Entre Terapias e Pirâmides
Comecei a terapia achando que o mundo estava acabando — e cá entre nós, eu sei que está. É intrigante como, quando alguém me apresenta um…
Entre Terapias e Pirâmides
Comecei a terapia achando que o mundo estava acabando — e cá entre nós, eu sei que está. É intrigante como, quando alguém me apresenta um problema, sinto-me resolutiva, resiliente, pronta para correr aos socorros e ajudar o próximo. Mas quando preciso me resgatar, é uma falta de vergonha tremenda. A procrastinação me toma feito fogo em gasolina — e, em vez de sanar as chamas, fico parada e me deixo ser consumida. Ainda tento entender se é ansiedade, preguiça ou medo.
Faz alguns anos que, além da terapia convencional — que virou quase uma religião para mim — exploro a delícia e a intimidade insana de viajar sozinha pelo mundo. E fico surpresa de como as pessoas julgam estranho, inseguro ou o mais clássico: loucura, uma mulher viajando só, com suas malas feitas, passagens aéreas (que sabemos ir além de um voo de avião) e uma bagagem de vontade de se ser o que é sem amarras, e assim se descobrir por aí.
Dito isto, escalei um outro patamar aqui dentro e alcei voos internacionais. Me teletransportei pra um fuso de cinco horas à frente de casa, em meio a uma cultura oriental, um tanto machista, e de um continente distante. Entrei em um avião em Guarulhos e, depois de quase 20 horas de voo, desci no Egito — no Cairo — sem conhecer ninguém e, estranhamente, me sentido leve e destemida por isso.
Egito sempre foi um ponto fraco pra mim. Desde a escola, eu me fascinava com o alcance deste povo milênios antes de Cristo: o que construíram, como viviam, o que acreditavam e em como era inabalável sua fé em suas crenças. Mesmo diante de tantas adversidades que poderiam tê-los mantido pequenos e silenciosos na história da humanidade, eles foram simplesmente o contrário: gigantes e barulhentos — em suas descobertas, costumes únicos, e claro, em suas criações arquitetônicas que não parecem criações humanas.
Que a verdade seja dita — estou me vangloriando de ir sozinha, mas não fiquei totalmente alheia em um território estranho. Fui com uma excursão feminina — de diferentes idades, localizações e, logicamente, histórias e contextos. Entre dezoito mulheres desconhecidas, tive a grande sorte de me conectar verdadeiramente com duas. Uma delas dividiu quarto comigo e, apesar de tão diferente de mim em tempo, experiência e escolhas, coube perfeitamente nas minhas conversas e silêncios. A outra, simpática e disponível, era feita pro mundo — já que um lugar só não a satisfazia — e, de quebra, ainda ganhei registros eternos pelo o seu olhar e paciência.
Eu não sou apegada a família como muitas pessoas. Quando viajo não costumo manter contato assíduo — embora sejamos bastante carinhosos quando estamos juntos. Mas, nesta viagem, eu lembro que logo no primeiro dia fomos cedinho ver as pirâmides de Gizé. E, uma vez lá, por que não fazer o passeio com os dromedários no deserto? Subi no meu e o apelidei de Albert.
Enquanto Albert caminhava pelas areias douradas, com aquele cenário cinematográfica de pirâmides, trajes árabes dos pés a cabeça, turbantes, sol e ar seco, me veio uma vontade súbita, quase urgente, de ligar para casa. Peguei o celular com um pouco de medo de desequilibrar e cair — mas desequilíbrio mesmo teria sido não ligar. Fiz um FaceTime com os meus pais, e assim que eles atenderam, eu já fui me desculpando pelo horário no Brasil. Mas era impossível não mostrar onde eu estava: sozinha, em cima de um dromedário, no meio do deserto, com pirâmides ao redor, vivendo um sonho — e feliz. Eu estava realmente muito feliz. E, inspirada nos egípcios, ali me senti gigante.
A viagem foi um sucesso — tanto pela história inimaginável que aquele povo construiu, quanto pela jornada interna que a gente faz quando viaja só. E tudo isso para dizer que terapia é importante, que autoconhecimento é o caminho, que viajar sozinha pode ser transbordo — mas, principalmente, para lembrar que o mundo está acabando. E talvez ele nunca pare de ser assim.
Será que o objetivo dele é se acabar? Nós também somos finitos. Eu sei que vamos terminar um dia. Todos nós. Mas, enquanto estivermos acontecendo, que a gente não esqueça de fazer ligações de madrugada, especialmente em cima de um dromedário, com pirâmides ao fundo, em um deserto milenar.
Vale lembrar: o mundo é de terra, água e ar. Mas nós somos de carne, osso — e afeto.
메타데이터
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- 2026-06-24 04:09:36