← Back to list

Sobre a Santa Ceia e o uso do Vinho Alcoólico

²⁶ E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. ²⁷ E…

Reforma Presbiteriana · 2026-01-17 20:44 · 1 claps · 7.8 min read
#santa-ceia #ceia-do-senhor #igreja-presbiteriana #vinho #westminster
Open on Medium ↗
Wiki topics: 🕊️ · Religion

Sobre a Santa Ceia e o uso do Vinho Alcoólico

²⁶ E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. ²⁷ E, tomando o cálice , e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; ²⁸ Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. ²⁹ E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o bebe novo convosco no reino de meu Pai.

Mateus 26:26-29 ACF

INTRODUÇÃO

Instituída pelo próprio Senhor Jesus Cristo, durante a comemoração da páscoa, na noite em que foi traído, a Santa Ceia ou Eucarístia (do grego εὐχαριστία, “ação de graças”), trata-se de um dos sacramentos do Novo Testamento, composta pelo Pão santificado pelo corpo do Nosso Senhor e pelo vinho, santificado pelo seu sangue. Trata-se de um dos mais sublimes mistérios da religião cristã e de um meio ordinário de graça, de suprema importância para o alimento, fortalecimento e consolação espiritual dos crentes, conforme instituído pelo próprio Cristo.

A Santa Ceia foi, desde sua instituição por Nosso Senhor, tradicionalmente celebrada com vinho alcoólico. Todavia, nos tempos mais recentes, especialmente a partir do século XIX, surgiram questionamentos e objeções quanto ao uso de vinho alcoólico na Santa Ceia, movendo várias igrejas a substituírem-no por suco de uva — algo que perdura até os dias de hoje em várias igrejas. Trataremos portanto neste texto quanto a correta ministração da Santa Ceia no que tange este debate quanto ao elemento do símbolo do sangue de Nosso Senhor.

A INSTITUIÇÃO DA SANTA CEIA E A COMEMORAÇÃO DA PÁSCOA

Quando examinamos, à luz do testemunho bíblico, a instituição da Santa Ceia, observamos de forma unânime que ela se dá mediante pão e vinho.

²⁷ E, tomando o cálice , e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; ²⁸ Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. ²⁹ E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o bebe novo convosco no reino de meu Pai.

Mateus 26:27–28 ACF

O sacramento foi instituido no dia da comemoração da páscoa, na ceia pascal (Mt 26:17–19; Mc 14:12–16; Lc 22:7–15) — por isso é chamada de “ceia” também.

¹⁴ E, onde quer que entrar, dizei ao senhor da casa: O Mestre diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?

Marcos 14:14 ACF

A Páscoa, conforme instituída na Lei, determinava o pão ázimo; e, conforme a prática judaica consolidada no período do Segundo Templo — contexto em que Cristo viveu — , era celebrada também com vinho fermentado. No que se refere ao pão sem fermento, vemos isto desde o Êxodo, quando o próprio Deus instituiu assim (Êx 12:15; Dt 16:3), e não o fez por qualquer motivo,Tipologicamente, o fermento passa a representar o pecado e a corrupção, de modo que o pão sem fermento simboliza pureza, santidade e separação para Deus.(1Co 5:6–8). Quando Jesus pega o pão e diz “este é o meu corpo”, ele o faz com pão ázimo, simbolizando sua pureza.

Quanto ao vinho, não há na Escritura uma prescrição explícita que o descreva em termos técnicos modernos; contudo, o testemunho histórico judaico é unânime ao afirmar que, no período do Segundo Templo, a celebração da Páscoa incluía vinho fermentado.

Na véspera da Páscoa, próximo ao horário da mincha , uma pessoa não deve comer até o anoitecer, para que possa comer matzá naquela noite com apetite. Mesmo o judeu mais pobre não deve comer na noite de Páscoa sem antes se reclinar sobre o lado esquerdo, como fazem as pessoas livres e ricas ao comer. E os distribuidores de caridade não devem dar a uma pessoa pobre menos de quatro taças de vinho para a refeição festiva da noite de Páscoa. E esta halachá se aplica mesmo que a pessoa pobre seja uma das mais pobres da sociedade e receba sua comida do prato da caridade.

Mishná, Pesaḥim 10

Este Vinho era produto natural da Vide — fruto da vide — , e fermentado de forma natural poucas semanas após a colheita — visto que na época não existiam formas de evitar a fermentação, como a refrigeração e a pasteurização, sendo impossível ser preservado por muitos meses como suco.

TESTEMUNHO APOSTÓLICO E O VINHO

Outro fato que comprova este ponto de que o “fruto da vide” ou “cálice” fazia referência ao vinho alcoólico, é justamente a possibilidade de embriagar.

²¹ Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se.

1 Coríntios 11:21 ACF

O texto é inequívoco ao afirmar que havia embriaguez — algo impossível se o conteúdo do cálice fosse mero suco de uva. Ainda assim, Paulo não proíbe o vinho, nem o substitui, mas exorta contra o pecado do abuso, distinguindo claramente uso legítimo de uso pecaminoso. Confundir o elemento instituído por Deus com o pecado humano que dele pode abusar é erro grave. A Escritura condena a embriaguez (Ef 5:18), jamais o vinho em si.

Se o vinho não fosse o elemento instituído por Cristo mas uma adulteração Paulo o teria proibido neste exato momento, visto que foi provado que havia a possíbilidade mediante o abuso do vinho que o momento solene da Santa Ceia fosse prejudicado e tornar-se motivo de escândalo. Porém Paulo não ousou tomar tal atitude, pois sabia que quem o havia instituido fora o próprio Cristo, e alterar o elemento seria adulterar a Lei de Deus.

CRISTO E O VINHO

O próprio Cristo por sua vez também fora caluniado por causa do vinho, isso antes mesmo da instituição da Santa Ceia.

³³ Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio; ³⁴ Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores.

Lucas 7:33,34

Porém mesmo tendo sido caluniado por causa do vinho, não optou por retirar ele do sacramento da Santa Ceia, antes o manteve como símbolo do seu próprio sangue. Cristo como Deus sabe como é o coração do homem, tanto do que pode se escandalizar ao ver alguém bebendo, quanto do que pode cair por embriagar-se, porém Cristo sabe que a causa disso é o pecado em si, não o vinho, não o álcool, antes a própria Bíblia descreve o vinho por vezes como uma benção do Senhor.

Se beber vinho fosse pecado em si mesmo, Cristo teria pecado — o que é blasfêmia e heresia. O problema jamais esteve no vinho, mas no coração humano inclinado ao excesso e à irreverência.

²⁶ E aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante o Senhor teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa;

Deuteronômio 14:26

¹⁴ Faz crescer a erva para o gado, e a verdura para o serviço do homem, para fazer sair da terra o pão, ¹⁵ E o vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que fortalece o coração do homem.

Salmos 104:14,15 ACF

⁶ Dai bebida forte ao que está prestes a perecer, e o vinho aos amargurados de espírito. ⁷ Que beba, e esqueça da sua pobreza, e da sua miséria não se lembre mais

Provérbios 31:6,7

É certo que também há passagens que condenam a embriaguez, mas a embriaguez não é o álcool, é o pecado, é a falta de moderação. Da mesma forma não é uma arma que mata, é a pessoa que a usa, a mesma faca pode ser usada para fazer comida ou para matar alguém, mas ela em si não é má.

Como vimos, Cristo instituiu a Santa Ceia na comemoração da Páscoa, sendo esta um sacramento da Antiga Aliança que apontava para Cristo, tendo sido santificada por intermédio do sacrifício de Cristo Sacramento da Nova Aliança.

⁷ Purificai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós.

1 Coríntios 5:7

O ENSINO CONFESSIONAL REFORMADO

A Confissão de Fé de Westminster ensina que o modo aceitável de adorar a Deus é instituído por Ele mesmo e limitado por Sua vontade revelada (CFW XXI.1). No capítulo XXIX, afirma-se que Cristo ordenou pão e vinho como elementos da Ceia, a serem separados do uso comum para um uso sagrado.

XXI.I. A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e é tão limitado pela sua própria vontade revelada que Ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Sagradas Escrituras.

XXIX.III. Nesta ordenança, o Senhor Jesus constituiu os seus ministros para declarar ao povo a sua palavra de instituição, orar, abençoar os elementos, pão e vinho, e assim separá-los do uso comum para um uso sagrado; para tomar e partir o pão, tomar o cálice, dele participando também, e dar ambos os elementos aos comungantes, e tão-somente aos que se acharem presentes na congregação.

A Igreja, portanto, exerce autoridade ministerial, não legislativa. Ela administra os sacramentos conforme instituídos por Cristo; não os redefine segundo critérios pragmáticos, culturais ou sentimentais.

CONTRA ARGUMENTOS CONTRA O USO DO VINHO E RESPOSTAS

1. O perigo da embriaguez

A embriaguez é pecado; o vinho, não — Lembremos que o próprio Cristo bebeu, se o simples ato de beber em si fosse pecado Cristo teria pecado, e afirmar isso seria heresia. Paulo diz: “Não vos embriagueis com vinho”, e não: “Não bebais vinho”. O pecado está no abuso, não no elemento.

2. O cuidado com os fracos na fé

Romanos 14 trata de questões indiferentes, não de sacramentos. A Santa Ceia não é adiáfora, mas ordenança direta de Cristo. O verdadeiro cuidado pastoral consiste em instruir, não em adulterar o culto.

3. O argumento do “fruto da vide”

Historicamente, essa expressão sempre se referiu a vinho fermentado. A própria narrativa de 1 Coríntios 11 confirma isso, além de como já vimos a própria ocasião da instituição da Santa Ceia -a celebração da páscoa.

4. O escândalo social

A Igreja deve obedecer a Deus antes que aos homens (At 5:29). O verdadeiro escândalo é adulterar a Palavra, não obedecê-la.

5. O excesso de zelo

Devemos sim ter zelo pelas coisas de Deus porém alterar a instituição de Cristo não é zelo, é adulterar a Lei de Deus por preceitos humanos, é repetir o erro dos fariseus (Mt 15:9), é legalismo.

CONCLUSÃO

Não há fundamento bíblico, confessional ou histórico que justifique a substituição do vinho na Santa Ceia. Ao contrário, a fidelidade à Escritura, à teologia reformada e à prática histórica da Igreja exige a manutenção dos elementos instituídos por Cristo: pão e vinho.

Manter o uso do vinho não é imprudência, mas obediência; não é falta de amor pastoral, mas fidelidade à autoridade do Senhor da Igreja. A verdadeira reforma da Igreja não consiste em adaptar o culto às sensibilidades modernas, mas em submeter-se, com humildade e temor, à vontade revelada de Deus.

Que a Igreja seja instruída, edificada e conduzida não por invenções humanas, mas pela verdade imutável da Palavra de Deus.

Escrito por: Guilherme A.F.


메타데이터
post_id
4d9c67a27d7d
slug
sobre-a-santa-ceia-e-o-uso-do-vinho-alcoólico-4d9c67a27d7d
url
https://medium.com/@reformapresbiteriana1647/sobre-a-santa-ceia-e-o-uso-do-vinho-alco%C3%B3lico-4d9c67a27d7d
canonical_url
https://medium.com/@reformapresbiteriana1647/sobre-a-santa-ceia-e-o-uso-do-vinho-alco%C3%B3lico-4d9c67a27d7d
author_url
https://medium.com/@reformapresbiteriana1647
status
ok
fetched_at
2026-06-27 23:56:40