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O Lugar do Erro

Foi numa tarde comum, dessas em que o sol atravessa as janelas com uma insistência serena, que me vi sentado diante de um grupo pequeno da…

Roberto Böck · 2025-05-16 14:25 · 0 claps · 2.3 min read
#aconselhamento #empatia #compreensão #tentativa-e-erro #acolhimento
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Imagem gerada no Gamma App.

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O Lugar do Erro

Foi numa tarde comum, dessas em que o sol atravessa as janelas com uma insistência serena, que me vi sentado diante de um grupo pequeno da igreja. O tema era discipulado. Esperavam de mim uma palavra clara, talvez certezas, mas tudo o que eu trazia eram perguntas — e uma memória.

Lembrei-me de quando, ainda jovem na fé, tentei pela primeira vez liderar um estudo bíblico. Foi um desastre. Falei demais, ouvi de menos, forcei respostas onde havia dúvidas. Quando terminou, fui para casa com o peso de quem fracassou diante de Deus. Mas, naquela noite, li de novo a história de Pedro. A negação, os olhos cruzando com os de Jesus, o choro amargo. E depois, na praia, o peixe assado na brasa, a pergunta repetida três vezes:

— Tu me amas?

Jesus não o excluiu. Jesus o restaurou. E aquilo ficou marcado em mim: o erro pode ser o início de um recomeço.

Ali, diante do grupo, eu contei essa história — a minha e a de Pedro. Os rostos foram se abrindo. Um deles compartilhou como perdeu a paciência com o filho no café da manhã. Outro confessou que andava se afastando da oração. A reunião virou confissão, não por peso, mas por liberdade.

Jesus, pensei, sempre nos ensinou assim. Nunca com manuais fechados, mas com histórias abertas. As parábolas eram desafios, não respostas prontas. O filho pródigo precisou ir ao fundo do poço para entender o amor do pai. E que pai! Que abraço! Não houve bronca, só festa. Um pai que corre ao encontro, mesmo quando o filho volta fedendo a porcos e derrota.

E Paulo… Ah, Paulo. Lembro da carta aos gálatas. Ele podia ser duro, sim, mas também sabia da brandura. Não corrigia por orgulho, mas por cuidado. Entendia que o crescimento é uma jornada. Quando disse que ainda alimentava os coríntios com “leite”, não era desdém, era compreensão. Cada um tem seu tempo. E errar faz parte.

Hoje, no meu ministério pastoral, levo isso comigo. Às vezes me perguntam o que fazer diante de um irmão que caiu, que se afastou, que cometeu um erro. Eu respondo com outra pergunta:

— Como Jesus o receberia?

Não há manual para a dor humana. O aconselhamento é mais escuta do que fala. É sentar ao lado, não ficar de pé. É permitir que o outro conte sua história, mesmo cheia de tropeços, e ajudá-lo a enxergar que, às vezes, é no tropeço que se abre o caminho para a luz.

O erro, compreendi, é um terreno sagrado. Nele, o orgulho se desfaz, o coração se expõe, e a graça pode enfim fazer morada. Não celebro o erro, mas o acolho como parte da estrada. E aprendi que, quando alguém erra e se levanta, carrega algo que não tinha antes: humildade. E, com ela, uma fé mais profunda.

Naquela tarde, ao encerrar a reunião, percebi que ninguém saiu com fórmulas. Mas todos saíram mais leves. E eu também. Porque entendi — mais uma vez — que a aprendizagem da alma não se dá apenas nos acertos, mas, sobretudo, nas quedas redimidas.

Afinal, se o próprio Deus se fez homem e caminhou entre erros alheios, oferecendo cura, perdão e recomeços… quem somos nós para esperar discípulos perfeitos? Aqui, no chão da vida, aprendemos.

E, pela graça, recomeçamos.


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