necessidade de se ater à religião e às tradições sociais foi corroída pela visão otimista da vida trazida pela filosofia socrática. Sócrates era culpado de não compreender a “natureza humana”, que é moralmente instável sem o claro reconhecimento das agruras e dificuldades da vida e a necessidade de se ater às regras de condutas; o otimismo corrói a moralidade coletiva ao fazer crer que o prazer e a felicidade são valores mais importantes que a coesão social, e o que possa impedir o prazer se torna objeto de desdém e ódio. Sorel dá a entender que essa mentalidade otimista andou de mãos dadas com o colapso da civilização grega nas mãos dos macedônios e, depois, dos romanos.[4]
Mas mais preocupante ainda, para Sorel, era o odioso racionalismo filosófico das especulações de Sócrates e dos sofistas. Em sua essência, o argumento soreliano centra-se na mudança ocorrida na mentalidade grega: antes, era pautada pela obediência e crença nos mitos gregos clássicos e nas leis civis e religiosas; com a filosofia socrática, a vida pautada pela tradição foi trocada pela vida do intelecto e das explicações racionais. Para Sorel, tal mudança é um retrocesso. Todos os ensinamentos clássicos oriundos das tragédias e da religião foram reduzidos a um “raciocínio superficial”; os soldados e os marinheiros, antes reverenciados como modelos de conduta e retidão moral, foram substituídos por oradores e demagogos bem-educados; a educação se tornou a preparação para jogos de linguagem e argumentações vazias, em vez de um sólido treinamento para a ação, o trabalho e a guerra; e a fidelidade que era devida à cidade e aos seus deuses foi trocada pela admiração do “mundo das formas e das ideias” platônicas. Uma nova classe de homens que se via diferenciada por seus dotes oratórios e intelectuais surgiu, e a igualdade na pobreza que caracterizava as sociedades clássicas começou a ruir. Sorel aponta que as consequências para a educação pública foram particularmente infelizes: com o otimismo e a fé exacerbada na razão e suas possibilidades, o Estado passou a educar o povo de maneira a controlar o que deveria ser aprendido, o que deveria ser pensando, um estado pedagógico ditatorial.[5]
Está implícito nesses argumentos de Sorel uma concepção de natureza humana que, à primeira vista, não parece muito clara, mas se pode defini-la com mais precisão. Para Sorel, os seres humanos precisam estar criando ou lutando por algo para se realizarem com a sua natureza social, caso contrário, cairão no hedonismo e no materialismo egoísta e isso “exige não ceticismo e raciocínio crítico, mas uma vida comum de trabalho dentro das associações naturais da humanidade — a família, a tribo, a polis”[6], isto é, a comunidade. Sorel acreditava que o mundo moderno da sua França do fin di siécle “estava em declínio devido à prevalência de interesses econômicos e políticos estreitos” do mesmo modo que a antiga civilização heroica grega estava em declínio nas mãos dos sofistas.[6] Um declínio marcado pela ascensão do racionalismo e do liberalismo individual depois da Revolução Francesa, e a luta soreliana é uma luta de regeneração que busca levar o indivíduo às suas raízes heroicas e comunitárias que foram extirpadas pela sociedade burguesa.
Mas, então, o que deve ser retirado da visão soreliana da antiguidade clássica? Principalmente, que a moralidade é fruto de uma concepção compartilhada coletivamente e que é forjada por meio da ação heroica e do sacrifício; a necessidade de produção e defesa coletiva de uma comunidade forja nos indivíduos o caráter e os dignifica.[8] Essas ideias, expostas num dos primeiros livros publicados de Sorel, expressam traços importantes de sua visão de mundo moldada após décadas de viagens pela França em contato com todo tipo de gente humilde e trabalhadora do campo. São importantes porque pode-se perceber, analogamente, que Sorel via o mundo burguês do fin de siècle francês da mesma forma que via a Atenas pós-socrática. Tal relação é a chave para se compreender a principal luta movida por Sorel contra a decadência do mundo burguês, pela qual ele arregimentou o sindicalismo e o marxismo como principais armas de combate.
A civilização burguesa do século XIX caracterizou-se por um otimismo acerca das possibilidades tecnológicas e científicas alcançadas pela revolução industrial, assim como pelo sentimento acrítico da continuação da paz e do progresso humano, já que a Europa não via uma conflagração relevante desde as guerras napoleônicas, terminadas em 1815. A filosofia mainstream enveredou pelo caminho do positivismo, o ápice do otimismo com a visão que toda a realidade, tanto natural quanto social, pode ser explicada pelo método científico, isto é, a razão, a ciência e o progresso — a tríade iluminista do século XVIII — finalmente chegaram para levar a humanidade para uma ascensão ininterrupta. Para Sorel, esse estado de coisas é filho de Descartes, dos philosophes racionalistas, Comte, Saint-Simon, Locke e toda a pletora de pensadores liberais e democratas que entronizou a democracia liberal como o ápice do pensamento político humano. Adicionalmente, explica-se parte do pessimismo de Sorel pelo fato que a França do século XIX, no qual ele cresceu e amadureceu, foi o palco de golpes de Estado, insurreições violentas como as de 1848 e 1871, e escândalos políticos como o caso Dreyfus, eventos que contrastam violentamente com as expectativas otimistas do iluminismo. Quando Sorel finalmente apareceu na vida pública como intelectual no fin de siècle, na meia-idade, o iluminismo, o materialismo e o liberalismo já se encontravam sob assalto e ele se juntou à luta.
Sorel foi um católico dedicado durante a vida toda, e um de seus amigos mais próximos, entre 1895 e 1905, foi Charles Péguy, a personalidade mais famosa do cristianismo social francês. A fé católica é um dos principais traços perceptíveis da personalidade de Sorel que informa sobre o conteúdo de suas ideias: ele nutria empatia e consideração para com o povo simples do campesinato e do trabalho manual, pessoas devotadas ao antigo catolicismo francês e com forte de ética de trabalho e amor à terra. O cristianismo social foi uma das primeiras forças a se levantar contra o positivismo ao defender que a ciência não podia fornecer respostas e justificativas para a moralidade e os fins da vida humana e nem mesmo prever o futuro ou interpretar a história com acurácia, pontos que Sorel plenamente concordava.[9] No século XIX o cristianismo e o socialismo frequentemente andavam juntos, e não é difícil perceber o porquê: o cristianismo possui longo histórico de empatia aos desafortunados, assim como uma forte vertente franciscana de aversão ao luxo e os excessos desse mundo, enquanto o socialismo ainda não havia sido monopolizado pela vertente materialista marxista. O socialismo de Sorel começa com o foco na regeneração moral dos trabalhadores franceses, como explicou seu amigo Charles Péguy:
Nosso socialismo era essencialmente, e além do mais oficialmente, uma teoria geral, uma doutrina e método, uma filosofia de organização e de reorganização do trabalho, a restauração do trabalho. Nosso socialismo foi essencialmente, e além do mais oficialmente, uma restauração, uma restauração geral e universal. O que estava em jogo era uma restauração geral, começando com o mundo da classe trabalhadora; uma restauração total fundada na restauração anterior do mundo do trabalhador. Tratava-se de tornar saudável o mundo do trabalhador em geral, de restaurar a saúde de toda a cidade, orgânica e atomicamente, a começar pelo indivíduo. Esse foi o método, a ética e a filosofia geral de M. Sorel, ele mesmo um moralista e filósofo, que encontrou sua expressão máxima em sua obra.[10]

Charles Péguy (1873–1914), socialista, católico francês e amigo de Sorel.
Não há dúvidas que Sorel via a classe trabalhadora francesa como o principal veículo para a regeneração moral da nauseabunda civilização burguesa do fin de siécle, e, para tanto, era necessário a regeneração moral da própria classe trabalhadora. Mas por que exatamente Sorel via o proletariado como o principal agente da regeneração moral da sociedade burguesa? Porque os intelectuais, a ciência e a razão não são capazes de “penetrar nos mistérios mais profundos da mudança social que há muito tempo era um conhecimento comum à religião”[11]. É a simplicidade e a ética religiosa de trabalho e sacrifício do proletariado que pode renovar o mundo, e não o excessivo otimismo dos intelectuais positivistas e racionalistas. Há, para Sorel, um mistério em certas áreas da realidade social que não são possíveis de interpretação pelos procedimentos puramente científicos, cantos obscuros da mente humana que só a religião e o mito podem movimentar: “A mística da Igreja, a ideia da salvação eterna, torna-se o mito do socialismo, a ideia da salvação no plano temporal”.[12]
Embora uma parte do mito soreliano possa ser traçado nessas raízes católicas do próprio Sorel, não se pode confundir um com o outro: o mito não é uma criação divina ou sobrenatural, é essencialmente um fato sociológico elaborado pelo próprio homem atuando na história. O cristianismo é um mito, porque, independentemente da sua verdade ou falsidade, os homens acreditam nele e atuam de acordo com essa crença, e não há motivos para duvidar da sinceridade do catolicismo de Sorel, mesmo porque essa concepção de mito não está em contradição com sua fé.
A funcionalidade do mito na mente das massas é um ponto importante do pensamento soreliano e outra de suas raízes podem ser traçadas na filosofia de Henri Bergson, cuja influência sobre Sorel foi considerável. O principal objetivo de Bergson era criar uma “metafísica positiva” que pudesse salvaguardar o homem do positivismo e do determinismo tão vigentes na época, garantindo um grau de liberdade para o exercício do livre-arbítrio e da dimensão espiritual do ser humano. Bergson procedeu por cunhar uma filosofia voltada para a intuição, isto é, a habilidade de apreender o “real” de modo espontâneo e direto, sem a intermediação das ferramentas lógicas, e o resultado de tal processo resultaria na ação criadora do homem. Ainda mais importante é que, durante esse processo, a intuição cria “imagens” na mente do indivíduo, que se juntam para formar a “matéria”: “Eu chamo a matéria de agregado de imagens, e percepção da matéria essas mesmas imagens referindo-se à eventual ação de uma determinada imagem, meu corpo”.[13] A ação humana é movida primeiramente por essa relação de imagens que se formam na mente, em vez de uma sopesada equação racional: “A ação necessária ocorrerá automaticamente, quando chegar a hora”,[14] após uma conjunção de imagens específicas se formarem. As consequências dessa filosofia se tornam claras quando o próprio Bergson expressa o seu juízo acerca do que é o homem: “Meu corpo, um objeto destinado a mover outros objetos, é, então, um centro de ação”.[15] O indivíduo se torna um objeto maleável e moldável baseado nas imagens que ele processa na mente, propalando-o a alguma ação.
Aqui, é possível traçar uma intersecção do sorelismo com os elitistas, especialmente o antropólogo francês Gustave Le Bon, que no seu Psychologie des foules também fez referência a potencialidade das imagens na mente da massa: “Uma multidão pensa em imagens, e a própria imagem imediatamente evoca uma série de outras imagens, sem nenhuma conexão lógica com a primeira”[16]; e Vilfredo Pareto que, em 1922, na ocasião da morte de Sorel, teceu elogios às contribuições dele para o avanço da ciência social. Pareto especificamente comenta que o “mito soreliano” é extremamente similar ao seu conceito de “derivações (derivazioni)”, isto é, uma coleção de imagens capazes de expressar sentimentos e levar os homens à ação, sendo assim, um componente essencial na sociologia da ação política.[17]
Os intelectuais, inundados no racionalismo, no positivismo e no otimismo do fin de siècle, são incapazes de articular e empurrar as massas à ação política, e somente as imagens do mito adequado podem quebrar essa letargia. Sorel é bem explícito quanto à função do mito do socialismo na guerra contra a decadência do mundo moderno:
A linguagem comum não poderia produzir esses resultados em qualquer certa maneira; deve-se recorrer a coleções de imagens que, tomadas em conjunto e apenas pela intuição, antes de qualquer análise ponderada serem feitas, são capazes de evocar a massa de sentimentos que correspondem às diferentes manifestações da guerra empreendida pelo socialismo contra a sociedade moderna.[18]
Essa “guerra empreendida pelo socialismo contra a sociedade moderna” é uma frase importante porque realça a verdadeira prioridade de toda a empreitada revolucionária de Sorel: destruir a decadente sociedade burguesa e renovar os valores morais e heroicos por meio da ação violenta do proletariado. Para Sorel, o proletário é um análogo moderno do guerreiro espartano que entrava na batalha munido dos mitos da grandeza do seu povo e sua cidade-Estado, e para os quais nenhum sacrifício era considerado grande demais, um eficiente “protótipo da personalidade autoritária com uma causa, para a qual nenhuma barreira é intransponível”.[19] A sociedade burguesa e capitalista, pelo contrário, somente pode fornecer como protótipo de “herói” um “neurótico felizmente alienado, habitando um mundo privado no qual a aquisição material substitui os ideais” mais elevados e sublimes da ação e sacrifício. O vigor do proletário é sua capacidade de agir heroicamente por meio de mitos que agem como imagens captadas de maneira intuitiva, e a importância disso pode ser compreendida quando se entende que tanto Sorel quanto Bergson “procuraram esticar a consciência além dos limites confinantes da razão e da inteligência”.[20] É uma revolta contra o positivismo dominante da época e uma tentativa desesperada de fazer um retorno “para dentro” do mundo subjetivo das ações humanas, em busca de respostas para a decadência da sociedade.

Os proletários, treinados nos sindicatos, assaltando a citadela do capitalismo burguês.
Há claramente em Sorel um desconforto com a húbris do positivismo e do iluminismo e suas intenções de objetividade universal e progresso contínuo, e a questão crucial que os pessimistas do fin de siècle se colocaram é: pode a ciência satisfazer a demanda insaciável por significado? A resposta, para Sorel, é um óbvio “não”. O significado existencial, histórico e social do homem somente pode ser derivado da ação heroica em nome de algum mito construído pelos próprios homens. A ciência e a razão são incapazes de fornecer qualquer significado para a ação humana além de constatações de fatos empíricos, enquanto o que o homem necessita no seu âmago é a construção de uma narrativa que imprima sua existência com significado histórico e social.
Assim, a história, para Sorel, é baseada numa distinção primordial: a história “factual e empírica” e a história “mitológica”. A história empírica é aquela analisada pelos cientistas e objeto de especulação pelos racionalistas e, a princípio, não há nada de errado nisso; o problema surge quando os cientistas e os racionalistas se cegam à existência da história mitológica. Esse engano é, em essência, a raiz do otimismo e do determinismo histórico que Sorel tanto detestava, e um dos objetivos da sua empreitada era reabrir a consciência dos seus contemporâneos à realidade do aspecto mitológico e irracional da ação dos homens na história. O aspecto mitológico da história, na sua característica “social”, somente pode ser explicado fazendo recurso à dimensão psicológica e subjetiva da ação humana, aspecto esse que o determinismo e o positivismo completamente, quando não apenas ignoram, subjugam sob construções racionalistas. Sorel herdou a importância da história mitológica de Giambattista Vico, filósofo italiano um dos principais precursores da sistemática filosofia da história. Na sua Scienza Nuova, Vico defende que a metafísica jamais conseguirá explicar a história social do homem, mas que a história social do homem pode apontar o caminho das origens da metafísica;[21] isso quer dizer que os homens devem, nas palavras do próprio Sorel, “procurar a origem de nossas construções metafísicas nas construções mais ou menos empíricas da existência social”.[22] Para Vico, como também para Sorel, isso implicava que é insensato considerar que a história tenha algum alinhamento teleológico justamente porque a história do homem pertence somente ao homem e não a deus, a quem apenas o mundo metafísico diz respeito. A história humana é eivada de adversidades e contingências e o caminho nunca se encontra traçado de antemão, mas cabe aos homens criarem um futuro pelas suas próprias mãos; é uma história cíclica apenas no limite de que o que ganha vida algum dia cairá em decadência e morrerá, e é esse aspecto da filosofia histórica de Vico que teve grande impacto em Sorel justamente porque serviu como uma vacina contra a ideia do progresso contínuo.
Sorel foi convencido por Vico que a ideia de um determinismo histórico é, no fim das contas, uma ideia fatalista e que leva a letargia e inação no mundo concreto, e isso é inaceitável. É justamente a ação heroica e violenta que abre novos caminhos na história do homem; é a ação que tem que constantemente restaurar o mundo social da decadência natural da história. Para Sorel, o ponto de partida de toda investigação histórica é o pressuposto da primazia da ação criadora do homem na própria história, e, assim, o palco está aberto a qualquer grupo violento, dedicado e suficientemente disposto ao sacrifício para conquistar seus objetivos. A história não trará revolução, mas é a revolução que avançará a história.
O pessimismo de Sorel não é derivado de uma negação absoluta de qualquer possibilidade de progresso ou melhoria na condição do homem na terra; é, pelo contrário, uma reação a um otimismo que ele achava sem qualquer fundamento. Sorel era cristão e, se formos assumir a sinceridade de sua fé, a possibilidade de redenção e alguma medida de justiça não era alheia a seu pensamento. Contra a fé acrítica no progresso contínuo do iluminismo, Sorel buscou trazer uma visão realista da evolução histórica do homem:
A fusão, então, de elementos conscientes e inconscientes (da ciência e do mito) produz um progresso real. Essa reciprocidade desacredita a concepção iluminista de história racional e suas românticas extensões utópicas do século XIX. O apelo à consciência racional como a mola mestra da história de Holbach a Hegel ignora o papel decisivo da inconsciência. É precisamente o conhecimento desse inconsciente que “nos permite explicar fenômenos históricos do tipo mais complexo sem a menor dificuldade”.[23]
A decadência da sociedade burguesa capitalista pode ser superada com a criação de novos valores morais heroicos oriundos da ação de alguma classe social vigorosa o bastante, e o proletariado é essa classe justamente porque está atuando no seio da sociedade industrial e sua destreza no manejo da produção econômica a coloca como a mais preparada para herdar toda a capacidade produtiva capitalista, justamente porque Sorel nunca intencionou destruir a capacidade técnico-científica do capitalismo. A ciência e o avanço industrial devem ser domados e controlados pela ação proletária, e não rejeitados na ideia espúria de retornar a um romântico passado bucólico. A revolução e a violência proletária têm um papel catártico ao destruir os valores decadentes e a corrupção moral da sociedade burguesa — como o positivismo, o racionalismo e o ateísmo — , ao mesmo tempo que preserva os avanços científicos e industriais. Essa visão soreliana de uma renovação moral e espiritual do novo homem socialista é retirada diretamente da sua fé cristã, de modo que Sorel “ressuscitou o ascetismo das ordens cristãs tanto como um antisséptico para a corrupção do trabalho sob o capitalismo industrial, quanto como um símbolo perfeito para o futuro homem socialista”.[24]

Giambattista Vico e Georges Sorel.
Por meio dessa “ressurreição do ascetismo” cristão, Sorel pôde trazer ao seu pensamento tradições antigas que ele tanto admirava, como, além do já citado ascetismo cristão, o heroísmo grego e a resiliência judaica, mas não se deve confundir esse tradicionalismo com algum tipo de conservadorismo e reacionarismo, pois o aspecto tradicional de Sorel é puramente pragmático no sentido de auxiliar a confecção de mitos revolucionários capazes de derrubar a ordem vigente da sociedade burguesa: “Em meio à destruição quase completa dos valores morais”, Sorel “colocou suas esperanças na preservação da tradição como o meio principal de manter a virtude e a possibilidade de civilizações vivas.”[25] Nessa fórmula pragmática, os antigos valores religiosos e guerreiros se tornam concepções revolucionárias, porque impulsionam, mitologicamente, a classe proletária na luta para a criação dos seus próprios valores.
O sorelismo é uma curiosa junção do Novo Testamento com o Manifesto Comunista, e isso foi possível porque, diferentemente de Péguy, Sorel nunca cogitou bater em retirada conservadora para os braços de Igreja e advogar um retorno a uma sociedade tradicionalista, um utopismo; pelo contrário, a sociedade moderna requer estratégias modernas para a transvaloração dos valores: o que é essencial e radical no cristianismo agora se encontra representado no socialismo. Dessa forma, segundo Sorel, o socialismo precisa criar seus próprios símbolos, mitos e rituais específicos para levar a luta contra a sociedade burguesa a sério.
Sorel se encontrava num impasse: o socialismo revolucionário não podia se apoiar na Igreja Católica e muito menos no Estado burguês, seu principal inimigo; era necessário encontrar uma instituição que tivesse a capacidade organizativa do Estado burguês e a força mítica de instilar uma moralidade de ação coletiva como a Igreja Católica. Sorel encontrou a resposta nos sindicatos.
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REFERÊNCIAS:
[1] JENNINGS, J. R. Georges Sorel. The character and development of his thought. New York: Palgrave Mcmillan, 1985, p. 3–4.
[2] OHANA, David. Georges Sorel and the rise of political myth. History of european ideas, [s. l.]: v. 13, n. 6, p. 733–746, 1991.
[3] JENNINGS, 1985, p. 19–21.
[4] Ibid., p. 23–24.
[5] Ibid., p. 24–27.
[6] VINCENT, K. Steven. Georges Sorel in North America. [s. l.]: History Department, North Carolina State University, 2008, p. 1460.
[7] Idem.
[8] GREGOR, A. James. Marxism, Fascism and Totalitarianism, chapters in the intellectual history of radicalism. Stanford: Stanford University Press, 2009, p. 146.
[9] HOROWITZ, Irving Louis. Radicalism and the revolt against reason: the social theories of Georges Sorel with a translation of his essay on “the decomposition of marxism”. Routledge: Taylor & Francis Group, 2009, p. 17.
[10] Ibid., p. 19.
[11] Idem.
[12] Ibid., p. 19–20.
[13] BERGSON, Henri. Matter and memory. London: George Allen & Unwin Ltd New York, The MacMillan Company, 1929, p. 8, grifos meus.
[14] Idem.
[15] Ibid., p. 5–6.
[16] LE BON, Gustave. The crowd: A study of the popular mind. New York: The Macmillan Co., 1896, p. 23.
[17] PARETO, Vilfredo. “Georges Sorel”, em La Ronda, 1922. Apud Irving Louis Horowitz. Radicalism and the revolt against reason: the social theories of Georges Sorel with a translation of his essay on “the decomposition of marxism”. Routledge: Taylor & Francis Group, 2009, p. 1.
[18] SOREL, Georges. Reflections on violence. Cambridge: Cambridge University Press, 2004, p. 113.
[19] HOROWITZ, 2009, p. 130.
[20] Ibid., p. 43.
[21] Nesse sentido, Vico é um precursor de Feuerbach e Marx quando se trata da concepção natural da história e da religião.
[22] SOREL, Georges. Étude sur Vico, no Le Devenir Social, 1896. Apud Irving Louis Horowitz. Radicalism and the revolt against reason: the social theories of Georges Sorel with a translation of his essay on “the decomposition of marxism”. Routledge: Taylor & Francis Group, 2009, p. 93.
[23] HOROWITZ, 2009, p. 99–100.
[24] Ibid., p. 101.
[25] JENNINGS, 1985, p. 152.
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