Sangue do seu sangue
Atenção: essa crônica pode despertar gatilhos. Estupro e drogas estão presentes nesse texto
Sangue do seu sangue
Atenção: essa crônica pode despertar gatilhos. Estupro e drogas estão presentes nesse texto.
Ali em pé, a poucos passos de um batente de porta, jamais imaginaria que em poucos minutos escutaria a história mais difícil da minha vida. Estava feliz, como quase todos os dias quando a saúde permite. Contudo, a realidade cruel do mundo é, de fato, muito crua. Nada me faria mal, tinha na minha mente, acreditava estar pronto para escutar mais uma história do mundo. Já havia escutado muitas, das mais diversas fontes e formas, as pessoas viam em mim uma forma de externar sentimentos mais duros, como se eu fosse um eco de esperança para elas. Eu não posso fazer muita coisa, Eliana.
—Ela sabe —respondeu a doce Eliana, um pseudônimo por mim inventado para não gerar desconforto em ninguém.
Por diversas vezes eu havia pedido permissão para publicar essa história. Via potencial nela. Pois, potencial na crueldade do mundo. Querendo me fazer em cima das tristezas alheias? Não, apenas me dispondo para contá-las fielmente, apenas quero que o mundo saiba, não é fácil viver. E, por fim, consegui a tão difícil autorização para a publicação, com a exceção, os nomes deveriam ser trocados. Assim o faço, ninguém aqui carrega seu verdadeiro nome, apenas uma falsidade protetiva para todos que nessa histórias estão.
Eliana é a namorada de Karoline, e com quem eu trocava mensagens, quase que diariamente, pois havíamos trabalhado juntos em uma cantina italiana, próximo a Avenida Rangel Pestana, limítrofe entre Brás e Mooca. Karina sempre teve um bom humor contagiante, até o dia que não teve mais. Havia escrito no grupo de funcionários da cantina: “Não posso ir hoje”, nosso chefe, muito compreensivo, permitiu que ela não fosse trabalhar naquele dia. Nada parecia normal, depois daquela mensagem, Eliana nunca mais se comportou da mesma forma, seu sorriso matinal tinha fugido, suas gargalhadas de medo sucumbiram ao olhar cerrado. Nada foi como antes.
Eu só saberia de algo no dia em que Eliana disse:
— A Karina quer muito falar com você — Eliana e Karina já tinham visto algumas peças minhas, e algumas das minhas melhores interpretações no palco. E sobre o que ela quer conversar — Ela quer te contar uma coisa, quer ter forças para fazer uma denuncia…
Achava que elas queriam que eu escrevesse uma peça. Peças que denunciam são todas, mas eu, na impotência, nem sabia do que se tratavam, e nem se poderia fazer algo além de contar. E havia me blindado para tudo. Eu não posso fazer muito, Eliana, me desculpa se faltar algo…
— Ela sabe.
O frio esfriava meu ser, transformava a ponta de meus dedos em pedras de gelos finos. Já tinha subido até ali, o porteiro anunciado meu nome, já estavam preparadas para me receber. Pensei em dar meia volta, não sou policial nem jornalista, sou nada. Eu sabia que não seria nada fácil ouvir o que eu teria que ouvi, tudo isso aliado a minha covardia plena. Toquei a campainha. E Eliana abriu a porta. Era o primeiro homem a entrar naquele apartamento em meses, quiçá anos. Estava muito aflito, Karoline me cumprimentou de longe, e pediu que eu me sentasse na cadeira que havia na sala.
O olhar desviante de Karoline era algo que me chamava atenção, em todas as outras vezes, Karoline tinha um olhar penetrante na alma da gente. Suas mãos sempra fazendo movimento de bolinha, como quem amassa um papel para jogar fora. Seus pés agitados. Eliana me serviu chá, já sabia de mus problemas com café. Sentaram as duas. Um silêncio reinou. A única coisa que fazia som, era a fumaça de chá.
Eliana então tentou quebrar o silêncio, quando uma lágrima pesada escorreu de um dos olhos de Karoline.
— Deixa que falo — o medo de dizer a verdade, cansava a sua fala, precisava parar e recomeçar, e o que ela me diria logo em seguida me chocaria terrivelmente — queria tua ajuda para… pra fazer uma denúncia formal na delegacia, um B.O. contra meu irmão — a terrível curiosidade me ia crescendo pelos pés, até minha perna, não queria que chegasse até a garganta, não queria indelicadeza. Ele te roubou?
Tinha acabado de voltar de um longo dia de trabalho intenso. Eliana estava viajando, estava num curso pago pelo patrão. Karoline, na época, morava com o irmão, Wallace. Wallace sempre confidente, os dois passavam horas e horas conversando sobre tudo. Não morava em São Paulo, vivia em Brodósqui, cidade do interior do estado, e estava na cidade depois de pedir guarida a irmã para procurar emprego na capital. Karoline deu a casa de bom grado, e aproveitou que a esposa estava fora para deixar a porta do apartamento aberto para vinda do irmão.
Wallace ainda não tinha encontrado o emprego, mas aquela noite tão agradável, pedia que os dois saíssem. Karol quem tomou a iniciativa, uns amigos estariam num bar próximo da Bela Vista, e Wallace relutou um pouco, mas acabou por aceitar porque não tinha o que fazer naquela noite de sexta, não conhecia ninguém mesmo. Foram.
No bar, Karoline apresentou seu irmão aos seus amigos da capital. Alguns, os bem malas, riram do sotaque interiorano do menino. Wallace tinha seus 19 e Karol já com seus 26. As doses foram chegando, aquela a meia altura do copo americano, delícia, cachaça mesmo e da boa. Cambuci, dessas perfumadas com o gosto doce. Wallace não bebeu muito, a irmã tampouco, porém alguma coisa não estava bem, Karoline ainda bebeu mais um pouco de cerveja para ter a convivência com os amigos, mas ela não estava nada bem. E Wallace perguntou se ela não queria voltar pra casa, ela relutou um pouco, bebeu mais um pouco de choppe de vinho, e quando parecia que ficaria melhor, ela sentiu uma tontura e Wallace a levou para casa de Uber.
Karoline não estava bêbada, estava em um nível bom de estado mental. Só estava mal por algo, alguma queda ou subida brusca de pressão, sabe-se lá o que ocorreu? Só que não estava bem. Wallace a colocou na cama, foi até a cozinha e serviu para a irmã com copo com água. Karoline bebeu a água, que mais parecia uma dose, num copo americano, pela metade. Tinha um gosto meio doce, mas nem se importou bebeu e deitou. Fechou os olhos calmamente.
Quando os abriu. Toda sua vida ao lado de seu irmão passou como um flash terrível. Uma luta de consciência e força física. Era muito bom ter um membro da família perto. Um luto de consciência e força física. Seus olhos, com suas pálpebras ainda pressionados pelo sono, testemunharam um de seus piores pesadelos, um que jamais ninguém poderia imaginar. Seu irmão estava em cima dela, fazendo força, estuprando a própria irmã.
Karoline não conseguia fazer nada, o tamanho de Wallece era o dobro do seu. Suas lágrimas saiam como uma forma de autoproteção, nem se dava conta que chorava, era seu corpo tentando reagir. O misto de sangue, suor e lágrimas tomava o ar terrível, e ela tentava ficar acordada, empurrada pela pálpebra pesada, o olho fechou de novo. Porém, antes do último piscar, seus olhos viram a cara de seu abusador sorrindo de prazer, os olhos fecharam. Wallace como último ato tampou a boca da irmã. Enganou-se ao pensar que fechar os olhos poderia sair daquele inferno, os sons ecoavam na sua cabeça como um:
— Eco infernal…
Os urros de prazer do irmão, as gemidas de tesão e os tapas e socos que dava em seu corpo. Nada escapou a sua audição, terrível memória perene. Os ecos infernais fizeram a cena aparecer em sua mente, mesmo que os olhos não tenham fixado a imagem terrível no fundo da retina, Karoline sabia a cena exata dos seus próximos pesadelos.
O irmão não parou um minuto até…
— Ele só parou quando ejaculou dentro de mim — a tristeza que embagava a voz, aliada a ira de Eliana que segurava o punho cerado num braço do sofá, fez daquele momento uma catarse.
Quando acordou. Suas pernas estavam fracas. Não conseguia andar. O lençol da sua cama era o lastro da cena do crime, sangue e outros líquidos corporais. Estava nua, com marcas nos seios, como se alguém tivesse chupado. Sentia ainda escorrer pelas paredes internas os lastros fraternos. Começou a chorar, desesperadamente, e quanto mais se olhava mais via, as marcas de um crime eterno. Os pés, as pernas, as coxas, a bunda, a vagina, o ânus, a barriga, os seios, os braços. A única parte que saiu ilesa a alguma agressão foi seu rosto, este que era lavados pelas salgadas lágrimas de ódio, tristeza e rancor. A vida não teria como ser mais a mesma de antes.
Rolou para o lado e para o outro, até cair da cama. Estava só, seu irmão já tinha ido para algum outro lugar. Quando caiu da cama tentou levantar, mas a dor no quadril era imensa, os roxos no seu corpo faziam a tarefa mais difícil ainda. Foi quando tossiu rapidamente, e percebeu, ficou em um estado dormente, pois seu irmão tinha pego seu remédio, seu Clonazepam, lhe deu como água. Desatou a chorar. Arranjou forças de algum lugar e foi ao banho.
Quanto mais se banhava mais tinha ódio de seu sangue. Água do banho era um misto de vermelho com branco, blocos brancos que caiam de seu corpo. Chorava ainda mais.
A fumaça do chá já não mais fazia presença. Meu silêncio intempestivo se pôs de lado: “Alguém da sua família sabe disso?”.
— Contei pra uma irmã. Que acabou contando pra minha mãe, que pediu encarecidamente para eu não fazer o Boletim de Ocorrência, vou destruir a família se fizer isso… Eu vou destruir? E ele, o que ele fez comigo não destruiu a família?
Saiu do banho e precisava ir voando a uma farmácia comprar pílula. Podia estar.
— Eu não durmo mais do mesmo jeito, tenho pesadelo acordada, não consigo olhar na cara de nenhum homem mais. Podia ter engravidado de um filha da puta desgraçado… — chorou e deitou no colo de Eliana.
Não sabia o que fazer. Tampouco o que dizer. Meu olhar se direcionou para a xícara de chá. Fria. Chá gelado, sem gosto de mais nada. “Quer ir pra delegacia?”.
— Nós vamos sim, e é por isso que você tá aqui Lucas — me disse Eliana olhando para Karolina — você não tem aquele amigo na polícia? — Tinha mesmo, ainda tenho — Vamos então, por favor, fala com ele — Primeiro nós vamos até a delegacia da mulher…
Esperava a positiva reação de Karoline que interveio e disse simplesmente:
— Eu não quero.
Uma breve discordância tomou o ambiente, Karoline e Eliana não tinha uma opinião firme. Olhei pra xícara mais uma vez sem parecer intrometido, mais do que eu já era, e depois vi o mundo pela janela. Um dia cinza, a ponta do meu nariz ainda congelava. E parecia mais gélido.
— Vamo lá pra dentro. Licença Lucas — Eliana levantou e levou Karine para dentro do quarto. Eu não sabia o que fazer, minha vontade era de matar aquele desgraçado — Me desculpa Lucas, fazer você vir até aqui para nada — Eu acho que deveríamos ir até a delegacia da mulher, elas vão saber o que fazer lá; meu ímpeto de justiça não era tão aflorado. Só queria que Karina melhorasse.
— Quando ela ficar melhorzinha, eu vou levar. Até lá, não quero que comente essa história com ninguém. Eu queria te contar por você já ter lidado com essa situações, por já ter trabalhado com outras pessoas que sofreram esses abusos — realmente já tinha trabalhado e estado com pessoas assim, mas nunca tão forte.
Devolvi a xícara para Eliana, agradeci o chá. E a única coisa que eu perguntei a época: “posso escrever sobre isso” — Ela não quer — elas não queriam em realidade, sofrerem mais por tudo isso. Agradeci e saí.
A luz do sol se esvaia aos poucos, o dia ia se tornando noite, uma forte bruma tomava os ares. E eu de pé no ponto de ônibus, aguardando minha mente voltar para o lugar. Estava triste, como nunca antes. Subo no ônibus, abro o celular, no Instagram: “menina é abusada pelo pai dentro de um hospital”.
O mundo continua.
메타데이터
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- 2026-07-07 22:42:26