Dançando com o seu fantasma
Eu ando de um lado para o outro no nosso apartamento, encaro as paredes que um dia ouviram nossas risadas, encaro o teto para o qual nós…
Dançando com o seu fantasma
Eu ando de um lado para o outro no nosso apartamento, encaro as paredes que um dia ouviram nossas risadas, encaro o teto para o qual nós dois olhávamos quando ficávamos deitados na cama conversando sem parar, encaro o canto do escritório onde sua cadeira ficava e eu costumava te observar pintar, mas não consigo encarar a mim mesma e a realidade estampada nos meus olhos vazios: você se foi.
Reorganizar os móveis e mudar as cores não muda o fato de que eu me lembro de tudo. Eu me lembro da expressão que fizemos quando decidimos que esse seria o nosso lar. Eu me lembro de onde estávamos sentados quando imaginávamos como seria o nosso casamento. Eu me lembro de cada vez que suas mãos tocaram meu corpo e de onde estávamos. E eu me lembro daquele dia, sentados no sofá, quando você me disse que estava indo embora. Eu me lembro de tudo o que eu gostaria de esquecer, mas como poderia esquecer agora, se essas memórias são tudo o que me resta?
Eu falo com você todos os dias, fingindo que você está aqui. Eu te mando mensagens em um aplicativo que sei que você não verá e finjo que você apenas está ocupado no momento. Eu te desejo bom dia e boa noite, e me permito sonhar que, toda vez que ouço o elevador chegando, você estará dentro dele, me dizendo que se atrasou por causa do trânsito.
Às vezes, me pego guardando pequenas histórias para te contar ao longo do dia. Algo engraçado acontece, eu vejo um cachorro parecido com aquele que uma vez conversamos sobre adotar, vejo um restaurante que sei que nós adoraríamos conhecer, e meu primeiro impulso ainda é pegar o celular para te chamar. Sempre existe aquele breve e cruel instante em que meu coração esquece a realidade e presume que você ainda é a pessoa para quem eu posso contar essas coisas. Então ele se lembra. Ele sempre se lembra.
Eu me agarro a você porque não posso te abraçar, e simplesmente não consigo abrir mão do pouco que ainda tenho. Eu me agarro à esperança porque não existe amor nem vida sem ela, e ela me dá um motivo para sair da cama todos os dias. Eu me agarro às memórias porque, mesmo quando elas me assombram, eu consigo ver seu rosto e ouvir sua voz como se você estivesse aqui comigo.
As vozes na minha cabeça costumavam ser silenciosas, tranquilas. Era algo que eu gostava na minha própria companhia, não parecia que havia uma tempestade dentro da minha mente. Agora, eu não consigo escapar delas. Eu me mantenho ocupada o tempo todo, vou dormir extremamente cedo tentando fazê-las se calar novamente, mas tudo o que faço é tentar, nunca funciona. Elas são barulhentas e impiedosas, me dizem coisas que eu não quero ouvir. Inventam histórias que nunca aconteceram e me fazem questionar minha própria sanidade. Eu discuto com elas, imploro: “Por favor! Fiquem quietas só desta vez”, e quando penso que desapareceram, a tempestade volta outra vez, como se reviver sua ausência fosse meu próprio ciclo pessoal do inferno.
A pior parte é que eu já não confio completamente nas minhas memórias. Irônico, não é? Eu revivo nossas conversas tantas vezes que já não consigo distinguir o que foi realmente dito daquilo que eu gostaria que tivesse sido dito. Analiso cada despedida, cada silêncio, cada expressão no seu rosto, como se houvesse uma resposta escondida em algum lugar dentro delas. Como se, estudando o passado com intensidade suficiente, eu pudesse descobrir uma versão dos acontecimentos em que você ficou. Você me conhece, eu sempre fui viciada em coisas que podiam ser explicadas.
Você sente falta da minha companhia? Você pensa no jeito que eu rio quando vê algo engraçado? Você pensa em mim quando vê um animal que eu gosto? Ou quando sente o cheiro de cinnamon rolls fresquinhos? Quando viaja como costumávamos viajar, deseja que eu estivesse lá também?
Acho que minha pergunta é: você sente minha falta da mesma forma que eu sinto a sua?
Eu não sinto que estou sozinha neste barco, mas enquanto ele afunda, olho ao redor para ver se tenho companhia afundando junto comigo, e não sei se estou sozinha ou se você apenas é muito bom em brincar de esconde-esconde.
Mas vou continuar procurando por você. Vou continuar procurando por você em todos os lugares por onde passar, em cada joaninha que eu vir, em cada carro que passar por mim e em cada música que eu ouvir. Vou continuar correndo para você, com você. Nunca para longe de você.
Você pode me chamar de teimosa. De iludida. Tudo bem. Eu provavelmente também me chamaria assim. Pode dizer que não é o que você deseja para mim, e por isso, fico aliviada, pois eu jamais desejaria essa dor para você também. Mas te perder me mudou de formas que eu não achei que fossem possíveis. Abriu feridas que eu nem sabia que existiam e me fez sentir coisas que eu não fazia ideia de que alguém pudesse sentir sem morrer. Mas, nossa, como eu vivi ao seu lado. Como eu ri, senti, amei e sonhei. Você tornou minha vida bonita, colorida, suave ao toque como eu jamais havia sentido antes. Você me mostrou o tipo de amor sobre o qual as pessoas leem em poesias escritas séculos atrás, e eu nunca, jamais me senti tão sortuda quanto me senti quando o seu toque se tornou familiar para mim, quando o seu abraço se tornou o meu lar.
Abraçar seu fantasma é melhor do que não tocar nada. Sentir esta dor é melhor do que viver uma vida sem o impacto que você teve nela.
As pessoas continuam me dizendo que o que tivemos deveria ser suficiente, que eu deveria ser grata por isso sequer ter acontecido. E eu sou. Você NÃO FAZ IDEIA do quanto eu sou grata. Mas a gratidão e o luto parecem dividir o mesmo espaço dentro de mim. Sou grata por ter te amado (e ainda amar). Sou grata por ter conhecido a sensação de ser verdadeiramente vista por você. Mas saber que algo foi belo não faz doer menos quando esse algo se vai. Às vezes, dói ainda mais.
Tenho medo de seguir em frente porque isso parece demais com te abandonar. Como se me curar apagasse, de alguma forma, a prova de que você esteve aqui, de que você importou, de que amar você foi a coisa mais real que eu já fiz. Quem estou tentando enganar? Amar você foi e sempre será a minha maior realização.
Então, posso te pedir um pequeno favor?
Não se esqueça de mim. Não se esqueça de nós. Não solte a minha mão. Ainda não.
메타데이터
- post_id
- 48b63eebaa65
- slug
- dançando-com-o-seu-fantasma-48b63eebaa65
- url
- https://medium.com/@melinadolinsky/dan%C3%A7ando-com-o-seu-fantasma-48b63eebaa65
- canonical_url
- https://medium.com/@melinadolinsky/dan%C3%A7ando-com-o-seu-fantasma-48b63eebaa65
- author_url
- https://medium.com/@melinadolinsky
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-13 06:23:13