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Texticulo 11: Papo de esquerdista

Hoje em dia, eu não tenho mais dúvidas de que Dilma Roussef foi retirada da presidência por uma razão e uma única razão: ser mulher. As…

Textículos · 2023-12-20 15:34 · 0 claps · 4.7 min read
#dilma-rousseff #elite-brasileira #esquerdista #impeachment-2016 #poder
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Que Deus tenha misericórdia desta nação.

Que Deus tenha misericórdia desta nação.

Texticulo 11: Papo de esquerdista

Hoje em dia, eu não tenho mais dúvidas de que Dilma Roussef foi retirada da presidência por uma razão e uma única razão: ser mulher. As pedaladas fiscais não existiram, e eu não tenho tempo e não me preocupo em validar meus argumentos, sugiro a quem se interessar, pesquisar. A partir daqui, chame o que aconteceu de golpe, processo parlamentar, ou banana, o que interessa é que na raiz do impeachment está uma das pernas da estrutura de poder vigente no Brasil: o patriarcado. O patriarcado brasileiro tem as características machistas mais evidentes e abarca outras dimensões discriminatórias, como homofobia, racismo, criminalização da pobreza e a rigidez social em oposição à ascendência das classes desfavorecidas da população. Não é a toa que os protestos de rua no segundo mandato da primeira mulher presidenta do Brasil eram compostos pela classe média ariana, cujas lideranças sentavam-se a mesa com corruptos notórios reivindicando, tcharããã, o fim da corrupção. A Lava Jato, que embasava os protestos, fixou seu alvo nas esquerdas por óbvia associação com o projeto de reafirmação do poder da elite. Na origem, a operação talvez tenha buscado combater práticas ilícitas, mas aos poucos transpareceu o caráter de projeto político associado a tomada de poder pela direita. Afinal, aquilo que foi plantado nos governos petistas nas áreas sociais, nas políticas de afirmação das minorias, na proteção e empoderamento das mulheres, na distribuição de renda, tudo que as elites acham desimportante, ou indesejável, estava dando frutos. Hoje em dia está claro que a Lava Jato era uma operação política, não judicial. Papo de esquerdista? Chamo de lógica histórica.

Um dos aspectos mais interessantes do patriarcado nacional é a ideia de subjugar o meio ambiente como forma de exaltar a força do homem, ou seja, o homem deve dominar a natureza. Isto nos leva ao segundo apoio da estrutura elitista. Primeiro, entenda que subjugar a natureza tem um custo alto, e um lucro igualmente alto. Segundo, o patriarcado é uma falsa expressão de força. Imagine o patriarcado sem a escravidão. Ou os séculos em que as mulheres representaram o verdadeiro poder sem nem precisar exercê-lo. Portanto, é necessária uma segunda perna para sustentar o poder constituído, esta talvez a mais poderosa e a única que fica em pé sozinha. Se chama dinheiro. O dinheiro nada mais é do que uma medida de valor. Precificar nada mais é do que usar diversos parâmetros para definir o valor em moeda de objetos, serviços, instituições e principalmente humanos. Chamamos investimento a possibilidade de ganhar dinheiro no futuro com dispêndio financeiro atual. Esta lógica governa o mundo. O problema é que o dinheiro que sempre foi um meio, tornou-se um fim. A medida de valor atual de uma pessoa é a quantidade de dinheiro a que a pessoa tem acesso, seja moeda, seja patrimônio. Isto está na raiz do sistema de privilégios que alimentam o patriarcado, historicamente dominador dos sistemas financeiros e produtivos. Estas duas dimensões, patriarcado e sistema capitalista, formam a institucionalidade que valida o sistema de poder, retroalimentando-se: o patriarcado com a histórica dominação dos meios produtivos e financeiros e os meios produtivos e financeiros usando a lógica patriarcal determinística para justificar a organização social que privilegia a si mesma e discrimina a maioria da população. Papo de esquerdista? Eu chamo de capitalismo pleno.

A terceira perna é a mais difícil de definir, pois está relacionada com diversas dimensões individuais que formam um grupo com características semelhantes, embora diversas na sua atuação, dependendo da sua proximidade com o topo da pirâmide social. Um dos aspectos mais generalizados é a arrogância. São pessoas que se consideram melhor que as outras, como se seu nascimento fosse determinado pela divindade. Em paralelo a isso está a hipocrisia, uma forma de minimizar os pecados e eventuais crimes de quem guarda certas características raciais e sociais, ante um hiperdimensionamento das atitudes de quem não represente o status quo. Um rapaz branco com uma trouxa de maconha na zona sul do RJ é um usuário, o rapaz negro na favela é traficante. O homem que trai é guiado por instintos primitivos, a mulher é puta. Não quero ir além nos exemplos, mas aceito sugestões. Temos ainda o que se convencionou chamar negacionismo, que eu prefiro chamar de obscurantismo, por remeter ao século que essas pessoas merecem ser enquadradas. Esta é uma dimensão útil pra quem quer ganhar dinheiro por se aproveitar da estupidez alheia. O obscurantista não acredita, por exemplo, nas mudanças climáticas causadas pela ação humana. Da mesma forma, credita a escolhas algo que claramente é imposto a outrem, como morar nas encostas dos morros que podem desabar na menor mudança do índice pluviométrico. Uma mudança inevitável visto que estamos interferindo no clima como nunca antes. A cereja deste bolo é a ignorância, mas não intelectual, ignorância emocional. É um erro e contraproducente considerar que estas pessoas sejam desinformadas, ou desinstrumentalizadas, para compreender seus pensamentos e atos. A maioria é educada, no sentido de que são plenamente capazes de compreender seus atos e escolhas. Ou seja, tem consciência do mal que estão fazendo e escolhem por conveniência seguir o mesmo caminho. E foda-se, se vestiu esse chapéu, tome dedo na cara. Mais um papo de esquerdista, eu chamo de ‘quem tu pensa que é!!’

Na minha opinião este sistema está em crise. Não, não começou agora, é uma crise histórica gerada pelas próprias características do sistema atual. O impeachment da Dilma foi um ato de desespero, por enxergar o quanto era possível para o Estado fazer aquilo que sempre deveria ter sido sua preocupação, a inclusão social de todos os cidadãos. A elite brasileira seduz a classe média com o discurso de que o Estado é o problema, quando o problema é a própria elite. É o bilionário sonegador, o general que acumula rendimentos, o banqueiro que cobra responsabilidade fiscal enquanto tem criança passando fome. Afinal, pra que serve o sistema? A resposta que transparece é que o sistema serve a ele mesmo. Busca a manutenção de um ambiente discriminatório, exploratório e privilegiatório. E nisto reside a sua grande falha, por acreditar que pode manter isso pra sempre. Por isso a direita brasileira foi abatida e hoje está entregue ao bolsonarismo, ou ao fisiologismo estilo centrão. Os que se chamam conservadores hoje em dia são reacionários que louvam um passado que nunca existiu. Um misto de idade média moral, com mercantilismo econômico, com escravagismo social. Por que, então, esta situação não é combatida socialmente? Porque o povo não é burro, como a elite diz. A pergunta é: o que vem depois de uma revolução é melhor do que está posto? O inconsciente social brasileiro já sabe que piorar é a regra. O consciente ativa o sistema cautela extrema. Por isso o morro não desceu ainda. Mas espere os oceanos subirem, quando o morro será a nova Copacabana. Papo de esquerdista? Oh dear capitalism, it’s time to grow up.

Este texto estava perdido numa pasta do computador desde janeiro deste ano, quando decidi parar de publicar no Facebook, por, digamos, exposição familiar. Pode chamar de vergonha, ou prudência, mas o fato é que estava escrito e agora publicado.


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