Marty Supreme — o riso nervoso e o cinema febril de Josh Safdie
Uma comédia clássica em espírito e contemporânea na forma, em que o caos estrutura a narrativa e sua crítica social
Marty Supreme — o riso nervoso e o cinema febril de Josh Safdie
Uma comédia clássica em espírito e contemporânea na forma em que o caos estrutura a narrativa e sua crítica social

(Marty Supreme, 2025)
Se temos uma certeza em toda temporada de premiações, é que alguém vai reclamar que série A ou filme B não deveria concorrer na categoria comédia do Emmy ou Globo de Ouro. E foi com esses questionamentos em mente que eu vi Marty Supreme (2025). Primeiro, porque a forma como o protagonista se apresenta é literalmente engraçada; eu passei os primeiros 15 minutos da sessão rindo da gaiatice do personagem vivido por Thimotée Chalamet e das ideias do autor Josh Safdie — que referencia a sequência inicial de Joias Brutas (2019), na qual acompanhamos uma colonoscopia, mas de forma ainda mais risível e visualmente esquisita no indicado ao Oscar 2026.
Depois, eu lembrei desses comentários frequentes porque Marty Supreme é uma comédia legítima, no sentido de remeter ao seu significado clássico. Antítese da tragédia, a comédia é o gênero do excesso, do vulgar, da corporalidade e da crítica social. Se a tragédia retrata heróis enfrentando um destino inescapável, a comédia profana o que é solene, apresentando anti-heróis que não estão à altura de uma entidade importante como o destino e o rebaixam, tentando contorná-lo de todo modo, ao seu modo, aos tropeços. Assim é a história de Marty Mauser. Um jovem com mania de grandeza que se comporta como um vigarista para dobrar o destino que se apresenta como seu único lugar possível no mundo — à margem.

O pôster do filme reflete perfeitamente o cinema frenético dos irmãos Safdie (Marty Supreme, 2025)
Caos e ansiedade como fio condutor narrativo
Para contar essa história, Josh Safdie faz exatamente como sempre fez: assim como no já citado Joias Brutas e no ótimo Bom Comportamento (2017), além do que seu irmão Benny também fez em seu primeiro longa-metragem solo, Coração de Lutador - The Smashing Machine (2025), o diretor e roteirista implementa uma narrativa febril como fio condutor do estado de espírito caótico de seus personagens. Marty Supreme é sufocante — e isso é um elogio, apesar de o filme eventualmente cansar, ao apresentar uma barriga no segundo ato. Nessas horas, é o desempenho excelente do elenco que mantém a qualidade e o interesse na obra.
Não deveria surpreender, mas a qualidade das atuações de Marty Supreme me deixou bem impressionado. Desde a consagrada Gwyneth Paltrow até a jovem Odessa A’zion se entregam por inteiro a papéis que exigem uma considerável intensidade emocional. Kevin O’Leary disputa com o lendário cineasta Abel Ferrara quem interpreta o personagem mais asqueroso do filme. O rapper Tyler the Creator é uma presença magnética e merecia mais tempo de tela. Os tipos esquisitos que já são uma marca registrada da grife Safdie encantam às avessas. E Timothée Chalamet está possuído, reivindicando um lugar ao lado de Robert Pattinson e Adam Sandler dentre os grandes personagens criados por Josh Safdie. Três homens carismáticos que agem compulsivamente para sobreviver e encontram a apenas a autodestruição.



Connie, Howard, Marty: irmãos de alma (caótica) (Bom Comportamento, 2017/Joias Brutas, 2019/Marty Supreme, 2025)
Crítica social anticapitalista
Josh Safdie não é ingênuo ou irresponsável de retratar essa mazela como obra do acaso. Como o ato final no Japão escancara, os Estados Unidos são um fator chave para compreender sua crítica social (aspecto comum das comédias clássicas, lembra?). Assim como Connie Nikas e Howard Ratner, o protagonista de Marty Supreme é vítima e algoz de um sistema que incita a competição e impede a ascensão de quem vem de baixo. Três faladores profissionais que convencem, enrolam e seduzem para atingir um ideal restrito a uma elite econômica ou racial negado a eles.
Marty Mauser é como seus equivalentes em Bom Comportamento e Joias Brutas: três habitantes do submundo de Nova York cuja ansiedade (um mal do século intrinsecamento ligado a aceitação social) é a matéria-prima do cinema de Josh Safdie, que transforma estados interiores em paisagem dramática. Câmera nervosa, som invasivo, ritmo frenético, closes sujos e enquadramentos vertiginosos funcionam para obrigar o público a viver segundo a segundo intensamente como se estivesse na pele — e na mente acelerada — desses protagonistas. E isso é tão desconfortável que faz a gente sentir fisicamente o peso de cada nova aposta e fracasso. Marty Supreme é uma maratona. E a moral contida nesses sentimentos depõe contra o meio tóxico que formou Marty (e Connie, e Howard): a capital econômica dos Estados Unidos.
Obras citadas:
**Marty Supreme (2025), de Josh Safdie; [Coração de Lutador — The Smashing Machine](https://www.imdb.com/pt/title/tt11214558/?ref_=nv_sr_srsg_0_tt_3_nm_0_in_0_q_Cora%25C3%25A7%25C3%25A3o%2520de%2520Lutador%253A%2520The%2520Sm) (The Smashing Machine, 2025), de Benny Safdie; [Joias Brutas](https://www.imdb.com/pt/title/tt5727208/?ref_=nv_sr_srsg_0_tt_8_nm_0_in_0_q_uncut) (Uncut Gems, 2019) e [Bom Comportamento](https://www.imdb.com/pt/title/tt4846232/?ref_=nv_sr_srsg_0_tt_8_nm_0_in_0_q_Bom%2520Comportamento)* (Good Time*, 2017), de Benny Safdie e Josh Safdie.
Filme indicado ao Oscar 2026
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