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A liderança africana que executou mais de 6 MIL colonos franceses no Haiti

François Mackandal conseguiu montar um exército de 20 mil africanos e concluir a execução de mais de 6 mil europeus na ilha de…

Luiz Gustavo · 2024-04-02 17:29 · 0 claps · 5.0 min read
#racismo #história-preta #black-history #black-history-month #preto
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A liderança africana que executou mais de 6 MIL colonos franceses no Haiti

François Mackandal conseguiu montar um exército de 20 mil africanos e concluir a execução de mais de 6 mil europeus na ilha de Saint-Domingue, se tornando uma grande referência quando o assunto é propósito e organização.

Monumento Haitiano de François Mackandal

Monumento Haitiano de François Mackandal

A partir de 1517 quando a coroa espanhola decretou proibição de escravização dos nativos da ilha de Hispaniola, atual Haiti, o tráfico de escravizados africanos aumentou exponencialmente no desenrolo daqueles próximos séculos. Entretanto, a maior arma contra os próprios brancos foi trazer de África grandes guerreiros de Gana, Nigéria e do Congo, por exemplo. Inclusive, é desse último que especula-se a origem do grande líder a ser tratado aqui: François Mackandal.

François Mackandal tem seu origem especulada no antigo reino do Congo. Filho de um chefe tribal, foi capturado e levado ao Haiti no início do século XVIII com apenas 12 anos de idade, onde desempenhou atividades forçadas nas fazendas de plantação de cana-de-açúcar na parte espanhola da ilha (Hispaniola) que já era dividida com a França (Saint-Domingue). Alguns anos depois de sua chegada, conseguiu sua liberdade que muito é especulada entre perder um braço de maneira estratégica ou simplesmente alçar fuga nos vales e montanhas daquela ilha. O que se tem certeza, é do sucesso desse processo, onde o rapaz conseguiu unir-se às comunidades quilombolas que haviam espalhadas pelo território, chegando até a parte francesa.

François Mackandal

François Mackandal

Muito inteligente, Mackandal sabia falar francês e árabe além de saber ler e escrever. Como parte de sua herança familiar, tinha um profundo conhecimento a respeito das plantas e ervas medicinais e venenosas, tinha conhecimentos médicos e de cura e também era muito bem versado no sistema cultural e espiritual do Voodun. Como Hougan, ele tinha a liberdade de conduzir rituais, fazer iniciações e possuía a habilidade de previsão do futuro, sendo comumente conhecido por suas profecias. Ademais, foi ele o primeiro a profetizar a Independência do Haiti que aconteceria algumas décadas depois. Toda a sua influência somada com sua alta habilidade de comunicação o elegeu naturalmente a um grande líder que, inclusive, tinha a capacidade de unir até mesmo comunidades rivais em prol do objetivo de libertação da opressão francesa.

Ilustração simbólica dos rituais Voodun realizados por François Mackandal

Ilustração simbólica dos rituais Voodun realizados por François Mackandal

Por conta disso, no auge de seu triunfo, Mackandal tinha cerca de 20 mil africanos em seu exército que era treinado diariamente para combates físicos e também espirituais, com seus cargos e patentes bem definidos e organizados. Uma das formas que ele encontrou de angariar tantos africanos foi de usar uma brecha no sistema escravocrata da colônia francesa, através dos Pacotilleurs. Estes, por sua vez, eram africanos alforriados que tinham a permissão de percorrer a ilha de Saint-Domingue para negociar e barganhar com senhores de escravos, vendendo seus serviços e produtos. Nessas visitas, os Pacotilleurs levavam os ideias revolucionários até os escravizados, além de combinar os encontros e reuniões para traçar as estratégias de guerrilha contra os franceses. E foi nesses encontros que Mackandal desenhou, organizou e colocou seu plano em ação.

Ele ensinou às mulheres da cozinha tudo o que sabia a respeito das plantas e ervas venenosas para que elas tivessem a capacidade de envenenar os seus senhores e senhoras através da comida, dizimando famílias inteiras em poucas horas. Ao homens, ensinou sobre o envenenamento de bebidas para que pudessem atingir os senhores de escravos diretamente em momentos despretensiosos. Mas, antes mesmo de atacar os brancos, Mackandal com ajuda de seu exército fez questão de dizimar os pretos e mulatos da casa que seriam um perigo para a sua organização. Nem mesmo os membros de seu exército estavam imunes de pagar com a vida caso saíssem da linha e representassem perigo ao seu propósito revolucionário. Com isso, no início de 1758 a estimativa era de que sua liderança tinha dizimado mais de 6 mil colonos europeus pela ilha de Saint-Domingue. Não surpreendente, a França e toda a Europa ficaram de olho em Mackandal e nos seus seguidores. O medo de que eles pudessem matar todos os brancos da ilha era iminente e refletiu, inclusive, em leis inglesas que proibiam os pretos de ter conhecimento a respeito das plantas.

Imagem ilustrativa dos ensinamentos de Mackandal às mulheres africanas da ilha. Criada por IA.

Imagem ilustrativa dos ensinamentos de Mackandal às mulheres africanas da ilha. Criada por IA.

Mas, o grande triunfo desse líder ainda estava sendo desenhado. Ele mandou avisar por toda a ilha, a todos os membro de seu exército, que envenenaria os principais poços de água de La Cap, a capital portuária de Saint-Domingue. Pediu que no grande dia nenhum dos membros consumissem a água da capital e assim mataria a maior quantidade de brancos e seus pretos aliados de uma só vez, em um só dia. Assim que eles estivessem convulsionando, fracos e atordoados, seu exército entraria em ação e terminaria com a vida daqueles colonos. Entretanto, no dia 20 de janeiro de 1758 em uma de suas visitas de organização ele foi capturado pelos franceses, vítima de traição de um dos membros de sua própria comunidade. Foi então sentenciado à queima pública como exemplo de sua rebeldia.

Neste dia, os africanos presenciaram a passagem daquele grande homem, que até mesmo nesse momento não deixou de cumprir com a sua força revolucionária. Há relatos de que ele teria se soltado das amarras da estaca, mas capturado logo em seguida. Outros dizem que viram sua alma deixar o corpo antes mesmo que ele pudesse fazer a sua passagem. Mas, o que é de comum acordo na história, é sua última profecia antes de partir. Mackandal disse ao seu povo que voltaria como um mosquito para terminar o que ele havia começado. Sem entender nada, os africanos presentes lamentavam a sua partida, mas não deixariam que seu legado e seus feitos fossem levados junto com ele. Mesmo com anos após a sua morte, os membros de seu exército diziam ver e ouvir o espírito de Mackandal os chamando para a revolta, dizendo que a hora da revolução estava chegando. E como prova da verdade de sua última profecia, o Haiti experimentou uma epidemia pesadíssima de malária algumas décadas depois, que matou mais de 30 mil europeus. A doença, que era transmitida por um mosquito, era praticamente imune nos corpos africanos daquela ilha.

Mackandal findou por ser uma figura de extrema importância para organização revolucionária e foi a fagulha que a ilha precisava para desenhar e fomentar a revolução grandiosa que estouraria com mais fervor 33 anos depois. Seu legado e sua força nunca foram esquecidos e serviram de combustível durante todos os próximos anos para que os africanos escravizados encabeçassem toda movimentação que levou à independência do Haiti através de uma batalha decisória.

Moeda do Haiti como homenagem a figura de François Mackandal

Moeda do Haiti como homenagem a figura de François Mackandal


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