A estátua oculta
Lidando com a falta de propósito ou com a falta de disciplina para realizá-lo
A estátua oculta
Lidando com a falta de propósito ou com a falta de disciplina para realizá-lo
Caro amigo,
Recentemente você compartilhou comigo suas angústias, como se sente com relação à falta de propósito na sua vida e a dificuldade em escolher uma profissão ou, talvez, de se manter firme a essa decisão, quando tomada. Além disso, mencionou que, justamente pela falta de um objetivo maior, vive um dia após o outro, como um barco à deriva, esperando pacientemente pelo naufrágio. Por meio da palavra, espero conseguir lhe auxiliar a se localizar neste oceano de possibilidades a que chamamos vida e encontrar um porto onde atracar.
Talvez algumas pessoas sejam selecionadas a dedo pelo logos e, já ao tomar consciência de sua existência, sabem qual profissão gostariam de exercer ou, ao menos, sabem o que faz a sua alma vibrar. Nestes casos, certamente as escolhas tornam-se mais simples, uma vez que o caminho foi praticamente traçado de antemão.
Por outro lado, a maioria das pessoas não recebeu grande atenção do dito dramaturgo e devem definir seu caminho por conta própria. Cabe a elas definir qual o seu papel e, sobretudo, como esse papel será exercido. Nós pertencemos ao segundo grupo e, assim, devemos nos empenhar para encontrar nosso lugar na sociedade.
Nós podemos e devemos fazer desse papel a principal obra da nossa vida, isto é, aprimorar o personagem, assim como o escultor encontra sua estátua escondida em um grande bloco de mármore. Para isso, não nos pode faltar coragem para nos desafiarmos, submetendo nosso corpo e nossa alma a provas. Quando nos colocamos a prova, não temos nada a perder: ou colhemos os louros da vitória, ou os aprendizados da derrota.
Nós somos o escultor da nossa própria estátua. Foto de Melissa Logan no Unsplash.
“Mas eu não consigo realizar nada, não sou bom em nada”, você pode me dizer. Bem, mas o que você já tentou? Quais empreendimentos já buscou concretizar com planejamento, serenidade e disciplina? Assim como numa colmeia ou num formigueiro, todos têm sua função, basta que a procuremos e, naturalmente, iremos encontrar a nossa. Ademais, é fundamental nos prepararmos por meio do estudo diligente para realizar a tarefa escolhida. O estudo não deve ser puramente acadêmico ou teórico. A teoria sem a prática é inerte, assim como a prática sem a teoria é cega.
É fundamental que tenha em mente também que, mesmo quando encontramos um propósito, um projeto que preencha nosso vazio interior, este não será perfeito. O caminho ainda será difícil e tortuoso e nem todos os dias serão de puro deleite da tarefa sendo executada. Entretanto, tenha em mente o que nos disse Viktor Frankl:
Quem tem um ‘porquê’ viver suporta quase todos os ‘como’.
Assim, é imprescindível que tenhamos sabedoria para definir o projeto sobre qual vamos nos debruçar e coragem para fazê-lo, mesmo nos dias mais difíceis. É como a musculação: não ficamos mais fortes e com músculos mais volumosos do dia para a noite, com alguma revelação de treinamento ou dieta divina, mas sim indo à academia e treinando regularmente, dia após dia, contando com a disciplina quando a motivação nos faltar.
“Mas eu não tenho disciplina”, você diz, “não consigo fazer nada por muito tempo”. De modo geral, precisamos ensinar e mostrar a nós mesmos que somos capazes de realizar as mais grandiosas tarefas. Como? Construindo uma noção de autoeficácia, isto é, nos convencer por meio da razão e de exemplos práticos de que somos competentes. Se quero começar a correr, devo estabelecer, por exemplo, a meta de correr cinco quilômetros após um ano de treinos, não uma maratona. Se quero começar a ler, que me contente em ler cinco minutos por dia, não um conto de 20 páginas.
Devemos nos educar com metas modestas e atingíveis e, somente quando nos habituamos a cumpri-las, estabelecer metas mais ousadas. O tamanho do desafio deve ser adequado ao nosso estado atual, não sendo nem muito pequeno, nem muito grande, pois o progresso se dá com pequenos níveis de tensão entre o que somos e o que gostaríamos de ser.
“Nosso bem-estar depende de uma leve tensão entre o que somos e o que gostaríamos de ser” — Viktor Frankl. Foto de Meritt Thomas no Unsplash.
Devo ressaltar que nossas metas devem sempre ser estabelecidas sobre as coisas controladas por nós, pois somente essas são livres e desimpedidas, enquanto as outras são efêmeras e dependentes do destino. Recorrendo novamente ao exemplo da corrida: o foco deve ser evoluir enquanto corredor, não necessariamente vencer corridas, pois isso depende do meu desempenho e do desempenho dos meus adversários, que não está sob meu controle.
Finalmente, gostaria de destacar que, por um lado, devemos nos empenhar com todas as nossas forças nas tarefas que nos propomos a realizar, focando sempre nos aspectos que podemos controlar. Por outro, devemos ter em mente que não devemos ser escravos dos nossos projetos, pois algo que nos preenche hoje pode não ser capaz de fazê-lo em alguns anos. No entanto, não devemos pular de uma ideia a outra de modo errático e precipitado, descartando-as precocemente. Não poderemos recuperar o tempo e a energia investidas nelas e devemos abandoná-las somente após cuidadoso exame, buscando entender porque ela deixou de fazer sentido e se realmente devemos rejeitá-la.
Com esses conselhos em mente, não tenho dúvidas de que será capaz dos maiores empreendimentos, pois a vida é longa e a alma é forte o suficiente para isso.
Até mais,
메타데이터
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