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Reaberta ponte em Gênova quase dois anos após desabamento

Construída em 15 meses de trabalho sem parar, obra custou 202 milhões de euros; 43 pessoas morreram na tragédia

Lobato Felizola · 2020-09-08 11:13 · 0 claps · 5.3 min read
#genova #morandi #italia #autostrade
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Reaberta ponte em Gênova quase dois anos após desabamento

Construída em 15 meses de trabalho sem parar, obra custou 202 milhões de euros; 43 pessoas morreram na tragédia

MILÃO — Após quase dois anos do desabamento, o trânsito da ponte em Gênova, na costa norte da Itália, foi reaberto na terça-feira (4/8). O percurso de pouco mais de mil metros estava interrompido desde 14 de agosto de 2018, quando a Ponte Morandi entrou em colapso. As imagens impressionantes da queda do viaduto suspenso a 45 metros de altura correram o mundo. Rebatizada, a recém-inaugurada Ponte Gênova-San Giorgio nasceu dos escombros da tragédia que deixou 43 vítimas e 600 pessoas deslocadas.

Reconstruída em 15 meses de trabalho, a nova ponte é uma cicatriz que nenhuma empresa de engenharia pode curar. Mas se a memória for mantida viva, o viaduto será muito mais do que as novas 17 mil toneladas de aço e concreto suspensas na sexta maior cidade italiana, com 580 mil habitantes. A construção da ponte foi a única notícia que se alternou com os números da pandemia nos dias mais sombrios da emergência sanitária. A obra finalizada mostra como é possível fazer o país se recuperar rapidamente, a começar pelas infraestruturas.

A cerimônia de inauguração reuniu autoridades de Estado e locais. Os familiares que perderam seus entes queridos na tragédia recusaram o convite porque acreditavam que o evento estava sendo muito festivo. Na solenidade, após o hino italiano foram lidos os nomes daqueles engolidos por Morandi seguidos de uma pausa de três minutos de silêncio. Mais cedo, assim que chegou a Gênova, o presidente italiano Sergio Mattarella teve uma reunião privada com os parentes das vítimas e, entre palavras de consolo, disse que “é importante que exista uma ação rigorosa para apurar as responsabilidades”.

Até agora, ninguém foi punido pelo desabamento, mas a administradora do trecho de rodovia que incluía a ponte tem enfrentado sessões na justiça. Desde o colapso, o governo italiano propôs a retirada da concessão à empresa Autostrade, que pertence a família Benetton, famosa por suas malhas de lã e seu império no mundo do vestuário. A concessionária controla mais da metade dos cerca de 6.900 km de estradas com portagens.

Paralelamente, ações judiciais deram início a uma série de inquéritos com o objetivo de verificar as responsabilidades, mesmo que parciais, dos envolvidos nas várias funções, da administração à manutenção da estrutura. Entretanto, nenhum membro da família Benetton está na mira da justiça. Entre as possíveis causas da queda, estavam a corrosão de elementos estruturais da ponte.

As autoridades têm examinado anos de trocas de mensagens de e-mail e documentos, bem como o conteúdo de algumas dezenas de telefones celulares para identificar os responsáveis ​​pelo que aconteceu. Pelo menos 21 pessoas estão sob investigação incluindo nove funcionários da Autostrade e três funcionários do Ministério de Infraestrutura e Transporte. Além da negligência potencial, o caso revelou o que os críticos dizem serem profundas deficiências sistêmicas relacionadas às maneiras pelas quais a Itália privatizou a rede rodoviária.

Durante a inauguração, o primeiro-ministro Giuseppe Conte cortou a faixa tricolor italiana para que a cidade possa encontrar orgulho e redenção depois do desastre. “A dor da tragédia ainda é muito aguda. Essa ponte nos dá uma imagem de força e também de leveza”, afirmou. E elogiou o trabalho do responsável pelo novo projeto, o arquiteto genovês Renzo Piano. O viaduto “é um trabalho admirável, resultado do gênio italiano, de uma colaboração virtuosa entre política, administração local, negócios e trabalho”, disse Conte.

A nova ponte sobre o córrego Polcevera, entre os distritos de Sampierdarena e Cornigliano, foi um presente de Piano, aos 82 anos, que não cobrou pelo trabalho. Uma ponte simples e econômica, de acordo com o caráter dos genoveses. Em dezembro de 2018, duas empresas receberam o contrato para a construção da nova ponte ao custo de 202 milhões de euros — equivalente a 1,2 bilhão de reais.

Minutos após a cerimônia oficial, um arco-íris abraçou a ponte dando fim àquela tarde chuvosa escolhida para inaugurar a ponte e esperança aos genoveses. Também choveu naquele terrível 14 de agosto de 2018. Mesmo inaugurada há pouco dias, os carros mal conseguem atingir a velocidade máxima da rodovia, de 70 quilômetros por hora, mas não é só por causa do fluxo intenso. O trânsito não anda porque virou o novo ponto turístico da cidade e quem trafega por lá reduz a aceleração para fotografar e filmar o monumento.

Ponte Morandi

Com a proposta de soluções técnicas inovadoras, a ponte estaiada que caiu, assinada pelo famoso engenheiro romano Riccardo Morandi, foi chamada de “um trabalho ousado e imenso”, nas palavras do presidente da época, Giuseppe Saragat. O viaduto tinha 1.182 metros de comprimento e 45 metros de altura (no nível da rua), com postes de concreto armado que atingia até 90 metros acima do solo. Para a construção, realizada entre 1963 e 1967, foram utilizados 50 mil metros cúbicos de concreto e cinco mil toneladas de aço.

Na manhã de 14 de agosto de 2018, véspera do principal feriado do verão, quando milhões de italianos enfrentam as estradas a caminho das praias, a parte da ponte Morandi sobre a zona fluvial e industrial Sampierdarena desabou: toneladas de concreto despencaram, dezenas de carros e caminhões foram arrastados, provocando 43 mortes. O viaduto no qual passavam 66 mil veículos por dia, importante para a viabilidade de Gênova, foi ao chão em segundos.

Em fevereiro de 2019, o que restou da ponte começou a ser demolido e foi decidido que uma nova estrutura seria construída. A demolição foi finalizada em junho do mesmo ano.

Ponte Gênova-San Giorgio

O canteiro de obras foi inaugurado no começo do ano passado e nunca parou até a construção ser concluída. Do primeiro ao último dia, cerca de 1.200 pessoas trabalharam por 24 horas para construir a ponte de 1.067 metros de comprimento. O trecho da rodovia está suspenso por 18 pilhas de concreto que ligam os 19 vãos de concreto, aço e asfalto.

“Quando você chega à altitude e volta a olhar a cidade de cima, oeste e leste finalmente unidos em um único horizonte, fica ainda mais evidente que apenas isso importa”, disse o arquiteto Renzo Piano durante a inauguração da estrutura, que custou 202 milhões de euros.

A Gênova-San Giorgio não vai ficar sozinha sobre o córrego Polcevera. Outra empresa italiana apresentou o projeto para construir um caminho pedonal que andará à volta da nova ponte de Piano. Ainda não há previsão para o início dessas obras.

De blusas a estradas com pedágio

Na Itália, Autostrade é também sinônimo dos Benettons — os irmãos Carlo, Luciano e Gilberto e Giuliana — que, quando a ponte desabou, os italianos aguardavam sua reação à tragédia. Dois dias se passaram em silêncio antes da divulgação de uma declaração expressando “profunda tristeza” pelas vítimas. Na última entrevista divulgada antes de sua morte, no final de outubro de 2018, Gilberto Benetton, de 77 anos, explicou que aquele silêncio deve ser compreendido como um sinal de respeito.

Mas a resposta fraca e atrasada provocou indignação, um momento de clara ruptura com a reputação dos Benettons desde que a Itália decidiu privatizar a empresa Autostrade no final dos anos 90. A família foi então considerada a nova face da energia empreendedora do país.

Ao contrário da maioria da rede de insiders e capitalistas italianos, nenhum dos irmãos Benetton frequentou a universidade. Eles começaram com um único suéter amarelo, feito por Giuliana quando trabalhava em uma loja de tecidos. Carlo Benetton faleceu em julho 2018, aos 74 anos. Hoje, existem cerca de cinco mil lojas Benetton em todo o mundo, com cerca de oito mil funcionários e um faturamento anual de mais de 1,4 bilhão de euros (8,8 bilhões de reais). O nome se tornou uma marca internacional, embora com alguns contratempos ao longo do caminho.

No final da década de 1990, a marca Benetton passou a competir com varejistas de baixo custo como a gigante têxtil Zara e teve que tentar diversificar os negócios com fluxos de receita mais estáveis. Um monopólio natural, como estradas com pedágio, parecia ideal. Foi o início de um empreendimento extremamente lucrativo.

Embora o imaginário coletivo associe a marca ao suéter de decote redondo e às calças de veludo, atualmente apenas 5% do portfólio da Benetton, avaliado em cerca de 11 bilhões de euros (75 bilhões de reais), vem do setor têxtil. Metade é devido à infraestrutura, como a Autostrade.


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