Deleuze Em 1990 e o Retrato da Sociedade de 2025
Em 1990, Gilles Deleuze escreveu o Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle, um texto breve, mas de enorme alcance analítico. Partindo…
Deleuze Em 1990 e o Retrato da Sociedade de 2025

Em 1990, Gilles Deleuze escreveu o Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle, um texto breve, mas de enorme alcance analítico. Partindo das ideias de Michel Foucault sobre as “sociedades disciplinares” – organizadas em espaços fechados e moldes fixos, como escola, fábrica, hospital, prisão – Deleuze identificou um processo de transição para um novo regime: o controle aberto, móvel e contínuo.
Na época, sua análise soava quase como previsão. Ele descreveu uma forma de poder que não precisaria mais do confinamento físico para atuar. Ao invés de “fechar” corpos em espaços delimitados, esse novo poder se exerceria de maneira fluida, acompanhando e modulando a vida em tempo real, no trabalho, no estudo, no lazer. A avaliação contínua substituiria o exame pontual; a modulação individual tomaria o lugar das regras fixas para todos; o “indivíduo” se fragmentaria em dados, perfis e métricas – aquilo que ele chamou de “dividual”.
O que Deleuze acertou
O que parecia, em 1990, um cenário emergente, é hoje nossa realidade cotidiana. O controle se tornou onipresente e invisível: plataformas digitais registram localização, preferências, consumo e interações; algoritmos personalizam o que vemos, compramos e pensamos; dispositivos portáteis transformam o monitoramento em prática permanente. O capitalismo deslocou seu foco da produção de bens para a gestão e comercialização de dados, e o marketing, como Deleuze previu, tornou-se ferramenta central de controle social.
Sua metáfora do “controle contínuo” se cumpre na rotina de quem vive conectado – não há início e fim claros para o trabalho, para o estudo, para a exposição pública. Tudo se mistura, e a vida se transforma em um fluxo sem interrupção.
O confinamento individual no século XXI
Se nas sociedades disciplinares o confinamento era coletivo – trabalhadores na fábrica, estudantes na sala de aula – hoje vivemos um confinamento individualizado. É o que se poderia chamar de confinamento portátil: eu e meu smartphone, conectados à internet, formamos um espaço fechado e pessoal, uma espécie de “cela de bolso” que carrego para qualquer lugar.
Esse confinamento não é físico no sentido tradicional, mas reúne as mesmas lógicas dos meios de confinamento descritos por Foucault: regras invisíveis, vigilância constante, moldagem de comportamento. O smartphone é o dispositivo; a internet é o canal que mantém o controle ativo e contínuo.
E aqui está o ponto crucial: esse confinamento individual não nos retira do mundo – pelo contrário, ele nos mantém imersos no novo modo de controle aberto, móvel e contínuo. Podemos estar em qualquer lugar fisicamente, mas nossos dados, escolhas e movimentos estão sempre dentro da rede de modulação. A cela não tem paredes visíveis, mas está em toda parte.
Entre a cela e o fluxo
O que vivemos é uma sobreposição: carregamos, no bolso, o equivalente contemporâneo ao confinamento disciplinar, e nos movemos, ao mesmo tempo, dentro da lógica da sociedade de controle. O “fechado” e o “aberto” deixaram de ser opostos; eles se complementam. É nesse paradoxo que se dá a experiência digital: liberdade de movimento acompanhada por vigilância contínua; acesso a tudo, mediado por filtros invisíveis; individualidade, convertida em dados que alimentam o sistema.
Em 1990, Deleuze dizia que não cabia “temer ou esperar”, mas sim “buscar novas armas”. Trinta e cinco anos depois, sua advertência permanece atual. Compreender a natureza híbrida desse controle – parte confinamento portátil, parte fluxo aberto – é um passo essencial para imaginar formas de viver nele sem se tornar apenas mais um elemento passivo na engrenagem.
메타데이터
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