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Brasilianus Non Moribus

Na Altura dos Tempos

C. S. Xavier · 2025-09-28 15:53 · 56 claps · 5.2 min read
#dante-alighieri #a-divina-comédia #biografia #cultura #história
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Brasilianus Non Moribus

Na Altura dos Tempos

Na Altura dos Tempos

O poeta **Dante Alighieri (1265–1321) começou a compor a sua obra-prima “***Commedia*” (que depois virou “**A Divina Comédia”) a partir 1307 até o fim da sua vida, em 1321. É “**Commedia” porque, diferente da conotação cômica que esta palavra carrega hoje, comédia era um gênero que podia até ter reveses ou conflitos sérios na sua trama, mas que terminava em reconciliação, harmonia ou felicidade, tal qual o seu épico poema, que começa entrando no Inferno, passando pelo Purgatório e terminando com final feliz, no Paraíso. Mas voltando à história, ao original do poema, o nome que próprio autor deu à obra, escrito em carta ao Senhor de Verona, **Cangrande della Scala (1291–1329), era, em Latim, o seguinte: “**Incipit Commedia Dantis Alagherii, florentini natione, non moribus”. No fim, retorno a este título dado.

É mister lembrar que esta obra magnânima e portentosa de 14.233 versos distribuídos em cem Cantos, foi toda escrita no exílio perpétuo de Dante de Florença, um homem que se tornou proscrito por perseguições políticas perpetradas pelas escumalhas que dominaram sua terra natal, já bastante degradada em sua época, pela ótica do sábio florentino. Os momentos que antecederam seu desterro, em 1302, foram mercados por mentiras, trapaças, conluios, traições e injustiças dos guelfos negros, que assumiram o poder na Comuna de Florença, em 1301.

Dante Alighieri ocupara pouco tempo antes de seu desterro o cargo político de mais alta conta em Florença, e estava retornando de uma missão diplomática à Roma, quando foi pedir auxílio ao **Papa Bonifácio VIII** (1235–1303) para apaziguar os ânimos políticos na sua cidade. Quando se encontrava na cidade vizinha de Florença, Siena, soube por um amigo que havia sido injustamente acusado de falsidade e tráfico de influência e condenado a pagar uma multa de cinco mil florins, além de ter que se exilar por dois anos da Comuna de Florença. Obviamente, o poeta rejeitou a pena e não voltou para pagar a multa motivada por uma calúnia torpe contra alguém ilibado e que sempre amou e se dedicou ao seu país.

Em 10 de março de 1302, ainda em Siena, ele teve todos seus bens confiscados e foi condenado à morte (“a ser queimado com fogo, de modo que morra”, “se a qualquer tempo vier a cair em poder da Comuna”), pelo magistrado **Messer Cante Gabriele de Gúbio** (c.1260-c.1335), por não ter pagado a multa e nem ter comparecido para responder o processo escandalosamente mentiroso e viciado.

Passados quinze anos do seu exílio errante, em 1317, Dante Alighieri, residindo em Verona, ficou sabendo que havia sido concedido um arremedo de anistia a ele e a inúmeros dos demais exilados guelfos brancos condenados, mas que só ocorreria mediante o pagamento de uma multa e de uma retratação pública pelos crimes que seus inimigos calhordamente imputaram a ele. Fato que Dante declinou, pois jamais iria admitir ser julgado pela gente mais infernal que ele convivera, como registrou nesta Carta XVI abaixo.

“Não, não é este Padre o caminho do regresso à pátria! Se é assim que admitem minha volta a Florença, jamais voltarei a Florença! Pois não posso divisar, aonde quer que eu vá, a luz do sol e o brilho das estrelas? E como poderia eu, depois, em qualquer parte sob os céus, considerar grandes e altas verdades, se de tal maneira me rebaixasse, tornando-me ignominioso perante o povo de minha terra, perante a própria cidade? Não, e espero que ainda desta vez não me faltará o pão!”

Dante Alighieri

Dante Alighieri considerava que depois de tantas injustiças, humilhações e mentiras sofridas, e que o expulsaram de sua cidade, que pilharam seus bens e patrimônio, e que o separaram de sua família, mulher, filhos e amigos, jamais deveria rebaixar-se e aceitar um opróbrio que não cometeu, perante gente tão baixa, imoral, mesquinha, ambiciosa e vil. Desta forma, o grande poeta preferiu morrer exilado — e registrar na sua obra-prima “A Divina Comédia” e em demais escritos, todo o seu repúdio às injustiças sofridas — do que se vilipendiar àquela infâmia.

“O que é que lhe oferecia Florença, segundo as cartas que dali acabava de receber? Em lugar da reparação devida, do acolhimento generoso e amigo, do louvor e da glória, acenava-lhe com a volta, mas em condições humilhantes e vexatórias, que o haveriam de expor à irrisão pública. O poeta bem sabia o que significavam aquelas terríveis cerimônias — pois a algumas assistira noutros tempos — em que os candidatos à remissão, muitas vezes criminosos comuns, deixando a prisão, se encaminhavam envoltos num alvo sudário de penitente ao recinto da Igreja de São João Batista, para implorar publicamente aos orgulhosos representantes da Comuna a graça de sua liberdade ou de seu perdão. Ainda que, por intermédio de amigos, se pudesse tentar eximi-lo às humilhações daquele ritual, ocorria o fato de estar também sua volta condicionada ao pagamento de uma prévia indenização em dinheiro. O poeta, justamente revoltado e ferido em sua altivez, declinou de imediato da proposta aviltante. Em resposta ao amigo florentino, que lhe transmitira, diplomaticamente, a notícia, passando por alto sobre as condições em que se possibilitava o retorno, revelou sua imensa indignação. Como homem afeito à meditação e ao estudo, só pedia a Deus que conservasse o seu coração imune à vil humildade, àquela baixeza de concordar em ser avaliado. E, como pessoa que sempre propugnara a justiça, sofrendo por isto mesmo as maiores injúrias, jamais poderia admitir ter que recompensar materialmente aos autores de tais malefícios, os mesmos que, assim agindo, ainda imaginavam, com tão infame procedimento, passar por beneméritos. (…) Ele estava certo de, ao longo do tempo, enquanto se esforçava inutilmente por quebrar a barreira que o afastava de seu berço, haver promovido sua reabilitação moral por uma forma concludente e definitiva, tanto na exposição de seu pensamento político e filosófico, quanto sobretudo na expressão de sua grande obra poética. Mais do que isto — lograra transformar a injustiça e a perversidade de seus perseguidores num patrimônio de honra pessoal, erigindo seu próprio exílio em motivo de orgulho”.

**Cristiano Martins**

Essa é a postura correta dos grandes homens — não só de gênio, mas de coragem —, tanto daquelas pessoas de muito destaque social quanto das que só os do entorno as conhecem. Ainda mais sendo pessoas como Dante Alighieri, cuja personalidade e talento foram capazes de fazer perdurar seu nome pelos séculos e de moldarem civilizações, enquanto seus inimigos viraram sombras nas biografias deste gigante. Foi assim com Sócrates (c.469 a.C.-c.399 a.C.) e foi assim com Dante Alighieri, e com poucos outros.

Veja o monumento portentoso que “A Divina Comédia” civilizacionalmente foi capaz de erigir e moldar, e não só na Literatura, mas em todas as demais Artes. Além disso, se irradiando e marcando seu peso em praticamente todos os segmentos existentes da cultura, linguagem, história, religião, ciência, sociedade e inteligência dos homens. E o que sobrou daqueles pomposos vilões de sua época que o condenaram injustamente ao desterro, saque e tentativas de humilhação? No máximo notinhas de rodapé do poeta…

Dante Alighieri no Exílio e com Honra

Dante Alighieri no Exílio e com Honra

Retornando como prometido ao tópico deste desabafo e já traduzindo o título original do Latim para o Português, o que foi dado pelo próprio Dante Alighieri à nossa “Divina Comédia”, fica o seguinte: “Começa a Comédia de Dante Alighieri, florentino de nascimento, não de costumes”. E para finalizar, e já estando plenamente inspirando pelo desabafo e crítica do Pai do Italiano à sua pátria natal, confesso que tendo a registrar na minha biografia esta exortação do: “Brasilianus non Moribus”, ou quem sabe mesmo solicitar que lavrem no meu epitáfios a seguinte ressalva:

“Termina aqui a divina comédia de Cristiano Xavier, brasileiro de nascimento, não de costumes.”…


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