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Berliner Mauer ist weg!…aber in Brasilien…

Há muros.

Barbra Tenório · 2019-11-09 19:16 · 9 claps · 3.6 min read
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Berliner Mauer ist weg!…aber in Brasilien…

Há muros.

Berlim, 9 de Novembro de 2019. Hoje se comemora pelas bandas de cá os 30 anos da “queda” do Muro de Berlin. Na noite do dia 8 de Novembro de 1989 Günter Schabowski, Secretário da Informação da RDA (Antiga Alemanha Oriental), anunciou durante uma conferência de impressa a abertura das fronteiras para viagens dos cidadãos orientais para terras ocidentais. Com a notícia correndo pelo rádio, e a afirmação de que essa abertura era imediata, multidões sobrecarregaram os pontos de saída do muro, que foram abertos arbitrariamente dando acesso à ilha da liberdade que era a Berlim Ocidental. No dia seguinte, 9 de Novembro, há a queda do muro e o início do processo de reunificação da Alemanha (socialista e capitalista, Leste e Oeste). O acordo de reunificação só é finalizado e oficializado quase um ano depois, em 3 de Outubro de 1990.

Mas o que tem um evento histórico de 30 anos atrás, ocorrido na Europa, a ver com o Brasil? Pois bem, aqui começo minhas reflexões. Em meio a discussões sobre a queda do Muro de Berlim, e a existência ainda nos dias atuais de muros divisórios em diversas sociedades, que dividem regimes políticos, que dividem religiões e territórios, fui questionada por uma colega mexicana se no Brasil havia algum muro, imediatamente respondi (automaticamente, sem nem pensar) que não. Como estava em uma aula de alemão, minha resposta saiu em alto e bom som, “In Brasilien gibt es keine Mauern” (No Brasil não há muro). Hã???? Segundos depois me fiz essa mesma pergunta internamente. E a primeira resposta que consegui me dar foi um SIM em letras garrafais. Não compartilhei isso com ninguém no momento, mas dentro de mim se reviravam imagens de incontáveis muros que posso afirmar existirem no Brasil.

Não foi nenhuma descoberta, apenas o prestar atenção para uma situação real que vivenciamos no Brasil todos os dias. Há os muros de alvenaria e concreto que de fato separam a população por classes sociais, esses, estão lá para todo mundo ver. São os muros que separam bolsões de pobreza dos condomínios fechados, são os muros das casas dos ricos com toda tecnologia e altura ‘necessárias’ para isolar a família ‘de bem’ da criminalidade urbana, são os muros dos prédios, das escolas, das instituições, são os muros, que separam nossa Arquitetura tropical da Rua. O muro faz na arquitetura brasileira o papel de mediador entre o público e o privado, tomou o lugar da soleira da porta. Os muros de concreto impedem o vislumbre a paisagem urbana, cotidiana, que passa para além dos portões, e ao mesmo tempo impedem experiências arquitetônicas e espaciais. Muros são barreiras visuais que se impõem como necessários à segurança urbana. Mas como assim? Que segurança urbana é essa, que traz o muro como solução para um problema estrutural das políticas sociais do Brasil? Puxa, que importância tem o muro então!

O muro brasileiro é encarado todos os dias como elemento indispensável das nossas estruturas urbanas. O isolamento de uns poucos, o alijamento de uns tantos muitos são encarados todos os dias com naturalidade. O muro faz parte, está lá no cotidiano de todos, isolando, alijando, separando. Pois é, no Brasil há sim vários muros. Mas até aqui coloquei minha inquietação com os muros brasileiros tangíveis, aqueles que são parte da natureza de nossas cidades. Mas talvez os mais absurdos muros sejam aqueles que não vemos, os muros invisíveis. Os muros que são revestidos de preconceitos, segregações e injustiças. Sim, o Brasil tem muitos muros, o muro da cor, o muro da raça, o muro da classe social, o muro do gênero, o muro do partido político, o muro da intolerância religiosa, o muro da região geográfica, muros, muros e muitos muros. Muros que são omitidos todos os dias, pois são invisíveis, portanto facilmente omitidos. Contudo, sentidos todos os dias na pele pelos brasileiros que sofrem a ação desses muros. Pois é…, esses muros invisíveis agem cotidianamente como barreira de contenção contra negros, índios, quilombolas, mulheres, idosos, comunidade LGBTQ+, pobres, artistas, nordestinos e diversos outros grupos e comunidades que têm seu caminho e sua luta barrados pelos muros impostos pelos que estão no poder.

Triste perceber a existência de tantos muros no Brasil! Muros que são travestidos de grades, que também fazem contenção, mas deixa brechas para vermos o outro lado e alimentarmos uma esperança de abertura e libertação. Através da grade é possível refletir sobre as injustiças e indiferenças, e também perceber as possibilidades existentes por trás dela. Mas não nos enganemos! Grades também são muros. Me atrevo a dizer que o maior elemento de segregação existente no Brasil hoje é o Muro imposto por uma minoria que ocupa uma ilha chamada Congresso Nacional. Que ironia, pois nesse conjunto arquitetônico não há muros. Não os de concreto. Muros são feios, afetam a estética urbana. Mas o maior muro invisível existente no Brasil hoje está lá, isolando essa ilha de poder de uma população alijada da participação, das oportunidades, de seguir um caminho digno em um dos países mais lindos desse mundo. E essa população, que enxerga através dos muros travestidos de grades, está fazendo massa para abertura desse muro como fez a população berlinense em 1989. O que querem encontrar atrás do muro? Liberdade, dignidade, educação, justiça social, igualdade, oportunidade, querem encontrar uma paisagem que faça sentido e que esteja livre de muros.

  • GENTE! Alguém abre os portões desses muros por favor, merecemos.

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