← Back to list

O ato falho consigo mesmo

Freud e a nossa cultura popular parecem concordar: se entender melhor evita acidentes desnecessários.

Andre Matt · 2021-06-04 17:50 · 37 claps · 4.4 min read
#psicanalise #freud #ux
Open on Medium ↗

O ato falho consigo mesmo

Freud e a nossa cultura popular parecem concordar: se entender melhor evita acidentes desnecessários.

Imagine a área de trabalho do seu computador ou smartphone. Nele você verá vários ícones, botões de acesso que você pode modificar, mover ou excluir. Essa interface é uma espécie de realidade, onde, se necessário, você pode formular toda uma epistemologia que traga significado ao conhecimento de suas formas, bem como leis que explicam o comportamento desses botões.

Mas essas figuras são apenas uma representação, um simulacro. O que realmente está se passando no seu computador ou smartphone quando você ativa ou interage com esses ícones, acontece por trás das cortinas em um mundo diferente, composto por microcircuitos e minúsculos movimentos de elétrons. Comparativamente, a interface da área de trabalho é uma maneira muito mais conveniente de se interagir com esse sistema, tentar compreender as mínimas transações atômicas de cada movimento desse sistema consumiria um tempo incalculável. Assim, você começa a tratar essa área de trabalho, essa interface em suas mãos, como se fosse a realidade.

Agora imagine que cada pensamento que você possui — memórias que surgem em sua mente, emoções que parecem tomar vida própria, e até chistes comuns que nos surpreendem quando aparecem — sejam análogos a um ícone de uma interface. Você consegue compreender que aquilo é algo que se executa na realidade, mas você não vê o que aquilo é de verdade.

No seu livro “A Psicopatologia da Vida Cotidiana”, de 1901, Sigmund Freud elabora e tenta encontrar, na realidade por trás de manifestações como chistes e atos falhos, o resultado de um pensamento ou desejo inconsciente. Segundo o trabalho de Freud, esses deslizes são respostas ansiosas frente a um desejo visto como proibido, e esse elemento repreendido e suprimido sempre se esforça para se afirmar em outro lugar. Dessa forma, os atos falhos, bem como os sonhos, se mostram estradas diretas e reais para o inconsciente, que tanto escondem como revelam aquilo que nos move.

A técnica de ‘associação livre’ foi introduzida por Freud de forma a explorar esse entendimento e sugerir como observar esses deslizes de fala, memória ou ações. Segundo o psicanalista, se prestarmos atenção, tanto declarações acidentais como as fantasias de um paciente intencionalmente expõem aquilo que desejam ocultar. Ao examinar a cadeia de associações feita pelo indivíduo, enfatizando a palavra errada utilizada — a palavra que falta ou que causa estranheza— nos cabe questionar o que nesta ideia está sendo mantido fora da mente consciente.

E claro, como muitas outras ideias de Freud, essa forma de se compreender a experiência humana é algo que saturou a nossa dimensão cultural. Pense nos mais variados filmes adolescentes, dos clássicos nostálgicos de John Hughes— como The Breakfast Club (1985) ou Pretty in Pink (1986) — aos numerosos filmes e séries que rotacionam catálogos de plataformas de streaming, como Sex Education (2019) ou A Barraca do Beijo (2018) no Netflix, onde a estranheza desajeitada de um adolescente tímido subitamente desaparece após o primeiro beijo naquele que é seu grande objeto de desejo. Esses filmes parecem sugerir que não existe mais a necessidade de engasgar na fala, tropeçar ou cair frente à pessoa que se deseja, uma vez que essa sexualidade reprimida tenha sido finalmente expressa, como o alívio de uma tensão.

Na psicanálise, entendemos e acolhemos essas pistas que ajudam a mapear o mundo interior do nosso inconsciente. É por meio desse trabalho cuidadoso de desembrulhar as referências e investigar as pistas ocultas disfarçadas dentro de lapsos, que podemos encontrar essas tensões não atendidas, que escondem angústias que passam despercebidas pelo nosso dia-a-dia, antes que elas finalmente se manifestem independente da nossa percepção.

Friends — The One with Ross’s Wedding: Part 2 (1998)

Friends — The One with Ross’s Wedding: Part 2 (1998)

É sem dúvida um trabalho que levanta muitas suspeitas das quais você pode facilmente desacreditar. “Não é possível que todos os meus atos falhos signifiquem algo”, afinal, considerando como a fala ocorre, todo o processo de gerar a intenção de relacionar uma ideia particular com uma palavra, a rapidez com que essas fases se seguem, desde a formulação dessa mensagem pré-verbal até ela se vestir de estrutura e gramática, é de uma complexidade tamanha que só pode estar sujeita a ocorrência de erros.

Porém, a cultura popular sugere o contrário, como no episódio final da quarta temporada da serie Friends (1998), onde, no altar, embora quem esteja na sua frente seja Emily, o nome que Ross deixa escapar é o de Rachel, o objeto de desejo que persegue seu imaginário há anos. Ambas as mulheres, Ross e seus amigos— bem como toda a audiência de uma das series mais cultuadas da televisão — , sabem o que isso significa instantaneamente: o desejo de Ross insiste e vaza através da linguagem, expressando o que ele conscientemente não quer ver.

Freud previu de antemão que a complexidade dos processos cognitivos internos da mente humana, bem como a exaustão, distúrbios circulatórios e intoxicação, entre outros, poderiam servir como desculpa para estes chistes comuns, desmerecendo uma necessidade de reflexão que poderia trazer alívio para essa expressão, muitas vezes angustiada. Para o psicanalista, culpar essas circunstâncias seria nada mais do que diagnosticar toda uma angústia que tenta se expressar, como um mero sintoma, negando o fato de que os deslizes abrem muitas perguntas ao invés de fechá-las.

A internet torna-se palco para a observação de como esses desejos reprimidos se expressam em tempo real. Seja através das inúmeras viralizações de gafes e chistes ao vivo, frente uma audiência cada vez mais atenta, seja através da própria cultura do cancelamento, que alimentada pelas convulsões sociais, está sempre disposta a flagrar as instâncias onde determinado discurso de um indivíduo não condiz com a imagem que ele tenta estabelecer, onde os chistes e atos falhos se mostram como o ‘menor denominador comum’ da nossa experiência consciente, nos fazendo realizar que ninguém é realmente a figura perfeita e incorrigível que imaginamos.

Não importa nosso status ou posição social, todos estamos sujeitos aos mesmos deslizes, más interpretações e ações desastradas e contraditórias. Seguimos angustiados pelos mesmos desejos reprimidos, e é apenas essa auto-reflexão, esse trabalho investigativo de buscar compreender nossos impulsos internos, que pode nos trazer uma maior compreensão de quem nós somos, bem como o merecido alívio de saber que é impossível ser perfeito o tempo todo.

Às vezes, tudo o que a gente precisa é de alguém capaz de oferecer escuta, entendimento e empatia. A psicanálise é assim. Me dá um toque, bora conversar.


메타데이터
post_id
4a53e994bfa5
slug
o-ato-falho-consigo-mesmo-4a53e994bfa5
url
https://medium.com/@andrematt/o-ato-falho-consigo-mesmo-4a53e994bfa5
canonical_url
https://medium.com/@andrematt/o-ato-falho-consigo-mesmo-4a53e994bfa5
author_url
https://medium.com/@andrematt
status
ok
fetched_at
2026-08-18 07:02:42