Baygon
Desde que o cansaço bateu à sua porta de uma forma inexplicável ela tentou encontrar razões. Mas o cérebro estava letárgico e pouco afeito…
Baygon
Desde que o cansaço bateu à sua porta de uma forma inexplicável ela tentou encontrar razões. Mas o cérebro estava letárgico e pouco afeito a movimentações, como seu corpo. Conseguiu realizar uma atividade apenas — lavar o quintal. Varreu dezenas de baratas que foram mortas no dia anterior com veneno injetado à força dentro dos esgotos.
Fraquejou subitamente, o veneno correu por suas veias kafkianas sem dó. Arrastou-se entre cômodos para dar de comer ao filho e aos gatos, mas não conseguiu lavar a louça. Tomou um antigripal, animou-se por 5 minutos e levantou-se, mas suas pernas bambearam no que pensou ser o já adiantado processo de transformação no inseto.
Perdeu-se em devaneios — teve dúvidas se os pensamentos ainda eram seus ou se já se estavam atrelados aos de uma barata. Mas entendeu-se ainda humana, quando, num último lampejo de sensibilidade, intuiu que sua namorada amava outra e por isso a tratava com frieza.
Inicialmente resistiu à tentação de conformar-se à sua nova condição abjeta e indigna de ser amada. Mas como sucumbir sempre lhe parecera mais fácil que lutar, seguiu o script já conhecido ao longo de toda uma existência e metamorfoseou-se por completo, deleitando-se com o prazer de sentir pena de si mesma.
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