Sobre louças, macacos e desigualdades
Eu curto lavar louça. Esse momento é o ideal para apreciar um bom podcast (mídia do qual sou um amante e defensor), uma boa música ou até…
Sobre louças, macacos e desigualdades

Eu curto lavar louça. Esse momento é o ideal para apreciar um bom podcast (mídia do qual sou um amante e defensor), uma boa música ou até alguma peça audiovisual que não exija atenção plena. É algo que tenho feito bastante nessa quarentena.
Há quem não suporte a tarefa. Não sem razão: basta se lembrar daquele resto bizarro de comida que sempre sobra no fundo da pia… Do qual, aliás, dada minha vasta experiência no assunto, já não tenho tanto nojo assim. Quer dizer, até tenho, mas lido bem com a situação.
Há uma máxima a respeito da louça suja (mais especificamente para evitar seu acúmulo): “sujou, lavou”. Parece bem justo e prático, não é verdade? Mas essa é, claramente, uma conclusão tomada por alguém que mora sozinho ou mora com pessoas que não dependem umas das outras. Num grupo padrão de seres humanos (uma família, por exemplo), isso não costuma funcionar. Ou, pelo menos, exige exceções.
Explico, claro. Pode até haver situações especiais em que os papéis mudam num grupo, mas o padrão é que uma mesma pessoa tenha o costume de cozinhar. Essa tarefa pode gerar uma quantidade substancial de louça suja — incluindo itens que fazem bastante volume na pia e podem dar bastante trabalho para lavar, como panelas. Não é uma estimativa ruim dizer que essa pessoa é aquela que mais gera louça suja no grupo. No entanto, é aquela que tem o dom de transformar víveres sem graça em belas refeições. Como exigir que esse ser abençoado lave a louça suja que produz?
Existe um famoso experimento feito com macacos-prego. Eles eram recompensados com comida sempre que entregassem uma pedra ao tratador. Dois dos macacos foram colocados lado a lado, de forma que pudessem ver o tratamento dado ao colega.
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Ao primeiro, foi entregue um pedaço de pepino, que ele aceitou prontamente. Já ao segundo, pela mesma tarefa, foi oferecida uma uva — considerada uma iguaria entre esses bichos. Ao ver isso, o primeiro prontamente executou a ação a fim de receber a mesma recompensa. Mas tem como prêmio… mais pepino.
Sua reação é, no mínimo, engraçada para nós. Mas o que passa pela cabeça do pequenino não deve ser publicável… O estudo tentava identificar a noção de justiça entre animais. O primeiro macaco estava lidando bem com a situação quando a recompensa é a mesma para todos, mas claramente se rebela ao ver que o outro tem algum tipo de privilégio.
Existe um outro experimento bem interessante. Você e outra pessoa vão ganhar uma certa quantia em dinheiro. Seu colega vai definir quanto cada um vai receber da grana. Você não pode interferir nessa decisão, mas tem outro poder: decidir entre aceitar ou vetar o que o outro impõe. Se você vetar, ninguém ganha nada. O que você faria se, ao receber R$ 100, seu colega ficasse com R$ 95 e te oferecesse R$ 5? Pela lógica pura e simples, aceitar e receber os R$ 5 é melhor do que vetar e não receber nada. Mas por que a situação é tão incômoda que faz com que a opção do veto seja quase inevitável? Por que temos vontade de jogar essa merreca na cara do nosso tratador e ameaçar fugir da nossa gaiola?
A questão é a desigualdade, obviamente. Nós (e não falo só de humanos) temos essa noção de que o tratamento de todos no grupo tem que ser igual. Daí os inúmeros textos que falam que um povo mais feliz não está, necessariamente, numa nação rica, mas, sim, numa em que os níveis de desigualdade entre a população são mínimos. De um modo geral, as pessoas tendem a estar felizes se todos estiverem comendo uvas, mas também estarão felizes se todos estiverem comendo pepinos. Ainda bem que diminuir desigualdades é uma preocupação plena de nossos políticos (enquanto comem uvas), né?
Claro que as situações no cotidiano não são tão simplistas quanto nesses experimentos. As coisas costumam envolver muitas variáveis e contextos. Assim, se as pessoas não dependem diretamente umas das outras, realmente é justo que cada uma lave a louça que sujar. Mas se você depende de alguém para cozinhar pra você, o mais justo seria que a louça gerada durante a preparação das refeições, pelo menos, fosse lavada por quem só come.
É o que eu faço aqui em casa. Parece que está funcionando.
메타데이터
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- 2026-07-28 20:13:00