[1] Confissões de um Individualista CONTRA o Capitalismo, o Status Social e o Consumismo
O que há de individual nos exércitos de cavalheiros urbanos que entram e saem de seus escritórios no mesmo horário, cinco dias por semana…
[1] Confissões de um Individualista CONTRA o Capitalismo, o Status Social e o Consumismo
O que há de individual nos exércitos de cavalheiros urbanos que entram e saem de seus escritórios no mesmo horário, cinco dias por semana, e vegetam na gaiola de suas convenções suburbanas [de classe média] nos outros dias? E quão individuais são as hordas de operários industriais que se postam diante da máquina-deus e repetem os mesmos rituais subservientes ao longo de suas vidas? Fazer essas perguntas é respondê-las.” (Sidney Parker, “Individualist-Anarchism: an outline”, 1965)
Como discutido no texto inaugural deste blog ([0] Pensar a Sociedade ‘para Além do Estado’, o Trabalho em Moldes Mutualistas e a Justiça Social com Liberdade Econômica: a contracorrente do remanescente], cuja leitura é fortemente recomendada, a posição central que será discutida por aqui foi adjetivada como “individualista” (e também como “mutualista”, mas por ora nos concentraremos no 1º elemento do par).
O individualismo em questões sociopolíticas é mais associado a críticas contra o estatismo e o comunismo marxista-leninista. Contudo, é menos conhecido o modo como o individualismo pode ser usado para fornecer críticas contra o capitalismo, as distinções de status social e a sociedade de consumo. Pior ainda, muitos discursos por aí realmente associam o individualismo como se estivesse “em termos amigáveis” com tais fenômenos, o que considero um erro, pois, como pretendo demonstrar aqui, na verdade estão em forte tensão. Há razões individualistas robustas para ser contrário (ou ao menos crítico) ao capitalismo, ao status social e ao consumismo!
Para compreender bem isso, é preciso deixar claro o que queremos dizer com ‘individualismo’. Não estamos falando de um traço de caráter pelo qual uma pessoa, para benefício próprio, não se importa em prejudicar os outros e, assim, age em detrimento dos outros. Por ‘individualismo’ aqui, estamos falando de uma atitude que preza a individualidade, que valoriza a independência de caráter, que não aceita se dobrar (ao menos não com facilidade ou sem atrito) ao que outros desejam lhe impor, isto é, que resiste às pressões sociais para se conformar em sacrifício das peculiaridades pessoais. Assim, o individualismo nada mais é do que a vontade de ser a si mesmo e viver sua própria vida, uma forte fidelidade para consigo mesmo. (Algumas pessoas têm problema com a palavra ‘indivíduo’ aqui por a considerarem muito carregada. Sem entrar no mérito desse debate neste momento, pode-se substituir ‘indivíduo’ no que se segue simplesmente por ‘pessoa’ ou ‘pessoa com vontade própria’, para usar uma terminologia mais ‘neutra’)
Esse tipo de atitude, que de início começa como um traço de personalidade que as pessoas possuem em grau maior ou menor, de nenhum modo exclui a cooperação e a preocupação com o bem-estar alheio. Afinal, salvo por alguns que prefiram a solidão e o isolamento permanentes ou quase-permanentes, os seres humanos, por serem animais sociais (tal como muitos primatas o são), interessam-se uns pelos outros e tendem à ajuda mútua para obter e construir os elementos de uma vida satisfatória. O desenvolvimento infantojuvenil depende em aspectos críticos da interação social, como exemplificado de forma marcante pela aquisição da linguagem. Portanto, uma pessoa não se forma sozinha, embora possa optar pelo isolamento posteriormente, e muito da potência individual de uma pessoa só é possível por existirem sociedades e operações coletivas.
Portanto, prezar pela própria individualidade e pela independência pessoal constitui-se em razão para cooperar (salvo a exceção de uma personalidade extremamente reclusa). No mínimo do mínimo, para se obter mais do que seria possível isoladamente, mas também simplesmente por sentimentos de simpatia incondicional em relação aos outros ou pela generosidade que flui da superabundância de potência. E a virtude do autocontrole, o domínio de si, importante para o bom convívio com os outros, também robustece a individualidade (ao impedir que a vontade se torne escrava das próprias paixões voláteis).*
O problema para o individualista será com estruturas sociais que sufoquem a independência pessoal, que roubem seu sentido de pessoa peculiar com uma vida que cabe a ela viver, que imponham sacrifícios unilaterais baseados em uma retórica de “abstrações coletivas indefinidas” (como A Nação, O Bem Comum, etc.), que o induza a dominar ou ser dominado em relações difusas de poder relativas a gênero, classe, raça, assimilação cultural e linguística, etc. Isso conduz a sérios problemas com regimes como o comunismo soviético, o fascismo e o nazismo. Mas também com os sistemas capitalistas de produção, com as distinções de status social que caracterizam as classes dominantes ou estratos socioeconômicos mais elevados, e com as “culturas” do consumismo e da ostentação.
Antes de adentrar diretamente em como cada um desses fatores sociológicos interfere com o cultivo da própria individualidade, é interessante detalhar mais como uma postura individualista se parece simplesmente ao nível pessoal ainda (microssociológico). Enquanto na extrapolação para o campo sociopolítico não se exija um ‘temperamento’ pessoal propriamente individualista (as pessoas são diferentes e a extrapolação contemplaria a todos), é esse traço de personalidade que permite uma melhor compreensão do que está em jogo na defesa da independência de caráter e das peculiaridades pessoais contra pressões sociais o mais diversas, e provavelmente são pessoas com tal traço em maior grau que, por insistirem nesse ponto, acabam por beneficiar a todas com a derrubada de barreiras à autoexpressão individual.
Um ponto similar ao feito por John Stuart Mill em “On Liberty” (1859) sobre a importância de pessoas excêntricas na sociedade para que mudanças ocorram, já que tudo tradicional teve de ser inventado em algum momento quando, por definição, ainda não era tradição e por isso precisou se contrapor, presumivelmente, a costumes prévios (anteriormente tradicionais). O mesmo valeria para pessoas cautelosas, dificultando mudanças apressadas e perigosas, ou pessoas mais “mente aberta”, promovendo a queda de preconceitos, e assim por diante. Diferentes traços de personalidade têm uma contribuição possível no campo sociopolítico (até pela tensão uns com os outros, contrabalançando uns aos outros), apenas que aqui enfoco na relevância da atitude individualista.
Para essa tarefa, nada melhor do que comentar a individualidade e postura individualista que eu melhor conheço: a minha. Se preferir, é possível pular os 3 parágrafos abaixo para ir diretamente à extrapolação para o campo socioeconômico mais amplo, contudo, considero-a importante para entender o que exatamente é a postura a ser extrapolada.
Ao mesmo tempo que as pessoas que me conhecem proximamente me descreveriam como cooperativo e amigável, também tenho uma tendência individualista desde a tenra infância. Focarei na infância e adolescência pelo “microcosmo” de relações sociais iniciais que isso fornece, antes de ficarem mais sérias. Aos 7 anos, passei a morar num conjunto de prédios com uma pracinha no meio, e comecei a descer para brincar com outras crianças, o que fiz muito!** Mas havia brincadeiras que, no conjunto ou na escola, eu não participava. Criança ainda (ensino fundamental I), não participava da brincadeira de “pira garrafa”, uma espécie de esconde-esconde no qual se alguém consegue chutar a garrafa deixada imóvel em certo lugar, o jogo reseta e a pessoa que tem de encontrar as outras terá de encontrá-las todas novamente. Não brincava por temer ‘ficar obrigado’ a ficar na praça sem poder subir, ou seja, uma ameaça à minha capacidade de ‘ir embora’ a qualquer tempo. Já na pré-adolescência (ensino fundamental II), apesar de me interessar por ler e conhecer as regras de RPGs, houve poucas tentativas de participar, porque a obrigação de ter um dia fixo para obrigatoriamente fazer isso, abdicando do tempo livre, me fazia desistir. Já bastava a escola (a qual curiosamente eu gostava, por também desde muito criança gostar de obter conhecimento e a leitura como minha principal atividade, algo que comentei no texto [0] do meu blog principal, o “Escrevendo o Livro do Mundo”). Inclusive por isso também resistia a possíveis atividades extracurriculares também pela ameaça ao ‘tempo livre’, o tempo que poderia fazer o que quisesse.*** Além disso, não entrava em brincadeiras do tipo “verdade ou desafio” (e até hoje não o faço). O motivo? A coação moral infligida para se fazer ou dizer algo a contragosto, que está na base desse jogo.
Mais adiante no ensino médio, mais crescidos já adolescentes, o foco no conjunto onde morava era conversar, se possível também um flerte sutil (era um grupo misto de garotos e garotas). Em dado momento inventaram de se autodenominar de ‘“manos brodi”, até teve grupo do orkut na época (que nostalgia!). Mas acresceram a isso o uso de um símbolo: uma pulseira de reggae. Adivinhem o único que jamais usou? (Sim, você tem razão em imaginar que eu me identificava com o “Do Contra” da Turma da Mônica desde criancinha) Não usava e não uso adereços no corpo, não usaria porque os outros usam ou para me enturmar, e mesmo eu gostando muito do pessoal! Chegaram também a criar uma brincadeira de se chamar por nomes de parentesco como “filho”, “prima” (minha impressão à época era que fosse algo relacionado a um tentativa de aproximação juvenil ao sexo oposto, por ambos os lados do grupo misto). Dessa vez participei, mas apenas limitadamente para subverter as expectativas: me autoproclamei apenas “tio-avô” de um amigo 3 anos mais velho.
Por fim, voltando ao ensino fundamental II, no colégio, vivenciei a experiência de estruturas sociais mirins em sala de aula. Eu não era popular, era um excluído (enquanto nerd), mas isso não me deixava triste, longe disso! Ficava contente até, de não ser “Maria vai com as outras”, por falar e fazer o que achava melhor e mais razoável. Cheguei a ser em sala uma espécie de líder dos excluídos, em alguns anos chegando a sentar no fundão (para poder contemplar a sala toda sem ninguém às costas, além de ser uma subversão interessante em relação às expectativas quanto aos estudiosos) e acolhíamos outros possíveis excluídos ou excluídas. A grande questão era: ser popular ou tentar ser ou ser deles próximo em status social mirim implicava seguir certos padrões, deixar de ter o meu jeito. Algo que era inegociável para mim. (Curiosamente, no ensino médio, essa estrutura se desfez, e desde então nunca mais fui excluído nesses contextos — a minha inteligência e desenvoltura com o conhecimento se tornaram dividendos reconhecidos socialmente)
Com a exemplificação acima, pode-se ver como a postura individualista não tem relação direta com gestos de prejudicar os outros, mas sim com a capacidade de resistir à pressão social, de não se deixar levar pelas pressões do grupo, de poder “ir embora” e “se desassociar” à vontade, de não abrir mão da independência de caráter e/ou das peculiaridades mesmo sob possíveis vantagens em status social, e de se unir a outros sob a base de não abrir mão disso, interagindo com base em acordos voluntários e costumes espontâneos. Busca-se o quanto possível disso nas circunstâncias concretas, uma vez que o máximo possível provavelmente só seria obtido por viver isoladamente, o que também é uma opção válida, mas não obrigatória. (Mas a dificuldade de obter isso é agravada por vivermos em sociedades organizadas pelo princípio da autoridade, nas quais se vê como normal as imposições involuntárias desde que feitas por certos grupos ou pessoas)
Daí o anarquismo individualista ter sido sempre caracterizado, por vários de seus expoentes, como um estado contínuo de resistência às forças sociais que esmagam a individualidade de cada um e restringem sua potência de livre associação e troca com os demais fora dos modelos impostos:
“Meu anarquismo, portanto, assume a forma de negar a legitimidade de qualquer reivindicação de autoridade sobre mim, não de negar que ainda existam ‘forças sociais’ mais poderosas do que eu, capazes de me compelir a acatar suas exigências, mesmo que eu não lhes conceda tal autoridade. A anarquia, assim, torna-se não um lugar futuro, mas um ‘estado de espírito’ presente, uma perspectiva individual, não uma prática social futura. Contudo, se não tenho o poder de derrubar essas ‘forças’ que reivindicam autoridade e/ou exigem submissão, irei evitá-las sempre que possível, afirmar minha individualidade quando puder e, quando tudo mais falhar, refugiar-me-ei no que James Joyce descreveu como “silêncio, exílio e sutileza astuta” [silence, exile and cunning]. (Sidney Parker, “Anarchism, Authority and Power”, 1976)

(Caspar David Friedrich, “Caminhante sobre o mar de névoa”, 1818)
“[O anarquista individualista é] um resistente permanente a todas as tentativas de subordinar a singularidade do indivíduo à autoridade do coletivo.” (Sidney Parker, “My Anarchism”, 1981)
“O individualismo anarquista não é um ideal, mas uma atividade, um estado de luta — aberta ou velada, mas contínua — contra toda concepção de vida que subordina o indivíduo à autoridade governamental, que considera o indivíduo como uma função do Estado, que o sujeita a restrições sociais e sanções legais cujos fundamentos, bons ou maus, os indivíduos foram e ainda são incapazes de ponderar ou examinar em relação ao seu desenvolvimento individual.” (Érmile Armand , “Is the Anarchist Ideal Achievable?”, 1930)
“Se conseguissem eliminar os governos (isso é utopia em nossa época) subsistiriam por outra, a organização social, esse maquinismo admiravelmente assentado no servilismo e na estupidez acarneirada das multidões […]. É preciso ser humano e ter saltado fora dos tapumes do redil social, ter deixado de ser um número no rebanho servil da domesticidade; é preciso ter sentido a fome no estômago dos outros; é preciso ter alargado o espírito de tolerância, para compreender as razões do próximo e não para tentar impor a autoridade da sua verdade contra os sonhos e as verdades dos outros idealistas.” (Maria Lacerda de Moura, brasileira, “Fascismo: filho dileto da Igreja e do Capital”, 1934)
“Não sou otimista quanto à possibilidade de uma ‘sociedade livre’, dado o desejo generalizado de governar e explorar os outros, aceitando-se, ao mesmo tempo, ser governado e explorado dessa forma. A livre associação na sociedade atual é um objetivo possível e desejável. Estou inclinado a acreditar que a luta contra a autoridade continuará enquanto a raça humana existir — portanto, concordo com Armand, com quem me identifico profundamente, que a principal luta é a da ‘resistência psicológica ao totalitarismo social’. Mas, nessa luta, as críticas econômicas feitas por Warren, Proudhon, Tucker e Armand (ele próprio influenciado por Tucker […]) podem indicar a muitos o grau de sua escravidão econômica e motivá-los a evitar ou resistir à exploração sempre que possível. Houve e continuam a haver muitas tentativas de levar uma vida fora da economia capitalista de Estado, orientadas para o ideal da troca equitativa, que é a pedra angular econômica, a meu ver, do individualismo anarquista. As experiências atuais em cooperativas urbanas e rurais, que tentam eliminar o “intermediário” e substituí-lo por uma troca ou escambo de serviços, estão a um passo da substituição da moeda corrente pelas ‘notas de trabalho’ proposta por Warren.” (Mark A. Sulivan, “A reply to friend Parker”, 1976)
Por capitalismo, entenda-se um modo de produção no qual prevalece a separação entre os trabalhadores e os meios de produção, de modo que para sobreviver a pessoa sem posse dos meios de produção vende sua força de trabalho para aqueles que os detém, que demandam o trabalho alheio para auferir um lucro com a venda da produção (além do lucro, também há o propósito de auferir juros e de auferir renda, mas para simplificar sempre falaremos aqui em lucro).
O maior problema do individualista com o capitalismo diz respeito às consequências da separação entre trabalho e meios de produção. Trata-se de uma organização hierárquica pela qual, classicamente, o trabalhador fica subordinado ao patronato, tendo pouca oportunidade de desenvolver a individualidade dada as cobranças feitas no trabalho. Além disso, mesmo entre os profissionais ‘superiores’, que exercem papel de gerência, sejam proprietários do capital ou não, também se induz um conformismo ligado aos interesses da corporação da qual se faz parte, um “andar na linha” da cultura corporativa.
“‘Individualismo’ é uma dessas palavras, como ‘anarquismo’ e ‘egoísmo’, que foram deturpadas tanto por ignorância quanto intencionalmente. Para muitos radicais, é sinônimo do ‘cada um por si’ [free-for-all] da selva ‘capitalista’, e alguns defensores do capitalismo tentaram usá-la para justificar a exploração econômica e o monopólio. Um pouco de reflexão inteligente sobre a natureza da sociedade capitalista, no entanto, com seus onipresentes homens-patrão [boss-men] e homens-massa [mass-men], basta para refutar essa ideia. O que há de individual nos exércitos de cavalheiros urbanos que entram e saem de seus escritórios no mesmo horário, cinco dias por semana, e vegetam na gaiola de suas convenções suburbanas [de classe média] nos outros dias? E quão individuais são as hordas de operários industriais que se postam diante da máquina-deus e repetem os mesmos rituais subservientes ao longo de suas vidas? Fazer essas perguntas é respondê-las.” (Sidney Parker, Individualist-Anarchism: an outline, 1965)
O exemplo mais nu e cru dessa tendência é visto nos primórdios da Revolução Industrial, com suas jornadas de trabalho excessivamente longas e exposição alta aos acidentes de trabalho/riscos à saúde ocupacional. Muita coisa melhorou desde então, tanto pela luta do trabalhadores como por fatores de mercado e crescimento econômico, e também por mudanças culturais. É inegável que existam variações importantes (para melhor ou para pior) a depender da época, região e setor da economia.
Contudo, na medida em que trabalho e meios de produção persistam separados de forma prevalente persistem o fundamento que permite a alguns mandarem e outros obedecerem, e que acaba mantendo uns presos aos outros nesse ciclo.
“Todo aquele que, para manter a própria independência, precisa contar com a ausência da vontade do outro, é uma coisa criada pelo outro, assim como o senhor é uma coisa criada pelo servo. Se a submissão deixasse de existir, não haveria mais senhores.” (Max Stirner, “O Único e sua Propriedade” [original em alemão], 1844)
“Meu argumento contra assumir uma posição de autoridade é simples. Autoridade é uma relação entre governante e governado que vincula ambos e destrói a independência de cada um.” (Sidney Parker, “In Defence of Individualism”, 1964)
Em que pese o capitalismo ser diferente das relações escravistas de produção, a manutenção dessa hierarquia social entre trabalho e capital importa em manter, mesmo que em grau menor, essa dialética do mestre e do servo, fator que trabalha contra o desenvolvimento pleno da individualidade. Não digo que seja completamente impeditivo, claro, mas um fator que vai numa direção indesejável à postura individualista.
Para além disso, teríamos de analisar práticas mais específicas. Por exemplo, pensando em empregos corporativos (de classe média), poderíamos mencionar dinâmicas de contratação que obrigam os candidatos a participarem de gincanas ou outras coisas, e a pessoa tem de se submeter a isso para (tentar) arranjar um trabalho, que sequer é garantido por sua participação em tal processo. O que isso tem a ver com individualidade? Ao contrário, não estimula um tipo de submissão, mesmo de hipocrisia e dissimulação, logo como filtro para se arranjar um emprego, como característica desejável do “perfil procurado pela empresa”?
Outro exemplo são certas práticas corporativas que estimulam o empregado a “vestir a camisa da empresa”, a publicar sobre a empresa nas redes sociais, a evitar certas condutas pelo bem do nome da empresa. Não é uma forma de coação moral, de pressão social por excelência, te dizerem que é preciso fingir amor desinteressado por algo que é simplesmente um meio de sobrevivência e do qual sequer você obtém os rendimentos totais? Sob pena de simplesmente perder seu emprego, sua fonte de vida naquele momento e arriscar a não ter comida na mesa amanhã. Como isso poderia ser confundido com individualismo?
Note que, nessa crítica individualista ao capitalismo, não apelamos a uma crítica à economia de mercado em si mesmo ou ao conceito de livre mercado. É muito importante distinguir entre capitalismo e mercado (e o fenômeno monetário). O capitalismo predominante pressupõe mercados e dinheiro (o lucro é realizado monetariamente em mercados), mas mercados e dinheiro preexistem ao capitalismo e aparecem ou podem aparecer em outros modos de produção, inclusive um no qual os trabalhadores detenham os meios de produção, como no modelo mutualista ou “socialista de mercado”, que entendo ser o melhor complemento socioeconômico ao individualismo. Há toda uma corrente mutualista e individualista que liga o capitalismo a certos monopólios apoiados pela força governamental, que ganhou sua expressão mais acabada no modelo de 4 monopólios propostos por Benjamin Tucker: da terra, do crédito, das patentes/propriedade intelectual e das tarifas. (Em detalhes pode ser encontrado no artigo “Anarquismo e Socialismo de Estado: até onde concordam e em que diferem”, de 1886, original em inglês, mas deixarei abaixo um resumo feito por Mark Sullivan, que procurou rediscutir as propostas de Tucker na 2ª metade do século XX em sua revista Storm!)
“Nas democracias capitalistas, o valor monetário do trabalho excedente é tributado para construir e proteger o agora multinacional aparato militar-industrial. Esse aparato nada mais é do que monopólios criados pelo governo, de propriedade privada ou “pública”, dos recursos essenciais à produção de valores econômicos: recursos naturais, financeiros e técnicos que são retidos dos trabalhadores até que estes concordem em entregar seus excedentes futuros aos monopolistas, aos capitalistas, na forma de aluguel da terra, juros sobre crédito e salários abaixo do valor de troca de seus serviços e produtos (porque não têm condições de obter terras ou crédito e passar bem sem os capitalistas). Nas democracias capitalistas, a guerra de grupos de pressão coloca as pessoas umas contra as outras numa disputa para obter, ou recuperar, o dinheiro arrecadado por meio da tributação direta dos produtores/trabalhadores e dos apropriadores[reducers]/capitalistas, que invariavelmente são os vencedores da influência política (ou seja, o dinheiro investido em políticos é o que, em última análise, decide o conflito). […]
Se nossa democracia capitalista fosse verdadeiramente baseada no livre consentimento de indivíduos soberanos (e não em espíritos intimidados), seríamos livres para não pagar impostos sobre nosso trabalho; para não travar conflitos contra aqueles com quem não temos queixas; para não patrocinar/aderir a escolas e serviços sociais governamentais; para não pagar com o dinheiro suado pelo “privilégio” de ter um espaço para morar e trabalhar (aluguel); para não pagar pela capacidade inata de monetizar nossa força de trabalho (juros) e para não trabalhar sob os termos e condições de quem quer que seja (salário), quando poderíamos livremente nos estabelecer em terras desocupadas, obter crédito, comprar ferramentas não monopolizadas por patentes governamentais e vender em um mercado onde a impossibilidade de monopolizar manteria os preços determinados pelos baixos custos de produção e não pela manipulação de necessidades e escassez.” (Mark Sullivan, “Anarchism as Politico-Economic Criticism”, 1976)
A questão da terra em particular é interessante porque a distribuição da propriedade privada das terras realmente existente claramente não surgiu por meios voluntários (e diria mais, nem poderia ter surgido assim, sob algumas premissas razoáveis). O latifúndio brasileiro, por exemplo, é pura e simplesmente um fruto do controle político-colonialista dessas terras, sem contar a expropriação dos povos indígenas. Além disso, sob a visão mutualista, a propriedade ou possessão da terra devia ser baseada no uso e posse. A terra apropriada para além disso na verdade é expropriada do “fundo comum” que de outra forma estaria disponível a outras pessoas. Ou seja, se a pessoa tem interesse em “regressar à terra” (uma das opções de estratégias presentes para realizar a individualidade favorecidas pelo anarquismo individualista, também defendida por outros anarquistas), não posso fazê-lo em terras supostamente já de alguém mas sem base em ocupação e uso legítimos. É nessa expropriação da terra mascarada de “propriedade privada” a razão para movimentos de ocupação rural ou urbana de propriedades sem uso serem tão criminalizados, enquanto o latifúndio e a especulação imobiliária com unidades desocupadas serem legalizados. Sob a visão que preconizamos aqui, historicamente a terra deveria ter sido reconhecida como dos camponeses, dos escravizados, dos servos que realmente a cultivavam e nela trabalharam, mas sob a égide das reformas e revoluções burguesas foi ao aristocrata e/ou senhor de escravos que se reconheceu o direito da propriedade privada da terra com prioridade.
Antes de passar ao consumismo e ao status social, uma objeção interessante que pode ser feita aqui é que o trabalho assalariado e a hierarquia envolvida justificam-se por diferentes perfis de assunção de risco e de preferência intertemporal (algo que remonta no mínimo à crítica de Bohm-Bahwerk contra Marx e amplamente discutido na economia pós-revolução marginalista; mas manterei esta discussão aqui o mais simples possível, pois elaborá-la mais precisamente seria uma digressão demasiada ao objetivo do presente texto, então apenas no futuro trarei a discussão que se segue melhor desenvolvida em texto próprio). O lucro remunera a disposição do capitalista em pôr em risco o capital previamente acumulado e/ou financiado por meio de empréstimos, sendo que os juros do capital propriamente se ligam a uma disposição de postergar o consumo presente em prol do ganho futuro. Um exemplo para entender isso é que, se uma empresa constrói um prédio, um capital é mobilizado para levantar o prédio que pode demorar anos para ser concluído e suas unidade habitacionais ou comerciais vendidas (portanto, a remuneração do investimento é postergada para um futuro incerto, arcando com todos os gastos antecipadamente, inclusive o dos salários dos trabalhadores) e ainda há uma decisão estratégica de investimento que pode ou não ser bem-sucedido (portanto, há um risco de que não haja vendas e mesmo que se termine falido). Isso justificaria que o salário dos trabalhadores seja bem menor que o lucro e/ou juro apropriado pelos donos do capital e que os trabalhadores tenham de obedecer às diretivas destes, uma vez que os trabalhadores não correm o risco de falência e endividamento ligado ao empreendimento (ou seja, são os financistas e/ou donos do capital que “põem o seu na reta”). Os trabalhadores, portanto, aceitam menos autonomia no trabalho em troca de não precisar compartilhar dos riscos do empreendimento. Não seria isso uma expressão de individualidade também? (Um ponto análogo poderia ser feito em relação ao empresário capitalista)
Não penso que a objeção seja completamente sem mérito, ela deve ser levada muito a sério, na medida em que existem diferentes perfis de risco e de preferência intertemporal, com barganhas disso decorrentes (no que se segue, me concentrarei na questão do risco). No modelo mutualista, de cooperativas de trabalhadores e empreendedores-trabalhadores individuais, uma questão-chave para o funcionamento das cooperativas diz respeito justamente ao perfil de risco das empresas gerenciadas pelo trabalho, uma discussão feita por Gregory K. Dow usando a moderna análise econômica (a economia matemática mainstream), em diversos trabalhos como “*The Labor-Managed Firm: Theoretical Foundations” (2019), “[The Theory of the Labor-Managed Firm: Past, Present and Future](https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/apce.12194)” (2018) e “[Governing the Firm Workers’ Control in Theory and Practice](https://bdagostino.com/resources/Dow%20Chapter%2012.pdf)*” (2003). A empresa gerenciada pelo capital corre mais riscos do que a empresa gerenciada pelo trabalho e isso de fato explica como o lucro se desenvolve diferentemente nela em relação aos salários. Além disso, o modelo cooperativista demanda federações com cooperativas de 2º nível, como as bancárias/financeiras (algo que se vê muito bem no documentário “A Experiência Mondragón”, de 1980, sobre um dos exemplos mais bem-sucedidos de cooperativas de produção, nos países bascos), o que novamente afeta essa questão. Sob o modelo cooperativista e mutualista, considerações do tipo certamente influiriam na opção individual por empreender-trabalhar sozinho ou em empresas autogeridas, entre outras opções não-mutualistas mas legítimas sob bases associativas voluntárias, como o comunismo libertário e as terras coletivas dos povos originários/indígenas/quilombolas (e como opção residual no modelo mutualista, mesmo a do assalariamento, que neste caso, com amplas opções de cooperativas e de empreendimento-trabalho para si sozinho, provavelmente refletiria mesmo a disposição em evitar ou não se comprometer ainda com os riscos de falência).
Contudo, a objeção falha na medida em que, no geral, as pessoas são levadas a ocuparem essas posições de trabalhador ou capitalista no modelo vigente com base em muitas outras considerações que não o perfil de risco. Então, podemos dizer que o perfil de risco da “posição social” (aqui simplificadamente um binário capitalista/trabalhador; uma análise mais completa obviamente seria mais complexa) se ajusta ao que a objeção insiste, e isso afeta escolhas a respeito de ocupar ou não tal “posição social” quando há realmente uma escolha substantiva a ser feita aqui (exemplo, alguém que se depara com a escolha de assumir os negócios da família ou ter uma carreira profissional independente trabalhando em outra empresa) ou no caso de alguém muito disposto a ascender combinando o próprio esforço nessa direção com uma boa dose de sorte e circunstâncias (o famoso “self-made man”). Contudo, para muitos casos, estar numa destas posições sociais não necessariamente reflete o perfil de risco da pessoa individual, o que ela escolheria estivessem as configurações posicionais e as oportunidades de mudar de uma para outra distribuídas diferentemente. Isso sem contar que o perfil de risco da pessoa individual pode ser já moldado pelo perfil de risco dessas posições sociais existentes sob o modelo capitalista dominante, não refletindo o desenvolvimento de sua individualidade como tal, mas a pressão a se conformar dentro dos moldes existentes (para puxar um exemplo de cima, alguém que, tendo nascido numa família de negócios, se veja pressionado a assumir os negócios da família, afinal, não seria ilógico perder tal chance de ter uma vida abastada?). Portanto, penso que a objeção é inconclusiva no mínimo, e no pior dos casos acaba sendo circular (o perfil de risco que a pessoa teria é tal e tal em razão de seu ocupar certa posição social ou ter mudado para outra, ao mesmo tempo que esse perfil de risco é o que explica seu ocupar tal posição ou ter mudado para outra), embora esteja correta ao apontar para questões como risco do empreendedorismo e preferência intertemporal, que devem ser levadas em conta em qualquer modelo econômico.
Avançando na análise aqui proposta, temos então a questão do status social e do consumismo, que podemos examinar de forma associada. O status social (aqui assumindo o modelo capitalista) premia certas ocupações e profissões em detrimento de outras, direcionando as pessoas a optarem por tais ocupações e profissões para obterem um status maior perante os outros. Contudo, nisso resta uma armadilha: o quanto temos de abrir mão de nós mesmos no meio do caminho?
Um exemplo interessante de ficção que aborda isso é o filme “Diabo Veste Prada” (do livro homônimo, embora eu conheça apenas o filme). Vemos ali como a protagonista passa por todo um processo de pressão no trabalho para se ajustar a uma certa forma de ser e de se portar que lhe permitiu auferir um maior status social, mas em troca de abdicar da própria personalidade. Foi por isso que fiz questão de colocar anteriormente no texto relatos sobre minhas experiências com a questão da popularidade mirim no contexto escolar: ali há um microcosmo do que acontece em muitas relações sociais que observamos em nossa sociedade.
Atualmente é comum que essa preocupação do status social seja mediada pelo consumismo (não são conceitos idênticos, mas relacionados no contexto atual em que vivemos): a obtenção de bens de consumo para refletir um certo status ou padrão de vida. Inclusive um status que agora pode ser ostentado seja da maneira clássica seja no formato “instagramável”, que, talvez não por coincidência, em muitos casos reflete mais a “aparência da riqueza” do que a “riqueza real”. Em nossa sociedade de consumo, é comum confundir isso, ao pensar que a riqueza individual está relacionado ao que consumimos (um passivo), quando na verdade riqueza é um ativo. Para uma boa análise a respeito disso, veja o livro “O Milionário Mora ao Lado” (original em inglês de 1996), por Thomas Stanley e William Danko, que mostra os problemas de se concentrar na alta renda (fluxo) e no alto consumo, quando a riqueza, sendo relacionada aos ativos possuídos como patrimônio acumulado (estoque, não fluxo), é muito mais relacionada a evitar as armadilhas do consumo e, portanto, assumida certa faixa de renda (para que a comparação faça sentido), tende a ser mais rico quem menos ostenta. O que os autores não analisam (não sendo o seu objetivo fazê-lo) é como as pressões sociais para o consumo conspícuo são muito fortes como modos de distinção de classe (algo analisado em livros como “História Natural dos Ricos”, original em inglês de 2002, de Richard Coniff, e “Coisa de Rico: a vida dos endinheirados brasileiros”, 2025, de Michel Alcoforado) e, por isso, a prática do “milionário que mora ao lado”, posses acumuladas discretamente/silenciosamente (redundando em menor status social frente aos outros, mas maior riqueza em suas mãos sem conhecimento alheio disso), é muito mais compatível ao impulso individualista de resistir às pressões sociais relativas à classe e à distinção.
Desse modo, percebemos como esses fatores operam como armadilhas contra a individualidade. A busca por maior status social (ou para manter um status social já elevado) é uma espécie de altar no qual a individualidade é sacrificada em favor de certas benesses perante um grupo a que se deseja pertencer ou manter a pertença. (No caso brasileiro, recomendo novamente a análise antropológica feita por Alcoforado com muitos exemplos interessantes para pensar isso)
Além disso, as distinções de status social também operam contra a individualidade por outra via: o incentivo que fornecem para adular, bajular e admirar os ricos, famosos e poderosos, essa “estranha fonte de corrupção dos nossos sentimentos morais” como diria Adam Smith (em seu livro “Teoria dos Sentimentos Morais”, original em inglês, de 1759). Isto é, admirar alguém simplesmente por essa pessoa ser rica ou famosa, por ganhar bem ou por ocupar posições de poder (seja na máquina governamental ou na pirâmide corporativa), ao invés de por qualidades pessoais, cujo estofo podemos avaliar melhor quando realmente convivemos com alguém e essa pessoa tem importância real para nós. O jogo do status diz que deveríamos dar valor a alguém simplesmente por ser rico ou ganhar bem (ou ocupar posições de poder e autoridade), mas um individualista perante isso não pode senão dizer: “me recuso”. Me recuso a me curvar perante alguém (literal ou metaforicamente) apenas por essa pessoa ter mais status social.
Numa nota proximamente relacionada, Albert Jay Nock, em razão de seu individualismo, criticava o “economicismo”, que ele considerava a ideologia predominante nos Estados Unidos de seu tempo e que estava a contaminar todo o Ocidente. Para Nock, o economicismo seria uma noção cultural, consciente ou inconscientemente mantida, de que o que há de mais importante na vida é a produção, aquisição e distribuição da riqueza e dinheiro, e que tudo deveria girar em torno disso (válido comparar à crítica de Max Weber aos “especialistas sem espírito e hedonistas sem coração” no último capítulo de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, original em alemão, 1904). Portanto, para o economicismo, as maiores figuras em nossa sociedade para admirar e emular seriam os grandes empresários, aqueles que mais gastaram sua vida em prol de conseguir muito dinheiro. E apenas um ignóbil poderia desperdiçar a chance de obter o mais dinheiro e status quando lhe for possível. Mas, novamente, por que um individualista se sentiria obrigado a qualquer disso?
“Certa vez ouvi uma história sobre [Henry David] Thoreau que, por evidências internas, certamente deveria ser autêntica, embora eu não saiba ao certo se é. Quando ele assumiu o ofício de seu pai, o de fabricante de lápis, trabalhou diligentemente até criar o lápis definitivo, o lápis que, em todos os aspectos, estava além de sua capacidade de aprimoramento. Então, ele fechou a oficina e não fabricou mais lápis. Ele era um homem supérfluo no ramo de fabricação de lápis. Ele havia demonstrado que a coisa podia ser feita, demonstrado como podia ser feita, havia exposto sua conquista à vista de qualquer um que quisesse vê-la, e pronto. Um lápis foi suficiente para provar seu ponto, então por que fazer mais?
Há um mês, eu jantava com um dos grandes industriais do país quando algo que foi dito me levou a essa história de Thoreau, e eu a contei. O industrial prontamente disse que achava Thoreau um tolo. Ali estava eu, diante do produto de duas filosofias mutuamente exclusivas. O economicismo insistiria que, tendo criado o lápis perfeito, Thoreau deveria fabricar mais lápis e vendê-los para ganhar dinheiro e comprar mais matéria-prima para fabricar ainda mais lápis, para vender novamente e assim por diante, pois a fabricação e a venda de lápis constituem todo o sentido da vida. Thoreau não acreditava que isso seja todo o conteúdo da vida. Ficou claro que a filosofia do economicismo era a única que meu companheiro era capaz de aceitar. Separe-o de sua prática específica e especializada, e a existência não teria mais sentido para ele; e nisso ele era representativo da grande maioria da sociedade na atualidade.
(Albert Jay Nock, “Memoirs of a Superfluous Man”, 1943, p. 173–174, com uma interessante anedota sobre outro individualista marcante, Henry David Thoreau, muito conhecido por “A Desobediência Civil”, 1849, por “Walden”, 1854, e por “Andar a Pé”, 1862, originais em inglês)
Além de que outro ritmo de vida poderia ser bem mais adequado do que o preconizado pelo economicismo, como Nock comenta de resistências a isso, como encontrado na sua visita à França que, “[m]esmo depois de 1870, mesmo depois de o Segundo Império ter feito todo o possível para promover a causa do economicismo, […] obstinadamente permaneceu um país de agricultura, artesanato, oficinas e comércios, manufaturas em casa. A própria Paris permaneceu uma cidade de pequenas lojas que fechavam por algumas horas ao meio-dia e por cerca de um mês durante o verão.” (Nock, “Memoirs of a Superfluous Man”, 1943, p. 159). Um padrão mais humilde e menos disruptivo do que o preconizado pelo economicismo, mas não por isso menos válido.
Outra forma de analisar o problema do status é a seguinte: uma profissão como a advocacia (se aplica a outras, mas é um caso que conheço melhor) costuma demandar indiretamente que o profissional tenha certas posses (desde o tipo de terno até os carros que o advogado dirija) como uma sinalização de seu sucesso. Os clientes vão respeitar e contratar mais um advogado que gaste uma boa quantidade de dinheiro com carros caros e ternos caros, e assim esse advogado terá mais dinheiro. Supondo que realmente isso ofereça vantagens financeiras no final das contas, do ponto de vista da individualidade é ficar refém do que os outros pensam a respeito do seu status social real ou aparente.
O consumismo opera contra a individualidade na medida em que se trata de bens escolhidos a dedo por marcas selecionadas que determinam o que você deve vestir e gostar. Induz padrões de beleza irreais que afastam a satisfação consigo mesmo. Induz o endividamento, e, portanto, a ficar refém das dívidas (exemplo: não posso mudar de emprego ou ser despedido sem acabar negativado pelo endividamento, não posso me aposentar porque ainda tenho muito o que pagar, etc.). Mesmo sem o endividamento, reduz a riqueza real que a pessoa poderia ter e que a manteria muito mais segura financeiramente, muito mais tranquila perante as circunstâncias nunca inteiramente controláveis da própria vida. Além disso, como argumentado pelo psicólogo evolucionista Geoffrey Miller em “Spent: sex, evolution and consumer behavior” (2009; traduzido para o Brasil como “Darwin vai às compras”), as pesquisas empíricas mostram que pouca felicidade obtemos a mais com um aumento no padrão de consumo, sendo nossa felicidade muito mais derivada de relacionamentos humanos significativos (e o consumismo e o marketing parasitam isso, ao colocar o consumo e o status social como intermediários dos relacionamentos, tornando-os mais superficiais do que seriam). No mínimo, um individualismo inteligente pouco terá a se beneficiar do consumismo como modo de vida.
Agora, não quero dizer que a postura individualista nos exime de ser influenciados por tais fatores relativos ao status social e ao consumismo. Isso depende da estratégia que se queira tomar no presente na vida pessoal de cada qual.
Para aqueles dispostos a alterar o contexto social de sua vida, é possível escapar por meio do isolamento/vida solitária, do movimento de “regresso à terra” [em direção à zona rural] para se tornar o quanto autossuficiente possível (assim saindo da corrida tecnológica disruptiva), ou da vida comunitária em comunidades alternativas “oásis num deserto de homens”***. Para aqueles que não estejam dispostos a isso, não é possível escapar por completo das influências, mas ao menos pode-se (por meio de práticas que dependem de cada um conforme suas próprias circunstâncias) impor-lhes certa fricção, participar desse mundo social mas sem ser inteiramente dele, isto é, um exílio interno ou exílio interior em que vivemos em sociedade, mas sem sermos dela (Sidney Parker, em resenha do livro “Go Ahead and Live!”, [edição 8 da Revista Minus One: an Individualist Anarchist Review](https://www.unionofegoists.com/wp-content/uploads/2016/07/PP1420-MinusOne-No09.pdf), 1965). O que pode ser fortalecido se houver a chance para empreendimentos em autogestão, cooperativas, viver do artesanato, hortas urbanas e comunitárias, manufaturas open-source, crédito mútuo, moeda social, shadow libraries etc. construindo fragmentos de uma experiência social alternativa e paralela nas fendas da sociedade que existe. (Veja também “Anarquismo e Vida Cotidiana”, 2017, pelo anarquista ‘sem adjetivos’ português Mário Rui Pinto e “[Libertarian Municipalism: Networked Cities as Resilient Platforms for Post-Capitalist Transition](https://c4ss.org/content/50407)*”, 2018, pelo anarquista mutualista Kevin Carson)
A defesa da própria individualidade contra os fatores negativos ligados ao status social, em particular, pode importar em abdicar de certas vantagens materiais. Foi o que aconteceu com este que vos escreve. Formado em Direito, abdiquei de uma carreira na advocacia***** e da possibilidade de passar em concursos públicos de nível superior muito bem pagos, um cenário contrafactual no qual eu teria muito mais dinheiro, estabilidade e contato com pessoas poderosas, em prol de seguir uma carreira acadêmica em Filosofia. No outro cenário, do ponto de vista social convencional, eu teria “tudo”, “tudo!”, menos o que eu realmente gostaria, de dedicar minha vida ao conhecimento, fazendo jus ao meu intenso amor pela leitura desde os 4 anos de idade (o meu “hedonismo” mais precioso e longevo). Mas isso foi a minha vida, e portanto não julgo quem fez diferente de mim, mas as consequências sempre estarão aí e espero que tenha ficado compreensível como examiná-las à luz do favorecimento ou não da individualidade.
Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem, eu sei que você pode mais
(Raul Seixas, “Por Quem os Sinos Dobram”)
Notas:
Estou evitando propositalmente dizer qual a relação entre as seguintes palavras: “individualismo” e “egoísmo”. A razão é que o “egoísmo filosófico” ou “egoísmo dialético” é uma das bases dos anarquistas individualistas, enquanto não a única e não sem controvérsias. Então, pode levar o leitor a uma confusão se eu disser que individualismo nada tem a ver com egoísmo, na medida em que existe essa abordagem filosófica (que precisaria ser cuidadosamente distinguida da acepção comum da palavra ‘egoísmo’, o que complicaria muito mais a presente discussão; então deixaremos isso para textos posteriores). A minha posição pessoal é que o “egoísmo dialético-filosófico”, independente se correto ou não (mas com certeza uma abordagem com contribuições importantes), não é necessariamente estável dentro do anarquismo. Isso porque o egoísmo dialético, que remonta a Max Stirner, apesar de originalmente anarquista e fortemente tender a isso, acaba sendo ambíguo em relação a seja o anarquismo ou o arquismo (o que levou o próprio Sidney Parker no fim da vida a se declarar apenas egoísta filosófico, deixando de se autodesignar como anarquista, após décadas de contribuição ao anarquismo individualista). Recomendo a discussão feita no livro “[Max Stirner’s Dialectical Egoism: A New Interpretation](https://archive.org/details/JohnF.WelshMaxStirnersDialecticalEgoismANewInterpretation)*”, 2010, por John F. Welsh. Portanto, penso que uma síntese do egoísmo filosófico com o pensamento mutualista torna-o mais estável como posição especificamente anarquista (embora reconheça que existam anarquistas egoístas-filosóficos que recusam esta aproximação e recorrem a outras premissas). E no geral, entendo que a melhor posição seja um anarquismo individualista e mutualista, mas aliado a um anarquismo sem adjetivos dado que outras formas de experiência anarquista são aceitáveis também sob bases associativas.
**O exemplo mirim de crianças brincando e se divertindo juntas foi usado por Max Stirner como um exemplo do que ele propunha como “União dos Egoístas”.
***Hoje penso que especificamente não deveria ter resistido tanto tempo à ideia de começar um cursinho de inglês, por não querer abdicar desse tempo livre, o que acabou ocorrendo só no 1º e 2º ano do ensino médio, e apenas retomado em outros momentos anos mais tarde. Por conta disso, meu aprendizado do inglês acabou sendo tardio, bem mais travado. A postura individualista não quer dizer que tudo irá bem para a pessoa, ou que erros não serão cometidos.
****Ou mesmo, para fins de completude, a opção do “ilegalismo [anti-]heroico”, mas não a recomendo!
*****Acabei optando por uma formação em Direito no ensino médio em razão de me considerar muito tímido, então não achava que poderia seguir uma carreira acadêmica numa área de pesquisa mais “pura”, uma vez que isso é associado a ser professor e, portanto, ter de falar com muitas pessoas desconhecidas. Felizmente, depois consegui mudar isso. Mas uma curiosidade interessante aqui é que nunca pensei em ser juiz e o principal motivo é o peso de julgar e decidir algo de impacto alto sobre a vida dos outros.
메타데이터
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