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SOCIOLOGIA DO BLOCO

Entende-se por bloco um objeto ou conjunto de coisas que constitui parte mais ou menos destacada, isolada ou autônoma em um todo maior. Os…

Leila Massière · 2026-02-15 16:09 · 11 claps · 7.2 min read
#carnaval #olinda #blocos-de-carnaval #frevo #recife
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SOCIOLOGIA DO BLOCO

Entende-se por bloco um objeto ou conjunto de coisas que constitui parte mais ou menos destacada, isolada ou autônoma em um todo maior. Os blocos aos quais se refere este ensaio obviamente são parte integrante do carnaval, todo maior. Mesmo que o anteceda em prévias que se iniciam desde o natal, ainda assim, o bloco só se justifica porque anuncia o que está por vir.

Em linhas gerais, um bloco é um pedaço ou porção de matéria sólida, dura ou compacta, de volume e superfície consideráveis. É ainda um conjunto de coisas consideradas como uma unidade, seja por sua proximidade (espacial ou temporal) ou por apresentarem alguma homogeneidade ou semelhança. Isso é um tanto verdade quando se trata do bloco de carnaval. Se seu volume não for considerável, não se torna um bloco, e sim uma troça. O bloco tem um corpo particular, uma existência própria, que transcende a soma dos indivíduos que o compõem. Mas tais indivíduos carregam a mesma insígnia, uma irmandade. Amam estar ali. Receberam um chamado. Não conseguiriam estar em outro lugar.

O termo adquire ainda outros significados, um tanto distintos a depender da área do saber em questão. Para a estatística é um conjunto, geralmente homogêneo, de unidades experimentais. Revelando aqui os contornos metodológicos empregados neste texto, penso que a sociologia só se pode fazer adentrando e se fundindo com o objeto de estudo, transcendendo a hipocrisia do cartesianismo que se pretende à parte e devidamente distanciado do objeto para que se possa compreendê-lo. Não é possível entender um bloco de carnaval sem se fundir com ele, de corpo inteiro e peito aberto. Assim, a sociologia do bloco não pode ser outra, senão uma autossociologia, uma visão experiencial e única do que é um bloco. Cada bloco é único. Cada vez que sai é única. Cada um que está ali é único e será outro já na próxima vez.

Na verdade, não é possível estar no bloco senão por inteiro. Nada é mais insuportável do que estar em um bloco de carnaval sem o desejo de estar ali. É uma alegria despropositada, incompreensível ser não for sentida. Um som alto demais. Calor demais. Sem se integrar, o indivíduo se separa e o bloco o repele para longe, percebendo a desconexão. Este é um dos motivos do bloco se deslocar: assim deixa para trás o que não lhe cabe, os sem vontade legítima, garantindo espaço pra quem quer de fato estar ali, que se dispõem a seguir suas regras, seguir o bloco, manter-se firme e lutar por ele. A palavra bloco pressupõe esta força. Definitivamente não é para os fracos.

Interessante também a definição da arquitetura, para a qual um bloco é uma forma em que uma das dimensões não predomina sobre as outras. De fato, todas as dimensões do bloco são relevantes, se completam e se fortalecem mutuamente. Para entendê-las, irei ater-me apenas aos blocos de frevo, já que — de todos que experimentei — são estes os mais vibrantes e potentes, além de sui generis.

Geograficamente falando, blocos de frevo não podem se consolidar em outro lugar que não Recife e Olinda. Certos excertos ainda podem fazer sentido pelo interior de Pernambuco, mas raríssimos casos sobrevivem fora de seu habitat natural. É que o bloco não é completo sem a paisagem adequada para se emoldurar. Há que ser composta por casarios, sejam do Recife Antigo, seu lugar mais nobre, sejam as ruas do centro, por onde fluem mais soltos, seja as ladeiras coloridas de Olinda, onde ao fim de toda subida respira-se uma bela vista do mar.

O bloco de carnaval tem uma inteligência viva. Não é preciso regras, organizações ou segurança. Basta marcar o horário da concentração que o resto decorrerá naturalmente. Seu fio condutor é a alegria de viver, a vontade de ser feliz partilhada. Naturalmente infinitos deles brotam pela cidade e os amigos se atraem para o mesmo bloco ou novos amigos são feitos ali.

O bloco se organiza em torno de um eixo central: a música. Seu ritmo ditará o passo. Geralmente, ele emana de uma bateria — se for um bloco de samba — , de um trio elétrico ou de um carro de som — se for um bloco de algo que, por gosto meu, não deveria existir (ou, se fosse para existir, deveria ser na Bahia), mas cuja presença ainda assim defendo, para que seja garantido o direito à diferença. Carnaval, como a vida, é diversidade — e disso advém sua beleza.

No caso do frevo, a música emana da orquestra. Não vou aqui discorrer sobre o aspecto musical, é por demais complexo e iria requerer um estudo longo, que muitos já fizeram, descrevendo as particularidades dos blocos líricos, dos de frevo canção, as bandas de pau e corda, o timbre dos metais, o frevo abafo, coqueiro e outras variáveis, assim como sobre o imenso requinte dos acordes e dos arranjos. Não pretendo aqui erudição. Apenas descrever que é a banda o epicentro da efervescência. E para mim — como para muitos — nada melhor que estar bem perto dela, para que o som reverbere em minha carne e estremeça meu chão. Se tenho ainda um sonho na vida, é o de saber o que é tocar trompete em uma orquestra de frevo. Não se pode deixar de mencionar a tuba, um instrumento imenso, que se pode ver de longe e cujos tocadores é preciso respeitar. Se for alguém franzino e de lábios finos dificilmente conseguirá garantir a coluna de ar que se precisa para assoprá-la, assim como sustentar a si próprio portando-a por tempo considerável. Blocos amadores não as tem. Uma tuba já confere certo profissionalismo ao bloco. Duas contagiam bem. Três tubas significam que você está em um bloco que é o pipoco. Mais que isso é ostentação, sempre bem-vinda.

Sendo assim, o entorno da banda é a parte mais compacta do bloco. Ainda assim é curioso que, por mais disputado que esteja um bloco, entre os membros da banda em si paira um espaço quase que sagrado, cuidado por todos, cientes de que invadir este espaço é pôr em risco o bloco. Ninguém o atravessa. E um código que só é ameaçado nas ocasiões em que a multidão se torna tamanha que empurra os que estão no entorno do bloco para dentro da banda, mesmo contra sua vontade. Nestes casos, fazem-se necessários seguranças, que circulam a banda com uma corda, fazendo um isolamento que se não for muito respeitoso e harmônico, tende a pôr o bloco em risco. No bloco ninguém pode empurrar ninguém, senão oscilar junto quando a pressão acontece. Um cuida do outro naturalmente, pois sendo um único corpo, a vida de um é a vida de outro, e apesar da aparência de festa, ali está em jogo a própria sobrevivência. É espantoso como em quatro dias de folia cheios de gente bêbada e aglomerada, tão poucos acidentes graves aconteçam.

Chegasse a polícia como em Paraisópolis, o bloco se aniquilaria pisoteado e desorganizado.

À frente do bloco, estará sempre o estandarte, a expressão maior de si, a concretização de sua identidade. O estandarte rodopia no ar, conduzido por alguém que fez daquele bloco sua vida, exibindo seu nome e suas cores. Ele mostra educação quando dois blocos tradicionais se encontram — e aqui temos uma das cenas mais lindas que alguém pode vivenciar em um carnaval: os estandartes se cumprimentam e se você estiver mesmo dentro deste corpo do bloco, sentirá um arrepio da cabeça aos pés. Se um bloco mais forte encontra um mais delicado (maracatu, frevo de rua e bloco lírico, nesta ordem), o mais forte para de tocar para que o mais suave seja ouvido. Da mesma forma, os mais novos respeitam os mais velhos. Se um bloco sem história se depara com um ancião, cessa imediatamente sua música para reverenciá-lo e deixá-lo passar, retomando a anarquia depois que ele se for.

Em frente ao estandarte vão os dançarinos. Alguns com passistas organizados e coreografados. E como são lindos os passos do frevo. Outros apenas com aqueles muitos que precisam de espaço, pra pular, pular e brincar até que não tenha mais um pingo de energia no corpo e, com pés e pernas doídos, possam dormir em paz.

Atrás da banda segue o coro, que repercute a música para os mais distantes atrás, até que o som se dilua em conversas, e junto com ele se dilua também o próprio bloco. As letras do frevo são entidades a serem descobertas. O iniciante canta Madeiras do Rosarinho, num segundo carnaval decora Batutas de São José, o Hino do Elefante e do Ceroula. E com o tempo, novas e novas letras vão compondo um repertório imenso e rico, que cativa, conquista e jamais será esquecido. Podemos reconhecer a intimidade de um folião com o carnaval pelo tanto de canções que ele entoa. É certo, tem aqueles parasitas que do carnaval querem apenas beijo e o que mais rolar nesta linha, perdendo o de melhor que habita ali. Nada contra mesclar o estar no bloco com a sensualidade que paira na troca de olhares e no contato entre os corpos. Para além das seduções e conquistas individuais, estar imerso em um bloco é uma vivência mais que sexual, é a experiência transcendental de fazer parte de um todo.

Penso que muitas das doenças (sejam elas emocionais ou físicas, posto que as segundas derivam das primeiras) podem ser curadas naquele momento. É certo que, por sua potência, o bloco pode inflar em nós nossos desejos e com ele nossa carência, raiva, medo, orgulho, inveja. Mas também ali, enfim, todo e qualquer sofrimento tem a oportunidade de ser superado. Toda a rigidez se esvai. A entrega acontece e cada um pode saber o que é estar no todo e fora de si. Penso como seria o mundo se todos os políticos e magnatas tivessem usufruído da experiência de mergulhar num bloco. Penso que sua fome de poder se esvairia, e por fim estariam libertos. Para saber em quem votar, um bom critério é ver se o candidato conhece a fonte da verdadeira riqueza e se alimenta brincando em meio ao povo ou se coloca do alto, em um camarote VIP.

Enfim, não sei como terminar este ensaio. Nunca sabemos como terminar o carnaval e nem porque ele termina. Não sabemos também porque ele começa. O carnaval não deveria ser uma pausa na vida de opressão e contrariedade. Porque a vida nada mais é que brincadeira. Os jogos que jogamos durante o ano são jogados por personagens que criamos, com máscaras e fantasias que vestimos com tanta força que passamos a acreditar mais neles do que nos brincantes que somos. Nos prendemos a estes personagens individuais que só fazem sentido dentro de um todo cuja lógica é a do fazer dinheiro coletivamente para a apropriação individual, nesta máquina que nos faz esquecer que somos bloco.

Que o carnaval seja subversão, seja a lucidez, a ruptura que nos faça acordar da embriaguez do mundo. Sejamos frevo, sejamos meninos e meninas. Brinquemos. Dançar é nossa verdadeira natureza.

PS: Este texto foi escrito após o cortejo do Acho é Pouco, na terça de carnaval de 2020. Ontem, 14/02/26 toquei no trompete pela primeira vez o mais lindo dos frevos, Cabelo de Fogo, no Alto da Sé, com a Orquestra Efêmera.


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