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Quem é Mariko? O luto e aqueles que ficam.

A imagem nunca vista de alguem que não esta mais aqui.

Guilherme · 2025-04-06 00:46 · 1 claps · 9.7 min read
#manga #broken-mariko #depressão #luto #aceitação
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Quem é Mariko? O luto e aqueles que ficam.

Hoje pretendo trazer um pequeno texto sobre uma obra que me marcou: My Broken Mariko, de Waka Hirako. Assustadoramente sensível, dolorido, angustiante, amoroso, tragicômico, libertador — é uma conversa pessoal sobre o luto e sobre quem fica.

Afinal, quem é Mariko?

Enquanto escrevia este texto, cheguei à conclusão de que talvez ele mereça um aviso. My Broken Mariko é uma história sobre suicídio, luto, abuso e dor. É uma jornada de sofrimento que pode acabar atingindo gatilhos sensíveis em alguém. E, por mais que não seja exatamente visceral ou visualmente muito explícito, vou usar imagens do mangá e falar de seus temas com o máximo de sensibilidade que conseguir. Ainda assim, sinto a necessidade de avisar: quem continuar, faz isso por sua conta e risco.

No final do dia, é só um artigo besta sobre um mangá. Então, se te incomodar ou te engatilhar, pare de ler. Se sentir necessidade, ligue 188 — o Centro de Valorização da Vida.

Um começo forte.

Um começo forte.

Olá, simpático leitor da internet, tudo bem? Novamente, a cada morte da bezerra, você pode me encontrar aqui. Começo este texto já subvertendo a expectativa criada pelo título: eu não vou conseguir dizer quem é Ikagawa Mariko. Eu não sei quem ela é, e já nas primeiras páginas nos é negada a possibilidade de verdadeiramente conhecer Mariko. Ela morreu, e não existe redenção mundana que possa mudar isso. O mangá não é sobre ela, mas sobre quem ficou.

Dito isso, essa é uma das coisas mais interessantes deste mangá. Pessoalmente, tenho um ponto fraco por personagens como Mariko — aqueles que, embora não existam no presente, conseguem assombrar completamente todo o cerne da narrativa. Mariko está por toda parte: nos personagens, pensamentos, culpas, angústias, sofrimentos… Tudo gira em torno dela, mas ela não está em lugar algum a ser encontrada na obra.

Todos os que ficaram se relacionam com o luto de alguma forma e apresentam uma faceta de Mariko. Conseguimos montar uma figura, mas nunca vê-la em sua plenitude — e essa construção me fascina.

O que temos de Mariko?

Os painéis são editados, inclusive.

Os painéis são editados, inclusive.

A obra segue principalmente a visão da nossa protagonista desbocada, **Shiino Tomoyo**, que atravessa sua jornada de luto enquanto relembra Mariko e a relação que teve com ela.

Sim, meu caro Leitor, você não entendeu errado: isso é tudo o que temos de Mariko. Ela é uma figura emblemática, que revela facetas tanto boas quanto más. Ao mesmo tempo, em que é uma vítima moldada pelo trauma — trauma esse que conhecemos pela perspectiva de Tomoyo —, Mariko também emula essa toxicidade. Por viver nesse ambiente, ela a reproduz: é possessiva e dependente de Tomoyo, busca homens violentos para se relacionar, e sabe que está quebrada.

Todas elas são Mariko

Todas elas são Mariko

Portanto, Mariko é representativa de um todo em sua forma mais natural: a busca por melhora e, ao mesmo tempo, a prisão num ciclo. Ela enxerga em Tomoyo uma figura mais maternal do que a própria mãe. Procurando uma solução para seu sofrimento, ela busca no mundo tudo aquilo de tóxico com o que está acostumada. A única coisa alheia a isso em sua vida é justamente Tomoyo — alguém que ela não consegue nem conceber a ideia de perder.

Um dos pontos centrais deste mangá é isso: a busca pelo fim do sofrimento. Mariko queria isso. Tomoyo entra em sua própria jornada de luto para entender o significado desse sofrimento e superá-lo. Outros personagens, como o pescador, já passaram por esse processo — eles estão em busca de uma “iluminação”.

Em algum momento deste artigo, vou aproximar essa discussão do budismo. Quando percebi essa relação durante a pesquisa, tudo ficou ainda mais claro.

A jornada de Mariko é direta e brutal: ela foi abusada pelo pai, e então morreu. Mas seu sofrimento não acabou aí — mesmo após a morte, ela não consegue escapar da sua prisão.

Tomoyo decide recuperar os restos mortais de Mariko, que estavam na casa de seu abusador. Mesmo depois de tudo, aparentemente, o pai de Mariko não conseguiu lhe conceder nem a liberdade póstuma.

Talvez não convencional, mas, certamente uma heroína.

Talvez não convencional, mas, certamente uma heroína.

Então, meu caro leitor, essa é Mariko — personagem de uma tragédia comum. Ela poderia ser uma conhecida, podia ser uma amiga. Viveu uma vida miserável e morreu. Tudo o que temos dela são as lembranças: de quem a amava e de quem lhe fez mal.

E é isso que move Tomoyo ao longo da trama.

Quem são aqueles que ficam?

Acho que, depois dessa apresentação quase em culto à Mariko, venho falar sobre quem a história é realmente sobre.

Antes de começar este tópico, quero deixar algo claro: não pretendo julgar, especialmente do ponto de vista moral, a Mariko ou qualquer um que tenha decidido seguir esse caminho. Espero, também, que você, meu caro leitor, consiga me acompanhar de mente aberta.

Para mim, o suicídio é uma escolha que exige muita coragem — e não estou dizendo isso positivamente. Quem parte, deixa de “existir” singularmente. Quem fica, permanece com as memórias, com a idealização da pessoa que se foi. Aquele que parte não consegue mais pensar enquanto quem fica, é quem precisa entender e racionalizar aquele sofrimento.

Da mesma forma que não se suicidar, também é uma escolha — uma escolha feita diariamente.

Já dizia Albert Camus:

“O suicídio é a resposta à absurda questão do significado da vida. Quando alguém se pergunta por que viver, ele se encontra diante da absurdidade.Contudo, o suicídio não é a solução para o absurdo; a resposta a ele é, paradoxalmente, a revolta.”

E eu penso coisas parecidas. O suicídio pode ser visto de muitas formas, mas essa não é exatamente uma história sobre isso. Esta é a história daqueles que ficam. Aqueles que precisam encontrar sentido no sofrimento. Aqueles que tentam entender por que nossos entes queridos nos deixaram por vontade própria. Essa não é a história da Mariko. É a história da Tomoyo — e de sua jornada de aceitação.

Tomoyo Shiino

Apresentando agora nossa heroína: Tomoyo. Ela é uma figura — e, provavelmente, a melhor coisa do mangá. É por causa dela que My Broken Mariko se torna uma experiência tão agridoce.

Tomoyo é completamente maluca. Ela se joga nas decisões que toma, se perde, apanha no processo… Mas está disposta a tudo para buscar um motivo para aquele sofrimento.

Mariko se foi — e ela não recebeu nem uma carta. Isso revolta Tomoyo. O fato de as cinzas de Mariko ainda estarem presas naquela casa, com o abusador dela, revolta ainda mais.

Então, ela parte em uma jornada: recuperar essas cinzas e levar Mariko ao mar.

Ela não é exatamente a mais graciosa, mas, mesmo sendo completamente atrapalhada, conseguimos entender a extensão do amor de Tomoyo por Mariko.

É verdadeiramente fascinante ver Tomoyo passando pelos cinco estágios do luto, enquanto tenta entender por que a amiga se foi — e não deixou nem uma carta.

Em um ataque de raiva, ela chega a questionar Mariko: por que não me chamou para morrer com você? Mas, como sabemos, Mariko não está em lugar nenhum para responder.

Esse mangá brilha muito através da Tomoyo.

Você sente a dor dela.

Essa é uma história relativamente comum, meu caro leitor. Nem sempre as pessoas se explicam. E, às vezes, recai sobre nós mesmos a responsabilidade de entender — para conseguir lidar com a dor.

Alguns acreditam que o sofrimento tem sentido.

Outros veem no sofrimento mundano a representação do absurdo do universo.

Qualquer racionalização do luto é assustadoramente íntima. Seu cérebro precisa de respostas — mas não vai encontrá-las.

Tudo o que nós, os que ficam, como Tomoyo, podemos fazer…

É seguir em frente.

Da esquerda superior à direita os 5 estágios.

Da esquerda superior à direita os 5 estágios.

Tomoyo rouba as cinzas da amiga, libertando-a de sua prisão. Ela segue para uma cidade costeira que Mariko sempre quis visitar — como uma forma de barganha. Em meio à depressão, ameaça se jogar… e então seguimos para um momento que, honestamente, não poderia ser mais poético.

A catarse não vem com um significado claro para a morte de Mariko. Ela vem com a liberação de suas cinzas.

De forma nada convencional, Tomoyo — ao ver um ladrão da região agredindo uma mulher e sem ter mais nada em mãos — acaba arremessando a urna com as cinzas de Mariko, acertando o agressor e salvando a mulher e caindo de um penhasco….

Em última análise, Mariko ser finalmente liberta de todo o seu sofrimento “salvando” outra mulher de entrar no mesmo ciclo de abuso que ela… é algo realmente belo — apesar de trágico.

Mariko nunca conseguirá ver o mar. Mariko nunca saberá que salvou essa menina — uma menina que Tomoyo só conseguia relacionar a ela. Mas, mesmo assim, ela fez.

E, agora, ela está livre.

Mas… e Tomoyo?

Tomoyo viveu.

Para Tomoyo — e para nós, leitores — não houve exatamente uma verdade catártica que melhorasse a situação. A verdade é uma só: Mariko morreu. E nada pode mudar isso.

Este não é um mangá sobre redenção, mas sim sobre as feridas que ficam.

Pelo resto da vida, Tomoyo vai carregar a sensação de perda. E, sinceramente, acredito que não superamos o luto — aprendemos a viver com ele.

Tomoyo volta para uma normalidade para sempre modificada — agora, sem Mariko. Ela aceita esse fato.

A cena final do mangá, pelo menos, nos dá um fechamento. Nós, leitores, nunca saberemos o que foi dito. E não importa. Nunca seria o suficiente.

Mas Mariko se importava. E ela deixou uma carta.

Dolorido.

Dolorido.

Budismo?

Passei basicamente toda a história ignorando um subtexto importante. Confesso que tive que pesquisar para entendê-lo de forma mais profunda.

Comentei mais cedo sobre o budismo em My Broken Mariko e, em contrapartida às obras ocidentais — que geralmente carregam uma visão cristã, mesmo que não explicitamente — o que acontece nas obras japonesas muitas vezes é uma influência sutil, mas estrutural, do budismo.

Existe, no subtexto da narrativa de My Broken Mariko, uma referência às Quatro Nobres Verdades do budismo, e até uma possível alusão à figuras do budismo, se a gente quiser forçar um pouquinho.

As Quatro Verdades, de forma bem resumida, são:

  • A Realidade do Sofrimento — Viver é sofrer, e o sofrimento está em tudo.
  • A Realidade da Origem do Sofrimento — Existe uma causa para esse sofrimento.
  • A Realidade da Cessação do Sofrimento — Existe uma libertação do sofrimento.
  • A Realidade do Caminho que Conduz à Cessação do Sofrimento — Existe um caminho (o Caminho Óctuplo, que não vem ao caso agora).

De certa forma, o sofrimento da Mariko é cármico. Ela emula e busca, na vida adulta, a mesma toxicidade que sofreu na infância.Mesmo depois da morte, ela permanece presa ao seu abusador.

Tomoyo, ao longo da vida, tentou libertar — sem sucesso — Mariko desses ciclos de violência.

Podemos dizer que a jornada da Tomoyo é uma tentativa de cessar esse sofrimento.

E isso, no contexto budista, seria algo próximo à iluminação.

As cinzas de Mariko são usadas, no fim, para impedir que outra mulher entre no mesmo ciclo de sofrimento que ela viveu. Com esse ato, Tomoyo liberta Mariko — de uma vez por todas — do próprio ciclo de abusos.

A jornada da Tomoyo é uma tentativa desesperada de mostrar à Mariko que existe um fim para o sofrimento — o que se conecta diretamente com a Terceira Nobre Verdade.

Talvez, para um budista de verdade (o que, deixo claro, não é o meu caso), essa análise não seja exatamente precisa. Mas, ao ler artigos e refletir sobre a obra, eu não consigo ignorar uma certa perspectiva budista nessa construção.

Outro ponto curioso: Mariko repetidamente diz que gostaria de ter nascido como filha da Tomoyo. Essa frase volta algumas vezes na obra, e me fez pensar: Será que, após essa resolução cármica, não haveria espaço para reencarnação? Será que Mariko, finalmente livre, poderia renascer como filha de Tomoyo, numa nova vida?

E tem ainda o pescador.

Um personagem secundário, mas que brilha. Ele é a única pessoa que trata Tomoyo com gentileza. Oferece ajuda, comida, dinheiro. Cuida dela, impede que ela se jogue, salva sua vida após ela cair do penhasco.

Ele compartilha que também passou por algo parecido. Tentou se jogar, desistiu. E percebeu que a única forma de manter as pessoas amadas vivas era… vivendo.

Esse homem, desapegado, não materialista, que guia Tomoyo por um momento difícil — me soa como alguém que já atingiu a própria iluminação, e agora tenta ajudar outros a encontrarem a deles.

Será que ele poderia ser uma representação?

Ou será que eu tô forçando demais?

Conclusão

Esse foi, certamente, um texto difícil sobre um mangá lindo.

Sinto que talvez não tenha conseguido expressar tudo que queria — ou da forma que queria — mas o que saiu aqui, saiu do coração.

My Broken Mariko é, sem dúvidas, lindo à sua própria maneira — e trágico na mesma medida.

Ele nos ensina a viver o luto, a aceitar e a seguir.

A vida volta à normalidade depois da perda… Mas as coisas nunca serão as mesmas.

Mesmo assim, continuamos vivendo.

Tomoyo e Mariko

Tomoyo e Mariko

Se você está passando por um momento difícil, recomendo novamente o 188 — Centro de Valorização da Vida. Apesar de eu obviamente não conhecer ninguém que tenha lido isso, nem pessoal nem figurativamente, eu ficaria realmente triste em pensar que alguém chegou até aqui se sentindo sozinho.

Você não está. E seguir vivendo também é um ato de amor.

Caso você tenha se interesado o suficiente e decidiu ler até aqui, agradeço de coração pela atenção.

Autor: Eu (Guilherme)

Recomendação de Musica Aleatoria:

https://youtu.be/bvIMBVBRpJU?si=i_qa2QwN7h043myb


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