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Goonies do Brás

Já escrevi que meus anos de ETE Carlos de Campos eram intensos.  Fazíamos festas, rolês aleatórios pelo Brás, Pari e 25 de Março.  A gente…

andheibs · 2026-01-05 18:21 · 14 claps · 3.4 min read
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Goonies do Brás

Já escrevi que meus anos de ETE Carlos de Campos eram intensos. Fazíamos festas, rolês aleatórios pelo Brás, Pari e 25 de Março. A gente gastava sola de tênis sem dó e, quando o buraco aparecia, bastava um jornal dentro e seguia o baile.

Não é nostalgia, era apenas a realidade que tínhamos. Caminhar para achar um jogo específico, um caderno diferente, um almoço barato. Caminhar para não gastar o passe que ia para o tio do dog. Caminhar só para jogar conversa fora. Caminhar para descobrir algo novo naquele Brás e, com sorte, em outros cantos da cidade.

Mas não vivíamos só de andar. Quando pegávamos o trem, íamos para lugares que só deus sabe como descobríamos sem GPS, Waze ou Maps. No máximo, uma olhada no Guia impresso e olhe lá. Dessas aventuras surgiam jornadas até o extremo leste para ver show gratuito de rádio, idas ao Pico do Jaraguá para gravar trabalho da escola e ser perseguidos por macacos, escaladas à Pedra Grande da Cantareira cercados de bugios, saguis e uma fauna inteira acordando com a gente. Também teve a expedição de trem até Rio Grande da Serra para descobrir Paranapiacaba, muito antes do turismo organizado de hoje.

Entre 1999 e 2000, todos esses lugares ainda eram meio precários, sem a ocupação comercial que hoje toma cada centímetro do espaço público. Não estou defendendo nostalgia nem demonizando empresas. Acho que o que é público deve ser cuidado e acessível, mas o uso predatório dos espaços virou regra. Shows gratuitos em SP são cada vez mais raros e, se vacilar, ficam restritos à Virada Cultural. Ainda temos cultura, parques e tudo mais, mas temo que um dia sobre muito pouco.

Voltando à história. Ou não.

Paranapiacaba é uma vila ferroviária histórica em Santo André, criada no século XIX pela São Paulo Railway para abrigar trabalhadores ingleses. Um pedaço de Inglaterra encaixado na Serra do Mar, com arquitetura preservada, ruas de paralelepípedos, museus, trilhas e o Festival de Inverno. Hoje é patrimônio tombado e parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Na época em que começamos a ir, era quase uma cidade fantasma. Com a névoa da serra, virava cenário de filme de terror. Trens desativados, maria-fumaças engolidas pelo mato, estruturas enferrujando em silêncio. Um espetáculo perdido a poucos quilômetros de São Paulo.

Nas trilhas, chegávamos a cachoeiras e, pelo caminho certo, descíamos a pé até Cubatão. Tínhamos 17, 18, 19 anos. Um grupo inseparável. Era aventura pura: achar cachoeiras escondidas, piscinas naturais, córregos que ninguém sabia nomear. Hoje é difícil caminhar ali sem topar com grupos organizados, monitores e filas na trilha.

Teve vez em que nos enfiamos no mato com chuva, barro e terreno traiçoeiro. Pernas assadas, tombos garantidos. A gente era imprudente e sortudo: sem preparo, sem equipamento, só água, bolacha e salgadinhos.

Fomos para lá umas seis vezes até a fatídica expedição com um grupo maior. E, claro… deu ruim.

A combinação era um manual de como errar: muita gente, pouco preparo, fim do horário de verão e a luz indo embora rápido. Chão escorregadio pelas chuvas da semana, escolha de voltar fora da janela de luminosidade e ainda por cima pela trilha supostamente mais fácil e mais longa, a famosa trilha das motos, que de fácil só tinha o nome. Veio o cansaço, a dificuldade real, o resgate pelo grupo especial e tático da polícia. Meu pai e o pai de um amigo mobilizados para ir atrás da gente, e ainda bem que não se meteram no mato também.

O resultado virou notícia: matérias no Jornal Notícias Populares, notas nos jornais da noite e uma entrevista longa no programa da Márcia Goldsmith na TV Gazeta. Eu ainda fiquei conhecido como o rapaz que conseguia dormir no meio do caos. Dormi perto da fogueira, acordei com o resgate, dormi na delegacia durante o interrogatório e dormi de novo no caminhão do Exército até São Paulo. Se perder no mato cansa.

E foi assim que tudo aconteceu.

No dia seguinte, os jornais impressos falavam de nós, e a produção da Márcia chamou para uma entrevista rápida que virou mais de uma hora no estúdio. Depois disso, olhamos uns para os outros com aquela alegria juvenil sem freio, certos de que a próxima aventura já estava ali, só esperando a gente tropeçar nela.


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