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Papel e Lápis

Hoje acordei decidida: levantei-me, troquei-me e comi rapidamente. Acomodei-me cerimoniosamente, sentando em frente à minha escrivaninha…

Luiza Alberti · 2020-11-01 22:08 · 50 claps · 2.4 min read
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Papel e Lápis

Hoje acordei decidida: levantei-me, troquei-me e comi rapidamente. Acomodei-me cerimoniosamente, sentando em frente à minha escrivaninha. Porém, ao contrário de abrir o computador para escrever minhas crônicas, como era o rotineiro, eu abri a gaveta do criado mudo, e de lá tirei uma folha avulsa de caderno e um lápis.

Hoje em dia são poucas as pessoas que ainda utilizam papel e lápis para escrever suas criações. Minha letra estava horrível minha mãe sempre disse que eu tinha uma letra de médica talvez seja por causa da falta de prática de escrita manual, qualquer professor mandaria eu praticar caligrafia imediatamente.

Eu sempre tive um tipo de repugnância contra a caligrafia talvez toda criança tenha isso porque os professores falavam as mesmas coisas toda vez: "sua letra é muito grande" ou "sua letra é muito caída" ou até mesmo "nem consigo ler o que está escrito aqui!". É possível que nem todos os escritores possuam uma letra maravilhosa, por isso, prefiram escrever digitalmente.

Porém, naquele dia, eu havia decidido que iria escrever um texto à moda antiga, com um número de linhas uniforme em cada parágrafo, com um título centralizado e uma letra um pouco mais legível. Isso mesmo! Ia ficar tão bom que minha professora de redação iria se orgulhar!

Eu apontei o lápis, que alguns momentos antes se encontrava abandonado na minha gaveta. A folha pautada com linhas, retirada de um antigo caderno de matemática, estava parada à minha frente, pronta para ser preenchida com parágrafos e palavras.

Agora, precisava decidir sobre o que eu escreveria.

Aproximei a ponta afiada do lápis na superfície do papel. A inspiração logo chegaria, era só esperar um pouquinho. Nada. A folha continuava em branco. Eu olhei para a janela que jorrava luz à minha direita, um fiapo de criatividade me invadiu, eu balbuciei algumas palavras nas linhas de cor escura do papel, o resultado foi decepcionante. Apaguei tudo.

Sobre o que eu escreveria? Minha longa vida de treze anos possuía tantas experiências, então porque não conseguia lembrar de nenhuma? Dei risada de mim mesma, não fazia ideia do que escrever. Minha mente estava tão branca quanto aquele papel que se encontrava à minha frente.

Tentei lembrar de acontecimentos que haviam ocorrido comigo, bem, vamos ver... Eu nasci, fui pra escola, tive um irmão, depois tive outro irmão... Não! De jeito nenhum! Isso seria mais uma biografia do que uma crônica! Pense Luiza, sobre o que você vai escrever hoje?

Como é difícil escrever em papel! Eu rabiscava algumas coisas, ficava péssimo, pegava uma borracha e apagava tudo, mas o papel nunca mais foi branco depois da primeira vez em que ele foi usado, ainda eram visíveis as marcas de lápis que eu havia feito. Tentei apagar de novo, o que tinha naquele lápis que sua tinta não saía? Só o que consegui foi amassar a folha de papel na borda.

Desisti de apagar, depois eu passaria a limpo, era só eu pegar outra folha novinha e reescrever todo o meu texto nela.

Isso se tivesse mesmo um texto.

Como não tinha o que escrever, comecei a desenhar. Fiz uma espécie de arte moderna indefinida, cheia de riscos e rabiscos, o desenho também não me agradou. Tentei apagá-lo novamente, mas as linhas estavam muito fortes. Enfim, desisti, amassei o papel e joguei ele fora.

Então abri o computador, lá comecei a escrever.

E foi assim que escrevi esse texto.

Luiza Schadeck Alberti. Papel e Lápis. 2020.


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