O que o cruzeiro das “street dances” pode nos dizer sobre colonialidade e meritocracia na dança?
Nas últimas semanas a cena das danças urbanas no Brasil ferveu com o anúncio de que a “copa do mundo das street dances”, que é feita em…
O que o cruzeiro das “street dances” pode nos dizer sobre colonialidade e meritocracia na dança?
Nas últimas semanas a cena das danças urbanas no Brasil ferveu com o anúncio de que a “copa do mundo das street dances”, que é feita em Paris na França, e ocasionalmente acontece também em outros países, acontecerá neste ano de 2026 no Brasil, com edição “terrestre” em Angra dos Reis e um cruzeiro que sai de santos com paradas em Búzios, Maceió e Salvador.
Muitos brasileiros se posicionaram em contraditórias opiniões, uns como se fosse um grande reconhecimento e oportunidade para os brasileiros, outros, um objeto de desejo inalcançável e outros questionaram a desconexão do formato do evento com a realidade dos artistas que mobilizam a cena em nosso território.
Não sei se vocês lembram que a não muito tempo atrás o Brasil foi invadido por Portugal, um país Europeu e eles impuseram violentamente sua religião, seus costumes, seu idioma (e é por isso que estou escrevendo em português) e então foi estabelecida essa relação de superioridade não só de Portugal mas dos países colonizadores europeus sobre os país colonizados, entre eles o Brasil. Colonialidade é a continuidade de pensamentos coloniais nas relações de poder articuladas ao capitalismo e, sobretudo, nos discursos reproduzidos cotidianamente em nossa sociedade.
Ou seja, é como esse pensamento de inferioridade principalmente do sul global valida que certos “centros do mundo” ainda determinem o que é referência, qualidade e sucesso. E ainda explorem estes primeiros citados.
Leia mais sobre o tema no link abaixo
Colonialidade e Decolonialidade: você conhece esses conceitos? | Politize!
É inegável que a cena global de “street dances”, mesmo sendo construída majoritariamente por corpos negros e periféricos ao redor do mundo, atualmente gira em eixo de validação europeu. O maior objeto de desejo é ter destaque no ciclo de batalhas e eventos europeus.
Batalha = competição; Competição = mérito, quem é melhor vence; Guarda isso.
Quando uma iniciativa europeia acontece através de um formato caro, voltado ao turismo de luxo, pago em euro e ancorado em uma estética que reforça estereótipos: tropicais, praias, paisagens paradisíacas, o clássico de Sérgio Mendes… o que vemos é exatamente uma reconfiguração de uma lógica colonial.
O Brasil aparece como cenário, como produto, como experiência, desconectada com a realidade do território e pensada para um público internacional com poder de consumo.
Essa lógica se conecta diretamente com a meritocracia. Porque, ao mesmo tempo em que o acesso é limitado por fatores econômicos, geográficos e sociais, o discurso que circula pela boca dos próprios brasileiros é o de que “esse é um reconhecimento para o país e se não der pra ir nesse, devemos cada um trabalhar individualmente pra conseguir ir no próximo”. Como se o esforço individual fosse a solução para igualar a chegada quando os pontos de partida já nascem a quilômetros de distância.
A colonialidade aliada a meritocracia atua justamente nesse ponto: ela naturaliza essas desigualdades. Faz parecer normal que a validação pro desempenho dos dançarinos do país venha de um evento gringo. Faz parecer desejável adequar ao modelo imposto a qualquer custo para conseguir a oportunidade de estar entre “os melhores”, como se a presença nesse tipo de evento fosse a única forma legítima de reconhecimento.
Se nós estamos falando da Copa do Mundo das danças, ou seja, um evento que se propoe a ser global, na edição em questão, ao menos nacional, e somente pra entrar no evento você precisa desembolsar seus 4, 10mil reais, a competição não será sobre quem teve o mérito de ganhar e sim, sobre quem teve condição para pagar.
A crítica não é à existência do evento, inclusive essa poderia ser uma oportunidade real de descentralização e realização de um evento mais acessível ao sul global. À crítica é ao formato, o tipo de discurso que está sendo comunicado em cada escolha feita. A crítica se estende inclusive a eventos nacionais que, de outras formas, perpetuam um discurso muito próximo.
Por isso é sempre interessante pensar: O que essa ação de fato agrega de maneira responsável para a construção da cultura? O dinheiro investido será reinjetado na cultura em nosso território? Nas mãos de quais pessoas? Será que o dinheiro investido ao menos retornaria monetariamente para todas as pessoas competidoras após o evento? O modo como o evento foi pensado dialoga com os fundamentos das culturas que ele trás como proposta?
Esse diálogo é para além do evento em questão, é para além inclusive da dança no geral. A intenção é que a gente possa se perceber reproduzindo modos de pensar o mundo que são de fato coloniais, meritocráticos e excludentes.
Não tem nada de errado em querer estar no evento, ou ir à Europa, ganhar essas batalhas, esse é o sonho de muitas pessoas, até porque de fato nesse momento todos os olhos estão voltados a isso. Mas por que estão? É importante não perder de vista as múltiplas camadas que estão relacionadas à isso.
Desejo humildemente que possamos coletivamente olhar de maneira mais crítica para esse cenário e que, quando formos a um cruzeiro das danças urbanas, que ele seja organizado por um produtor local, tenha ações afirmativas de acesso, com valorização e estratégias reais de economia e conhecimento circular.
메타데이터
- post_id
- 4ae09296e8db
- slug
- o-que-o-cruzeiro-das-street-dances-pode-nos-dizer-sobre-colonialidade-e-meritocracia-na-dança-4ae09296e8db
- url
- https://medium.com/@gisoul.arte/o-que-o-cruzeiro-das-street-dances-pode-nos-dizer-sobre-colonialidade-e-meritocracia-na-dan%C3%A7a-4ae09296e8db
- canonical_url
- https://medium.com/@gisoul.arte/o-que-o-cruzeiro-das-street-dances-pode-nos-dizer-sobre-colonialidade-e-meritocracia-na-dan%C3%A7a-4ae09296e8db
- author_url
- https://medium.com/@gisoul.arte
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-09 15:12:33