← Back to list

O Menino da Calça Rosa (2025), de Margherita Ferri

Bullying é assunto sério e quem melhor percebe isso é quem o vivenciou. Sofri bullying por muitos anos, praticamente minha adolescência…

Letícia Magalhães in Cine Suffragette · 2026-07-08 23:56 · 0 claps · 3.1 min read
#cinema #filmes #bullying #adolescencia #italia
Open on Medium ↗
Wiki topics: CUL · Culture & Media 🎬 · Film & Television

O Menino da Calça Rosa (2025), de Margherita Ferri

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Bullying é assunto sério e quem melhor percebe isso é quem o vivenciou. Sofri bullying por muitos anos, praticamente minha adolescência toda, e ele deixou cicatrizes. Sei que adolescentes — e cada vez mais, crianças — podem ser muito cruéis, e os são com quem é diferente e / ou com quem se destaca. Por isso essa crítica será num tom mais pessoal, de quem se vê retratada.

Andrea Spezzacatena (Samuele Carrino) vive com o irmão mais novo, Daniele (Pietro Serpi), e os pais, Teresa (Claudia Pandolfi) e Tommaso (Corrado Fortuna), que não param de brigar mas não pensam em divórcio. De cabelos pretos e óculos de aro redondo, ele é o melhor em tudo: o melhor pianista, o melhor cantor, o melhor aluno da escola — tanto que ganha uma bolsa de estudos e seus colegas riem dele porque o invejam. Foi o que aconteceu comigo.

Num ato de rebeldia, ele fala um palavrão para o professor que o estava elogiando. É uma escolha para parar os colegas, que estavam rindo DELE, e fazer com que eles rissem COM ele. Seguindo essa linha de raciocínio, já ouvi falar de muitos bons alunos que escolhem estudar menos e tirar notas mais baixas para se enturmarem. Isso nunca aconteceu comigo.

O que também nunca aconteceu comigo foi se encantar com um colega de classe. Mas acontece com Andrea e Christian Todi (Andrea Arru), o repetente bonitão. Sua aproximação com o menino faz Andrea deixar de lado uma amizade verdadeira — e cinéfila ainda por cima! -, a de Sara (Sara Ciocca). Christian se tornará um dos bullies de Andrea, aquele cuja risada de deboche mais machuca.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Já passamos da metade do filme quando Teresa presenteia o filho com uma calça vermelha, que depois de lavada se torna rosa. Ele adora o efeito e decide usá-la, orgulhoso, na escola no dia seguinte. E então Christian o zoa. Poderia zoar por qualquer outra coisa, porque quando não têm o que falar de nós começam a implicar com nossa aparência. Falo isso por experiência própria.

O que não fez parte da minha experiência, felizmente e agradeço sempre por isso, foi ser zoada nas redes sociais, pois elas eram escassas na minha adolescência. O bullying contra Andrea ultrapassa os limites entre real e virtual, e ele se pega lendo os comentários de uma página sobre “o menino da calça rosa”, incluindo comentários que dizem que ele deveria se matar.

Antes mesmo de assistir ao filme, havia ouvido falar dele num grupo de cinema no WhatsApp, como exemplo de “docudrama”, subgênero que na ocasião estava sendo zoado por sua cacofonia. Falando sério agora: docudrama é uma dramatização de eventos reais, dando alguma liberdade criativa sem contudo perder de vista os fatos. A história de Andrea se torna mais potente como docudrama do que seria com um lacrimoso documentário tradicional porque nos coloca no lugar daquele sensível menino da calça rosa.

Se eu não tivesse lido a sinopse do filme, o teria aproveitado muito mais. Sim, a narração em off de Andrea desde o começo dá pistas sobre seu destino, de modo que não há plot twist. Mas aqui falo de algo maior: mergulhar de cabeça num filme conhecendo dele nada mais que o título. É uma delícia, e talvez a melhor maneira de apreciar a Sétima Arte.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Num momento na fossa, Andrea diz que na adolescência nos convencemos de que somos ou vencedores ou perdedores, e que será assim para sempre. Mentira, diz ele. Mentira mesmo: sofri bullying, mas o venci — através do desenvolvimento de uma paixão desenfreada pelo cinema. Conto isso no meu livro “Menina Bonita com Mania de Fita”. Cada um tem uma maneira diferente de lidar com o bullying. Eu encontrei catarse na escrita. Não é por isso que agradeço que um dia tenha sofrido bullying — de maneira alguma, eu seria outra sem o bullying. Por isso ele precisa ser combatido: porque mata um pouquinho de nós a cada risada, a cada comentário maldoso, a cada julgamento. Bullying, em resumo, mata.


메타데이터
post_id
4cb269cb877f
slug
o-menino-da-calça-rosa-2025-de-margherita-ferri-4cb269cb877f
url
https://medium.com/cinesuffragette/o-menino-da-cal%C3%A7a-rosa-2025-de-margherita-ferri-4cb269cb877f
canonical_url
https://medium.com/cinesuffragette/o-menino-da-cal%C3%A7a-rosa-2025-de-margherita-ferri-4cb269cb877f
author_url
https://medium.com/@magalhaesle
status
ok
fetched_at
2026-07-09 13:13:48