← Back to list

Microensaios — A contingência no jazz

No livro A Náusea, de Jean-Paul Sartre, há uma cena em que Antoine Roquentin está em um bar e ouve uma gravação de jazz. É um dos momentos…

Bruno Polidoro · 2025-07-29 15:16 · 0 claps · 1.4 min read
#satre #existencialismo #jazz #filosofia-da-arte #estética
Open on Medium ↗
Wiki topics: 🎮 · Gaming 🎵 · Music & Audio

Microensaios — A contingência no jazz

No livro A Náusea, de Jean-Paul Sartre, há uma cena em que Antoine Roquentin está em um café e ouve uma gravação de jazz. É um dos momentos mais marcantes do romance, justamente por contrastar com o sentimento constante de absurdo e náusea que o persegue.

Roquentin está em um café em Bouville quando começa a tocar “Some of These Days”, interpretada por uma cantora de jazz americana. É um raro instante em que ele se sente tocado por algo. A música causa uma suspensão momentânea do absurdo, uma pausa na experiência crua da contingência.

A contingência, para Sartre, é o fato de que nada na existência é necessário. Nada está prescrito. Nada acontece com finalidade. As coisas simplesmente acontecem, sem porquê, sem sentido intrínseco. E é isso que causa a náusea no protagonista.

A canção que Roquentin ouve é gravada, com forma, repetição, começo, meio e fim, e é justamente essa estrutura e previsibilidade que lhe traz conforto, em contraste com o caos da contingência.

“É linda, firme, segura. Cada vez que a escuto, ela se mantém intacta, se reconstrói. Essa voz é sólida como um pedaço de madeira. […] Ela está lá, no disco, imutável.”

Ironicamente, o jazz, gênero ao qual essa música pertence, viria a se firmar como sinônimo de improvisação — principalmente com a ascensão do bebop — tornando-se uma metáfora da contingência. A improvisação, característica fundamental do gênero, responde a essa lógica: o músico de jazz sobe ao palco sem repetir o que fez na noite anterior. Ele compõe em movimento, responde ao presente.

Mas paradoxalmente, essa liberdade também exige preparação: teoria, técnica, um vocabulário típico do gênero. São licks, arpejos, modos, um repertório que permite que o acaso se torne forma.

Esse é o paradoxo da improvisação: ser livre dentro de um limite. É no jazz, ícone da improvisação, que Roquentin encontra refúgio, desde que a liberdade esteja domesticada.

[embed]


메타데이터
post_id
4bd4e40f17ef
slug
microensaios-a-contingência-no-jazz-4bd4e40f17ef
url
https://medium.com/@brunopolidoro/microensaios-a-conting%C3%AAncia-no-jazz-4bd4e40f17ef
canonical_url
https://medium.com/@brunopolidoro/microensaios-a-conting%C3%AAncia-no-jazz-4bd4e40f17ef
author_url
https://medium.com/@brunopolidoro
status
ok
fetched_at
2026-07-18 16:14:08