Por que Eu e a Supremacia Branca, de Layla Saad, é importante para mudar cultura organizacional
“Here’s to doing what is right and not what is easy.” Com essa frase, Layla F. Saad não apenas encerra a abertura de Eu e a Supremacia…
Por que Eu e a Supremacia Branca, de Layla Saad, é importante para mudar cultura organizacional

“Here’s to doing what is right and not what is easy.” Com essa frase, Layla F. Saad não apenas encerra a abertura de Eu e a Supremacia Branca, mas propõe um percurso de leitura aplicada de seu livro. Não se trata de uma obra voltada ao conforto do leitor, nem de mais um texto sobre diversidade a ser admirado como um objeto distante. Trata-se de um chamado à honestidade, à responsabilidade e à prática. Ao longo de suas páginas, Saad convida especialmente pessoas brancas a bloquearem os mecanismos de evasão, defesa e abstração que tantas vezes permitem que a supremacia branca siga operando sem nome e sem resistência.
Esse convite é formulado em uma linguagem acessível. De início, a autora apresenta o livro como uma ferramenta de trabalho antirracista pessoal e coletiva, estruturada para ajudar o leitor a compreender sua participação em um sistema opressivo e a assumir responsabilidade por desmantelar suas manifestações em si mesmo e ao seu redor. O livro combina formação conceitual, interpelação ética e exercícios reflexivos, compondo um percurso educativo e transformador. Seu pressuposto central é que a mudança no mundo exige também mudança interior, e esta não se produz por adesão retórica, mas por exame de crenças, hábitos e privilégios.
Um de seus méritos mais está em nomear com precisão aquilo que muitos preferem suavizar, como bem sabemos. Saad explica por que escolhe falar em “supremacia branca” e não apenas em “privilégio branco”: porque o problema não se limita a desvios individuais ou a atitudes extremas, mas diz respeito a um paradigma mais amplo, que organiza normas, instituições, percepções e hierarquias. Ao insistir nisso, a autora desloca o debate do terreno confortável da exceção para o terreno da estrutura. O racismo, aqui, não aparece apenas como ato explícito de hostilidade, mas como sistema incorporado, reproduzido também nas sutilezas, nos silêncios, nas autoproteções e nas formas ordinárias de normalidade.
É justamente por isso que Eu e a Supremacia Branca não é um livro para ser apenas lido, mas para ser praticado. Saad afirma que este é um trabalho de verdade, amor e compromisso, e não um exercício apenas intelectual. Quando se fala de racismo, lembra a autora, fala-se da vida das pessoas. O objetivo do percurso não é produzir alívio, mas ampliar a capacidade de agir com integridade, contribuindo para a dignidade restaurada de pessoas negras, indígenas e racializadas. Há, nessa formulação, uma inflexão decisiva: o antirracismo deixa de ser apresentado como identidade ou opinião e passa a ser entendido como disciplina ética, sustentada por disposição para dizer a verdade sobre si, suportar desconfortos e perseverar em mudanças no cotidiano.
A força do livro também está no modo como ele convoca o leitor a olhar para si e seu entorno, incluindo a organização em que atua. Em vez de localizar o problema em “outras pessoas”, em figuras caricatas da supremacia branca, Saad recentra a questão no eu. “Este livro não é sobre as pessoas brancas que estão lá fora. É sobre você. Apenas você" Esse deslocamento é talvez um dos gestos mais potentes da obra, que propõe romper a confortável distância entre consciência crítica e implicação pessoal. Ler Saad é, portanto, aceitar o espelho que ele oferece. É admitir que o trabalho antirracista começa quando a pessoa deixa de perguntar apenas o que pensa sobre o racismo e começa a perguntar como o racismo vive em nós, se manifesta em nós e se perpetua em nós e nas estruturas que criamos.
Entre tantas belezas éticas, o texto de Saad é especialmente belo ao nos propor caminhos para que nos tornemos "bons ancestrais", pessoas capazes de deixar o mundo menos violento e mais digno para aqueles que virão depois. Isso dá à obra um horizonte que é ao mesmo tempo político e espiritual, num encontro evidentemente decolonial. O enfrentamento da supremacia branca aparece não apenas como dever crítico, mas como compromisso com a vida, com a justiça e com formas mais inteiras de humanidade. Por isso, ainda que o livro seja duro em seu diagnóstico, ele é uma obra de travessia. Uma obra capaz de mover a nós e nossas organizações na direção de uma sociedade mais justa e de uma Democracia Racial. E isto não é cultura organizacional?
A imagem é de Joshua Reddekopp no Unsplash.
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