Aroma de sálvia
Marex4
Aroma de sálvia

Marex4
Sálvia! Aroma delicioso! Sabor de adolescência ligado à casa da minha avó materna: Amália. Nos domingos, íamos à casa dela almoçar. E como era muito bom, acabávamos ficando até a noite. Ela, então, rapidamente, ia à cozinha e preparava um risoto com pedaços de frango, refogados com alho, cebola, tomate, arroz e uma ou duas folhas de sálvia. Aquele perfume inundava a casa. E lá voltávamos à mesa para mais um banquete feito pelas suas mãos de fada. Ela era um encanto.
Nasceu em 1910. Analfabeta, trabalhava na roça, num vilarejo de imigrantes italianos pobres e rudes, no interior do RS. Aos 17, anos casou-se e, aos 18, já era mãe. Teve de morar com a sogra no começo da vida de casada. Comeu o pão que o diabo amassou. Os filhos do casal vinham às pencas: dos oito ou nove que nasceram, vingaram cinco.
O marido, um colono italiano tinha pouca instrução e não era de muita conversa. Quando não gostava de algo, a ira crescia, e ele arremessava objetos pela janela, para desespero e amargura da esposa e dos filhos. No entanto, era muito trabalhador e nunca deixou faltar nada em casa.
Mudaram-se para um outro vilarejo, um pouco maior, mas onde praticamente todos os habitantes se conheciam. Passado um tempo, meu avô acabou se engraçando com a vizinha casada. Parece que o marido nunca soube do caso. Porém, o segredo sempre consegue escapar por alguma fresta… Começou a circular, veladamente, entre alguns membros da família, e a vó acabou descobrindo o romance. Mexeu, remexeu, abafou e recalcou o sofrimento de toda uma vida. Penou muito, em silêncio, com os “casos” extraconjugais do marido.
Aos 70 anos, ela me disse: “Ah, se eu fosse mais nova, bem que iria me separar também, como você”. A exemplo de tantas outras mulheres do seu tempo, que não tinham instrução nem meios de sobreviver sem a ajuda financeira do marido, ela acabou repetindo a história.
Era linda! Tinha cabelo preto, curto, um nariz reto e pequeno, e unhas pintadas de vermelho. Coração doce e agregador era o dela. Gostava de apoiar as pessoas em dificuldade. Sempre foi muito comedida ao expressar as suas emoções, mas era muito humana. Adotou um menino órfão e hospedava sobrinhas que vinham do mato para estudar na cidadezinha. Só viveu para fazer o bem, e nunca a vi alterar a voz. Durante os 20 anos de viuvez, foi perdendo não só a alegria de viver como também a memória. Às vezes, bebia uma “pitada” de uísque ou de cachaça. Levou vários tombos, tendo enfrentado inúmeras fraturas. Qual fênix, renascia das próprias cinzas, e insistia em viver. Aos 94 anos, a rainha se retirou do xadrez da vida em completa mansidão.
Até hoje, tento imitar o risoto da vó Amália, mas nunca consigo repetir aquele gosto maravilhoso do frango com sálvia na medida certa.
Zuleica Águeda Ferrari — Comunidade da Escrita Afetuosa — Profª Ana Holanda — @anaholandaoficial — Exercício 4 — Escrever um texto a partir da observação dos sentidos: aroma (de uma flor, comida, produto de limpeza, mofo); ou da audição (música, som de um animal, crianças brincando, campainha, chiado da panela de pressão); ou do tato (textura de parede, tecido etc.). (25/03/24)
메타데이터
- post_id
- 48bb8a172f0c
- slug
- aroma-de-sálvia-48bb8a172f0c
- url
- https://medium.com/comunidade-da-escrita-afetuosa/aroma-de-s%C3%A1lvia-48bb8a172f0c
- canonical_url
- https://medium.com/comunidade-da-escrita-afetuosa/aroma-de-s%C3%A1lvia-48bb8a172f0c
- author_url
- https://medium.com/@zuleicaferrari
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-24 04:52:57