Uma noite na D-Edge. Ou: Gabriela e eu.
O Uber demorava a chegar. Ainda estava cedo, é verdade, mas eu queria passar na Alameda Olga, no Teixeira, o lugar do after que em geral é…
Uma noite na D-Edge. Ou: Gabriela e eu.
O Uber demorava a chegar. Ainda estava cedo, é verdade, mas eu queria passar na Alameda Olga, no Teixeira, o lugar do after que em geral é o point de encontro, do antes, portanto. Tinha uma turma pra encontrar lá, uma galera do rolê, mas que eu pouco conhecia e pouco me interessava. E é naquelas: Não é em uma balada que você vai encontrar as pessoas que você vai levar pra sua vida. Okay, Gustavo e Beatriz, há exceções. Ou não. Mas eles ainda fazem parte daquilo que eu chamo de vida. E do que se pode afirmar como minha.
No caminho eu escutava Sweet Child O’Mine como escutei tantas vezes quando adolescente. A noite prometia: A DJ Lilly Palmer, a grande estrela do techno alemão, se apresentaria naquele dia. E para a D-Edge eu seguia. Ao chegar lá uma fila enorme que muito me aborrecia, porque odeio filas e odeio esperar. Mas ainda faltava um tempo para a balada abrir, então teria eu de aguardar. E enquanto eu olhava para o nada apareceu a Gabriela. Já não era mais o nada, era alguma coisa. Ela me pediu uma informação. Quando lhe respondi, ela agradeceu com um “Valeu, cara”. Diversas vezes terminava uma oração com um “saca?”. Saquei.
Mais adiante voltou a falar comigo fazendo perguntas triviais de quem quer puxar assunto, demonstrava nas suas réplicas estar sem rumo, meio sem prumo, uma garota que ainda estava tateando a vida. Riu quando falei que meu nome não era o mais bonito, mas que poderia ser pior, poderia ser Whindersson. Eu resolvi ser cavalheiro e lhe apresentar a casa, que é a melhor de música eletrônica em São Paulo. Ela havia chegado há pouco do interior. E aparentemente se interessou menos pelo lugar do que pela nossa prosa.
A noite foi passando e ela resolveu me chamar para seu apartamento, o barulho alto e mesmo o ar cinzento do andar de cima incomodavam nosso despropositado papo, que surgiu ao acaso e que tomava rumos os mais variados. Confesso que senti alguma insegurança, não gosto de ir a lugares desconhecidos com pessoas que não conheço. Mas só se vive uma vez. Eu sou prudente, mas sou também aventureiro. Eu me amarro em aventuras. E aquela seria mais uma. Por que não?
Não tenho ao certo a noção temporal que separou a saída da casa até aquela que era a nova morada da Gabriela. Lembro que uma janela se abriu e nela se via um Jesus bem grande grafitado em algum lugar. Aquele olhar do divino me intimidava enquanto olhávamos a janela naquela madrugada que a brisa tornava já um pouco fria. E enquanto a visão da frente nos sugava a Gabriela discorria e começava a me dar as primeiras letras da sua vida.
Como alguém pode se abrir tanto a um estranho? — pensava eu a cada detalhe que me contava. Não cheguei a tocá-la, e nem foi preciso para conhecer o seu mais íntimo. Eu estava diante de uma pessoa que tinha dinheiro, tinha muita coisa, mas que ao mesmo tempo não tinha amor, por isso achava que não tinha nada — alguém, portanto, que sofria.
Já eram quase quatro da manhã quando decidi que era hora de recobrar, era momento do diálogo findar. Eu sabia que eu não mais ali voltaria. Há encontros que só se justificam pelo ineditismo, pela excepcionalidade e aquele era um desses. Gabriela e eu não combinávamos em nada com exceção de uma coisa, a que justificava aquela noite: Havia dor no coração de Gabriela e, como asseverou certa feita Terêncio, tudo que é humano não me é estranho. E a dor de Gabriela eu conhecia.
Fui embora. Não olhei para trás. Não queria lembrar nem do lugar para quando passar por perto não rememorar. Não que eu tenha odiado o que havia acontecido. Se assim o fosse, por óbvio, a respeito nada teria escrito. Ocorre que eu sabia que a menina que sofria ali continuaria, que eu poderia retornar se quisesse, mas que eu não deveria. Gabriela gritava por ser enxergada, pelo amor dos pais que não tivera, pela frieza que geralmente era tratada, e deblaterava contra a única forma que a viam: Como uma mulher de extraordinária beleza que excitava. Ela era mais do que isso, decerto. Gabriela era mais que um corpo bonito. Mas talvez Gabriela, na sua caminhada, no que entendia ser seu calvário, sob o olhar da imagem sacra, ainda vá levar algum tempo para descobri-lo.
E tudo bem. Assim é a vida. E aquele foi mais um dia — ou uma noite — em que nossos caminhos se cruzaram. Um dia das nossas vidas, um dia da vida da Gabriela, um dia da vida do Wanderson. E isso bastava.
메타데이터
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