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Renato

20

Suas Verdades · 2025-12-26 12:47 · 0 claps · 4.9 min read
#traição #irmão #amor #desejo #verdade
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Renato

20

— Você vai continuar me amando depois de acordar amanhã? — pergunto mentalmente para a mulher nua que se deita na minha cama, cabelos negros e crespos, pele escura e corpo escultural. Ali, deitada de lado, está a mulher que eu amo incontrolavelmente, linda, cuja luz reflete em sua pele um brilho que só ela tem, dona de um sorriso poderoso que poderia facilmente ser confundido com alguma maravilha do mundo. Ela sorri para mim e me olha nos olhos sem dizer uma palavra e eu, deitado de frente para ela, encostando meus dedos nos dela, como um adolescente, me sinto enfeitiçado por essa mulher que tanto quero ao meu lado, que chega a ser obsceno. Me vejo obrigado a me deliciar com essa vista maravilhosa…

Então, cansada de ficar só a observar, ela me puxa para perto e eu a envolvo no meu abraço. Somos dois seres nus, sem nenhum pudor, nus não somente de roupa, mas de alma, de espírito. Estou nu e me sinto nu porque não tenho motivo algum para me esconder; com essa mulher, eu sou completamente livre.

Eu a olho nos olhos e sinto que a chama que sai daqueles olhos poderia me incendiar por completo, uma cidade por completo. Ela tem AQUELE olhar que me paralisa, como a Medusa. Essa mulher faz de mim o que quiser; eu sou dela, eu sou dela completamente entregue.

Ela é daquele tipo de mulher que você cruza na rua e não consegue desviar o olhar, um brilho fenomenal, e eu poderia jurar de pé junto que é ela quem ensina o sol a brilhar, porque é com ela que eu me sinto um homem de verdade, é com ela que eu quero estar.

Mas será que ela vai me amar amanhã?

A pergunta que não quer calar. Eu deito com o peitoral aberto e ela se inclina para dormir no meu peito enquanto sinto o cheiro delicioso do seu cabelo, que tem cheiro de morango, de alguma forma que eu não sei explicar exatamente, mas eu gosto… na verdade, eu gostaria de qualquer cheiro que eu sentisse naquele cabelo sedoso e cacheado que só ela tem.

Mas olho então para seu dedo encostado no meu peito enquanto ela adormece. Essa mulher não é minha, essa mulher não pertence a mim; ela pertence a ela mesma e ao homem que estará naquele altar esperando silenciosamente amanhã, quando ela acordar de sua ressaca moral e se lembrar da vida que ela tem.

A verdade é que eu sempre fui loucamente apaixonado por ela, por essa mulher que sempre fiz questão de estar por perto, mas ela jamais foi minha. Ela sempre o preferiu, ela sempre foi dele e, mesmo agora, depois de uma noite intensa de amor, eu sabia que não mudaria sua opinião sobre se casar com aquele cara que sempre foi legal comigo, mas eu nunca pude dizer o mesmo sobre ele…

Ela me beija o pescoço e então vamos para o segundo round. Ela sobe em cima de mim enquanto eu a beijo incansavelmente, forte, como se o mundo fosse acabar naquele beijo. Passo a mão sobre o seu corpo e beijo seu pescoço e seios de novo e, de repente, tudo em mim se acende novamente. Eu posso sentir sua pele na minha enquanto ela, por cima de mim, se entrega totalmente, e eu me sinto o homem mais sortudo desse mundo, mas sei que tudo isso é passageiro. O grande amor da minha vida vai se casar com o homem mais feliz deste mundo, com o cara do qual eu passei a infância lado a lado, com o cara que sempre fora meu vizinho de vida, com o meu próprio irmão.

Eu não sei bem como tudo isso começou e quando começou. Talvez tenha sido no primeiro olhar e senti meu coração derreter, ou quando os flagrei dando uns amassos no carro. Eu sei que sempre fui o irmão caçula, o amigo, o confidente, aquele que estava sempre em segundo plano… Dez anos se passaram e todos nós crescemos e, então, o olhar sobre mim também mudou. Eu me via diferente, ela me via diferente e ele continuava a me enxergar da mesma forma. Talvez esse seja o erro.

Sendo ela a mulher mais importante que eu tive a oportunidade de ter em minha cama, ela sorri para mim e, então, todas as dores do meu peito se vão. Eu sei que depois de amanhã tudo isso vai mudar e vamos voltar a ser exatamente o que éramos. Amanhã, eu estarei como um dos padrinhos daquele altar, olhando nos olhos do homem que eu mais admiro e mais machuquei sem que ele tivesse a oportunidade de saber. Eu o enganei da pior forma possível, de formas imperdoáveis, eu, que sempre fui o irmão certinho, o improvável e o infantil, contra aquele que já aprontou tudo na vida, mas se viu preso nos braços daquela mulher que, por agora, é minha.

Braços, suor no meu e olhares penetrantes. Estamos conectados, almas conectadas, corpos que se uniram em um só. Eu sei que talvez para ela seja um rito de passagem e que, se alguém descobrir, eu sairei como culpado sozinho, mas, por enquanto, realizo meu sonho e sou desbravador sobre aquela mulher. Faço o meu melhor para que ela enfim perceba que também me ama, que também pertence a mim. Vou a fundo, me destaco, me entrego completamente. Sou com ela o que jamais fui com outra mulher em toda a minha vida. Me sinto um garoto de novo, como se fosse a primeira vez, como se eu estivesse usando meu brinquedo de Natal pela primeira vez. Eu sou dela e ela, por enquanto, é minha de volta.

Mas então tudo termina e, mesmo eu tentando me apegar a cada segundo, a cada instante eu sei exatamente o que vai proceder esse momento mágico — e é exatamente como sucede.

Ela sorri para mim, deita na cama de bruços e eu continuo a beijar suas costas. Ela sorri e diz que sou incansável; mal sabe ela que eu só não quero que o momento termine.

Mas logo o dia amanhece e eu a vejo levantar. Ela olha o relógio e corre para o chuveiro. Tento ir atrás, mas ela me pede para ficar no quarto e eu, ao observar aquele corpo lindo e sabendo que provavelmente isso nunca mais poderá acontecer, não quero que aconteça de novo, mas não posso deixar de amar. Ele pode ter o corpo dela à vontade, mas eu sei que algo em mim ficou naquela mulher. Eu preciso acreditar nisso.

Mas ela sai do banho e aquele olhar de fome e de paixão, aquele olhar da noite anterior, é completamente trocado por esse olhar de misericórdia, como se eu fosse um moleque novamente aos olhos dela, como se eu fosse o segundo plano ou o irmão não desejado… Ela agradece pela noite anterior, põe sua roupa, me ofereço para levá-la até em casa, mas ela diz não.

E quando ela se vai, atendo a ligação que me chama pelo apelido de infância, aquela voz que eu conheço bem e soa tão familiar…

Então olho para os lençóis e para aquele cheiro no ar que só existe na minha mente, mas que eu quero fazer durar.

Ele diz que está vindo me buscar, pergunta se estou com alguém, e eu sou obrigado a apenas sorrir.

Ontem eu fui amado.

Hoje, terei de entregar o meu amor naquele altar.


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