Para Marjane.
Eu estava no ponto de ônibus, pronta pra fazer qualquer coisa durante o feriado. Hoje as notícias correm rápido, então ali mesmo vi a…
Para Marjane.

Persépolis (2007)
Eu estava no ponto de ônibus, pronta pra fazer qualquer coisa durante o feriado. Hoje as notícias correm rápido, então ali mesmo vi a notícia indigesta da morte da Marjane Satrapi. Eu nem consegui disfarçar minha tristeza. Ela não me conhecia, eu só conhecia o trabalho dela, mas sabia que, nesse mundo globalizado, ideias como a dela se encontravam facilmente com as minhas.
Muitas das minhas lembranças de infância e adolescência são marcadas por violência de gênero. Cresci num bairro periférico de Guarulhos, numa família um tanto disfuncional. Uma das violências que meu cérebro nunca apagou foi quando eu andava pela rua, voltando para casa, e um homem de cara redonda e barba rala abriu a janela de um carro prata e gritou para mim: “cagada de puta”. Eu tinha cerca de 11 anos. Em outra ocasião, o instrutor de capoeira da associação de moradores (que tinha cerca de 23 anos, se não me falha a memória) falou que eu estava de parabéns. Eu vestia uma saia. Respondi que não era meu aniversário. Eu ainda tinha 11 anos. Na última terça-feira, 2 de junho, o terrível senado brasileiro aprovou em tempo recorde um projeto de decreto legislativo que derruba uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) regulamentando o direito de menores ao aborto legal. Por ser um projeto que suspende uma norma do Poder Executivo, não passa pela sanção do presidente Lula. A lei no Brasil diz que qualquer relação sexual com menores de 14 anos é considerada estupro de vulnerável. Tudo em nome de Deus.
Recentemente fui expulsa do terreiro. O motivo? Entre outras coisas, não concordei que meu amigo fosse obrigado a usar saia. As religiões de matriz afro no Brasil são perseguidas sistematicamente devido ao fanatismo religioso da bancada evangélica e ao racismo intrínseco da sociedade brasileira, porém se eu ganhasse 1 real por cada vez que fui convidada a me retirar de um terreiro de axé porque não concordei com misoginia e homotransfobia, eu teria 3 reais. Não é muito dinheiro, mas é curioso que tenha acontecido 3 vezes.
Cruzei com a obra de Marjane lá pros meus 18 anos, quando cursava Produção Audiovisual. Primeiro a animação de Persépolis, depois o livro. Um dia emprestei meu livro para meu ex-namorado. Quando fui na casa dele, estava jogado numa pilha, na última prateleira da estante, perto do chão. A pandemia de covid-19 veio, o relacionamento acabou, ele ficou com meu livro e um bilhete único de Guarulhos. Quando vi a notícia da partida da Marjane, minha vontade foi bater na porta do meu ex e pedir meu livro de volta, como se aquilo fosse fazer ela voltar à vida. Como se abrir Persépolis de novo, aos 29 anos, fizesse a Leiane de 19 reviver. Como se ter acesso a um pouco da vida da Marjane num quadrinho me fizesse sentir um pouco dela, igual aos católicos que, no mesmo dia, saíam pela rua com um pedacinho do corpo e do sangue de Cristo.
Num mundo onde a presença de mulheres nas artes ainda é quase simbólica, ver a vida de uma dissidente punk ser celebrada é quase uma vitória. Nós celebramos a vida de uma refugiada política contando sua história, contando a dor do exílio, enquanto o vencedor da “maior” premiação do cinema “mundial” e recusa a falar sobre política, enquanto roda um filme explorando imigrantes ilegais em campos de concentração na maior economia do mundo. Celebramos a obra de uma mulher iraniana meses após a maior economia do mundo matar 150 garotas iranianas em um bombardeio, numa guerra por petróleo. Em um mundo que usa a religião pra oprimir mulheres, ela se permitiu ser a justiça, o amor e a ira de Deus ao mesmo tempo, mesmo tendo sentido mais a ira de deus do que o seu amor ou justiça. A criança punk iraniana não sabia, mas virou inspiração pra outras crianças punk aqui no Brasil.
Enquanto uma mulher estiver disposta a desafiar a norma, vai existir um pedacinho da criança punk que foi Marjane Satrapi.
Estava no ponto de ônibus, quando li a notícia: “Marjani Satrapi, french-iranian author of Persepolis, dies at 56”. Um pouco mais velha que minha mãe. Nas notícias, a família afirma que ela morreu de tristeza, um ano depois da morte de seu marido, Mattias Rippa. Seu perfil do Instagram trazia apenas um quebra-cabeça que formava as duas frases “for the love of my life” e “I lost the love of my life”. Num mundo tão cruel, que cobra produtividade e positividade de todo mundo, acho que não tem nada mais revolucionário que morrer de tristeza.
Obrigada, Marjane.
Referências: TONET, C. Em menos de dois minutos, Senado aprova projeto que dificulta aborto legal em crianças vítimas de estupro. G1, Brasília: 02 jun. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/06/02/comissao-do-senado-aprova-projeto-que-pode-dificultar-aborto-legal-em-criancas-vitimas-de-estupro.ghtml. Acesso em: 05 jun. 2016.
BISCHOFF, W. Bombardeio à escola no Irã: como ataque matou dezenas de crianças e jogou pressão sobre Trump e os EUA. G1, São Paulo, 14 mar. 2026: Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/14/bombardeio-a-escola-no-ira-morte-de-criancas-e-pressao-sobre-trump.ghtml. Acesso em: 05 jun. 2016.
LEWIS, I. ‘I’m not a politician, I’m a filmmaker’: One Battle After Another director Paul Thomas Anderson wades in on political art debate. The Independent, 23 fev. 2026. Disponha em: https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/news/paul-thomas-anderson-politics-baftas-b2925611.html. Acesso em: 05 jun. 2026.
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