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Dois dedos de prosa: estética, narcisismo e religião

Yvisson Gomes dos Santos[1]

Gap Filosófico [Decodex) · 2025-04-29 02:27 · 5 claps · 3.3 min read
#estética #filosofia #agostinho #narcisismo #religião
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Dois dedos de prosa: estética, narcisismo e religião

Yvisson Gomes dos Santos**[1]**

[1] Doutor em Educação pela UFAL, e professor de Filosofia pela SEDUC/AL. E-mail: yvissongmoes@gmail.com.

O universo do estético tem cumprido uma função diferenciada de sua etiologia na contemporaneidade. Sabemos que estética vem a ser sensação (aisthesis) ou uma experiência do sensível frente à percepção de quem ver algo ou alguma coisa. Somos vistos e olhamos a outros — uma dialética crua.

A beleza, no simétrico ou no belo-em-si, como em suas manifestações pormenorizadas, me remetem a uma frase de Santo Agostinho de Hipona: O belo é tudo aquilo que agrada ver — uma verdadeira faculdade de sentir!

A sociedade contemporânea das sensações admite que estamos em configurações novas sobre essa temática do que vem a ser o belo ou a beleza, não de forma metafísica, mas circunstanciada no escopo de empirias (experiências do cotidiano).

O agradável aos olhos agostiniano poderá ser uma forma hipertrofiada do corpo. Ou sendo mais específico: o corpo evidenciado e modificado pelos padrões de uma sociedade que prima pela perfeição, porém não se sabe ao certo o vem a ser essa perfeição. Simetria — lisura das plásticas faciais na dermatologia? Será uma revisitação do simétrico do Renascimento Ocidental, ou antes disto: dos corpos gregos dos atenienses no período de Péricles? Será uma necessidade do tempo do espetáculo online que nos distancia do espetáculo da vida vivida para vivermos de nostalgias?

Todas essas considerações são verificáveis no mundo moderno como sintoma, digamos assim, de um processo de Narciso em olhar-se constantemente para o espelho/riacho, desdenhando às convivas que o amam. Ou os convivas. Já falamos acima do agradável em ver, mirar, dominar a imagem como sua unicamente (relação especular), mesmo que, fantasticamente, através de uma pulsão escopofílica, nas palavras de Freud, alguma coisa nos leva ao culto da imagem fetichizada pelo desejo narcisista do sujeito em lançar-se para mais se ver, infinitamente (uma autofagia, digamos).

Tudo poderá reduzir o sujeito a ele mesmo, nessa atmosfera das sensações. Contudo, ele está imbricado na plêiade cosmética de seu corpo como fissura. Essa fissura é uma falta de completude que se coloca em dietas, malhação, maquiagens, cirurgias estéticas e de toda uma sorte de modificações da corporeidade naturalizada apenas como objeto.

Vê-se: o objeto é o corpo, somente se o sujeito o observar como tal. Nos tempos hodiernos, esse corpo tornar-se o sujeito, e a subjetivação escrava de um objeto que se transforma e se modifica a cada decênio, deduzimos.

Mais uma vez, nada escapa ao corpo desejado, a saber: a bela fotografia (selfie) caprichada das redes sociais, ao momento em êxtase do gozo pelo gozo, não havendo a passassem do imaginário para o simbólico, como diria Jacques Lacan. O perigo está no gozo em si, somente, havendo o risco da inexistência desse sujeito na relação com outro sujeito não objetificado.

No campo das religiões, temos uma extensão desse narcisismo colocado nas esferas do culto. Os corpos de nosso Senhor Jesus Cristo são musculosos — herança dos helenos e dos renascentistas, podemos aferir. As danças litúrgicas dos neopentecostais, como bailes endereçados às liturgias umbandistas, mais um exemplo.

O cultivo, ou o olhar sensível, precisa de (ex)posição. Ou seja: (ex) -‘para fora’ — da posição milenar traçada na história das religiosidades pagãs. Hoje cristianizadas, se pensarmos somente nas referências de religiosidades inerentes a fé oficial censitária do IBGE de 2010.

Graças ao campo digital, o homem pode admirar-se e ser admirado (parafraseado um poema de Antônio Cícero). Entretanto essa admiração poderá advir do jogo perverso da ilusão, quando não bem auscultada. Se minha fé institucionalizada traz cura para muitos, sendo midiatizada através do espetáculo, a crença alheia é o avesso da simetria, a saber: a desmesura. Uma religião de propaganda, quando bem administrada, coloca a religião alheia como uma da ordem da feiura, não produtiva, não úbere e, por isso, em conflito com as realidades vivenciadas do mundo das não-diferenças.

É notório que a estética das religiões é fundante: a música, as danças, as cores das vestimentas (indumentárias), dos ícones sacros — a multiplicação imagética lançada nas redes sociais, dentre outros, traduzindo, atualmente, o ser religioso do contemporâneo. Porém o Narciso midiático dessas religiosidades tendem a minar o agradável de se ver pelo agradável de se transformar/maquiar para ser visto. Uma mudança de vértice epistemológico que advoga mais uma vez em ruptura e não em costura.

No mais, algo me faz perguntar: somos, de fato, uma (trans)formação, em ilhas egóicas, de uma dessubjetivação do sujeito-sujeito para um sujeito objetificado?

E na tentativa de finalizar esses dois dedos de prosa (não concluindo, mas provocando): serão as religiosidades um emblema da extensão do corpo-casca-casulo-online que vivemos nas esferas do espetáculo pelo viés de uma antiestética narcisista do sujeito que adoece e que em seu sintoma apela para o uno e jamais para a diferença?


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