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Mushishi: a aura indizível de um mundo habitado por mushis

Que Mushishi (蟲師) se passa em algum momento do Japão pré-moderno, é uma conclusão a que se chega já no começo da leitura. Conforme a autora…

Bruno Mariano · 2024-01-31 15:02 · 0 claps · 3.6 min read
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Mushishi: a aura indizível de um mundo habitado por mushis

Que Mushishi (蟲師) se passa em algum momento do Japão pré-moderno, é uma conclusão a que se chega já no começo da leitura. Conforme a autora Yuki Urushibara deixa claro no mangá, é possível situá-lo numa era imaginária entre os períodos Edo e Meiji. E essa escolha é reveladora. A Restauração Meiji, que sucede a época fictícia do quadrinho de Urushibara, é justamente aquela em que, ameaçados por forças externas, os japoneses decidem recuperar o tempo perdido com os longos anos de isolacionismo e adotar, em ritmo frenético, um modelo social europeizado que permitisse ao país conquistas militares e científicas. E, numa nação com tais pretensões, as primeiras coisas que começam a definhar são a crença no sobrenatural e uma conexão com o lado insondável da vida, que passam então a ser consideradas traço de atraso civilizatório.

Em Mushishi, essa relação com o mundo ainda é muito forte e pode ser sintetizada na ideia de mushis, pequenas criaturas cuja natureza é de difícil definição e que se assemelham mais a entidades mágicas ou fantasmagóricas que aos bem conhecidos seres orgânicos e vegetais. Num cenário assim, é natural que existam pessoas empenhadas em entendê-las (ou combatê-las), como faz Ginko, um mushishi ou expert em mushis, que, na condição de investigador itinerante, aparece em todas as histórias que compõem as mais de 400 páginas deste poético mangá que, com sensibilidade e um leve toque de melancolia, mantém o leitor fascinado do início ao fim.

Pouco sabemos da vida pregressa de Ginko. O que nos surpreende são seus traços possivelmente ocidentais e um conhecimento gigantesco sobre os mushis. Em cada história, esses seres enigmáticos representam um ponto de desequilíbrio que Ginko se compromete em “consertar”, auxiliando os afetados, mas sempre esperando, em troca, obter algo que expanda seu conhecimento enquanto mushishi. Embora os primeiros capítulos já revelem a capacidade criativa de Urushibara, eles são mais tímidos e, como esperado, servem para nos apresentar ao universo do mangá. Contudo, nem por isso deixam de ser menos impactantes. Em A passagem do travesseiro, por exemplo, os sonhos de um homem podem estar relacionados a um mushi chamado imeno-no-awai. A princípio, a aldeia onde ele vive entende esses sonhos como premonições benéficas, mas em pouco tempo fica claro que se fiar em mushis é um caminho certo para a própria ruína.

De maneira acertada, a editora NewPOP optou por condensar dois tankōbons em apenas um encadernado, o que reduz a coleção de Mushishi de 10 para 5 volumes, uma estratégia que já se mostrou bem-sucedida em outros títulos e nas mãos de outras editoras cientes de que, quanto maior for o tempo de publicação de um mangá, maiores serão as chances de que os leitores percam o interesse em acompanhá-lo, as vendagens diminuam e, no pior dos cenários, o mangá seja encerrado abruptamente no meio do caminho.

É fácil perceber onde termina o primeiro tankōbon e onde começa o seguinte. Também é fácil perceber como a autora evolui de um para outro. Se no primeiro ela já apresenta premissas e desenvolvimentos interessantíssimos como o capítulo já citado ou A luz das pálpebras, em que a noção de solidariedade e amizade são colocadas à prova por um mushi que se prolifera na escuridão e onde entendemos um pouco mais quem afinal é Ginko. Mas é na segunda metade do mánga que Urushibara brilha para valer. Em O mar de tinta, acompanhamos uma garota com ares de sacerdotisa que, numa relação de amor e conflito com os mushis, tem o dom de selá-los usando os traços de sua caligrafia rebuscada. Em certo momento, a escrita chega a tomar o corpo dela, formando uma imagem muito semelhante à de um dos capítulos do filme **Kwaidan (1964) de Masaki Kobayashi. Destaco também A chuva vem, o arco-íris se ergue, conto que exemplifica a aura poética e inefável de Mushishi* e mostra a ingenuidade de um homem que deseja capturar um arco-íris para se provar valoroso aos outros e a si mesmo. Esporos da escuridão, a história mais inquietante, encerra o volume. Nela, Ginko encara um mushi* que se multiplica de forma peculiar e parasita uma família, alimentando-se de suas expectativas e tristezas.

Mushishi parece ocupar um lugar especial no coração do público brasileiro porque sua primeira animação chegou a ser exibida com dublagem na TV a cabo no fim dos anos 2000. Seu ritmo calmo e atmosfera misteriosa também o colocam como alternativa às opções de mangás em que sobram clichês e batalhas sem fim e despropositadas. Pelo que já li por aí, Mushishi mantém essa qualidade até o fim. Com essa perspectiva em mente, já fico ansioso pelo próximo volume e sentindo que enfim temos acesso a mais um clássico dos quadrinhos japoneses.

Nota 5/5

Editora NewPOP (2023)

Tradução por Willian Tanaka

450 páginas (volume 1)


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