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Quando as gaivotas choram, é tarde demais. — Umineko Naku no Koro ni

De julho de 2019 pra cá eu decidi embarcar em uma espécie de aventura diferente, decidi consumir tipos de mídias diferentes de light…

caio moreira. · 2020-08-13 05:27 · 160 claps · 12.0 min read
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Quando as gaivotas choram, é tarde demais. — Umineko Naku no Koro ni

De julho de 2019 pra cá eu decidi embarcar em uma espécie de aventura diferente, decidi consumir tipos de mídias diferentes de light Novels e Mangás quais eu ia atrás, já que, eu sempre acabava em um modo de estagnação seja pela falta de tradução ou pelo meu abandono de interesse. Com isso, tomei a coragem finalmente de me adentrar no mundo das Visual Novels, e a única coisa que eu realmente me arrependo sobre isso é o fato de eu não ter adentrado antes.

Primeiramente gostaria de dizer que, eu nunca fui um digno sommelier do gênero mistério, pra falar a verdade eu posso contar os poucos livros da Christie e do Conan Doyle que eu li nos dedos. Porém, quando usado em um tipo de entretenimento que eu gosto — narrativa “otaku” — realmente é algo que me deixa bastante interessado, já que francamente quase nenhum nome com qualidade mantém seu nível com adaptação há um público fora de seu nicho. E quando eu digo nicho, eu digo ‘otaku’, e não o universo de “Literatura Criminal” afora.

Lembro de uma vez lido um texto que dizia como o crime alimenta a literatura, se a literatura é um fenômeno que representa manifestações humanas como forma de entretenimento, então quando reproduzimos um crime em uma história, seja fruto de ficção ou extração da realidade, esse conceito facilmente nos oferece diversos temas e pretensões como formas de mensagens, desde questões morais ou a narração de uma tragédia. Tudo isso reproduzido em um conceito chamado de “Literatura Criminal”. Onde, obviamente essas reproduções não são só de hoje, obviamente. Pois desde a mitologia grega a literatura clássica, somos apresentados a Shakespeare que conta com uma biografia exemplar de ciências criminais e temas como assassinato, adultério e incesto, por exemplo. Ou até mesmo Dante que fazia essas referentes ao castigo e a culpa, no caso, o resultado da tragédia.

Porém, mesmo que eu segure o riso, seria impossível de segurar o riso da minha bruxa favorita. Então será que podemos dizer que: “Umineko Naku no Koro ni” é realmente quase um “Hamlet”? Olha, quando penso cada vez mais, creio que funcione, mas talvez não! Eu acho que Christie com: “E não sobrou nenhum”, talvez faça um pouco mais de sentido, mesmo que a **opening uma vez te de deixe confuso**.

Algumas noites e uma ilha.

Bem vindos a bordo, estamos no Japão, é 1986, 04 de Outubro, estamos com alguns personagens — uma família — os “Ushiromiyas”, agora em um barco, a caminho da ‘Ilha de Rokkenjima’, estamos indo direto para a mansão do patriarca da família, e acredite, essa família é rica, é completamente excêntrica, a ponto desse patriarca — Kinzo Ushiromiya — ter comprado uma ilha só para que ele pudesse se isolar nela com uma mansão sem se importar com o resto do mundo.

E sua família pelo menos uma vez por ano, realizam uma conferência nesse lugar, todos os quatros filhos — Klauss, Eva, Rudolf e Rosa já adultos com seus parceiro(a)s — Natsuhi, Hideyoshi e Kyrie — e seus jovens de 9, 18 há 23 anos — Maria, Jessica, Battler e George.

Quando chegamos a Ilha e somos recepcionados pelos servos da mansão — Genji, Gohda, Shannon e Kanon — somos rapidamente levados do píer até a gigante mansão, passamos pelo prédio de visitantes, passamos pelo jardim, e então chegamos ao hall da casa, mas espera, nesse hall existe algo diferente, algo que um de nossos personagens nunca tinha visto antes, é um… retrato. Um retrato gigante no hall da mansão, com um epitáfio do lado.— “Você não conhece ela, Battler?” — Maria de 9 anos pergunta ao primo, suspirando antes de acrescentar com um sorriso — “É a bruxa dourada, Beatrice!”

Porém, é apenas o que ele precisava ouvir, naquela hora, já que o que Battler menos esperava era que a partir do momento que o mesmo colocou os pés nessa ilha, ele acabou entrando em uma cadeia de eventos que desafiariam qualquer consenso de compreensão humana.

“A peça está representada”, o banquete foi servido, e o badalar da meia-noite toca e estamos em 05 de outubro. E com isso, o que acontece é inevitável, a trilha sonora começa a se mostrar **um tanto quanto sombria, incidentes começam acontecer, algumas pessoas desaparecem, alguns servos sumiram, alguns adultos também, as luzes foram cortadas, os primos todos correm a procura, os servos restantes abrem as portas trancadas, e dentro desses quartos trancados contém… cadáveres? Assassinatos? Alguns pais dos nossos personagens morreram? Mas espera, um crime de quarto trancado*, sem passagens secretas, janelas ou uso de chave, como é possível? — “Ela usou magia!” — Diz a pequena Maria. Espera, Magia?! — “Eu te disse Battler! É a Bruxa Beatrice!*”

De Ushiromiya’s para outro: Battler Ushiromiya.

Estamos na pele de um jovem de 18 anos, Battler Ushiromiya, ele é filho de Rudolf e sua falecida mulher. No começo é dito que o próprio ficou longe das conferências familiares por 6 anos, desde que sua mãe faleceu e seu pai então casou novamente, porém depois de tanto tempo longe dos tios e dos primos, ele finalmente retorna para que possa passar um tempo com seus parentes mais uma vez.

Battler narra essa história pra nós de diversos pontos de vistas, como uma narrativa não confiável, muitas vezes ele esconde diversas coisas, não só suas emoções mas como também seus pensamentos. Principalmente esses que transcrevem suas opiniões sobre seus parentes e o cenário em sua volta.

Por exemplo, onde uma vez o mesmo apresenta seus tios de forma fria, onde se mostram em sua frente e dos primos com singelos sorrisos, mas pelas costas, suas conversas circulam apenas no tema de: “Nosso pai está quase morrendo, precisamos falar logo da herança.” E muitas outras vezes, ele nos mostra muito mais a parte carinhosa desses tios, mostrando um grande conflito de imagem que ele tem em consideração aos adultos ali presente.

Battler pra mim é realmente um dos pontos mais positivos em Umineko, visto que em uma obra de mistério, seja o público alvo — Otaku por exemplo — há muitas chances do personagem principal ser aquele famoso conceito de “self-insert”, qual não precisa se aplicar muita coisa, basta se identificar. Porém, não! Battler é um personagem. E, Se identificar? Umineko não é isso, estamos falando de uma família rica, estamos nos anos 80, é Japão, essa galera é completamente cheia de defeitos, essa família — Os Ushiromiyas — são como víboras, todos devorando suas próprias caudas, todos com planos pra conseguirem chegar até a cabeça dos próximos, principalmente a do Kinzo. Porém, isso diz que eles são pessoas horríveis? — Você acha que o Kinzo por falta, pode ser flor que se cheire? Ou tem motivos pra ganhar tanto rancor de seus filhos? — Da boca pra fora é possível ter uma opinião básica, porém, esses personagens são tão vivos, tão humanos, tão cheio de defeitos, tão machucados, que por boa parte você quer só xingar-los, porém, dez minutos depois você só queria poder dar um abraço em todos.

E Battler é parte disso, ele volta depois de seis anos na frente de todo mundo, sem dizer nada, de forma bastante egoísta, porém, ele teve seus motivos. Ele tem 18 anos agora, antes ele era só um adolescente rico e idiota, ele chega na frente de seus primos e se assusta em ver como eles estão gigantes, como George, alguém que ele sempre admirou é cada vez mais sério, enquanto sua prima Jéssica, ele se impressiona em ver como ela se tornou uma garota bonita e completamente independente. Porém não é do seu personagem — ainda — comentar sobre as pessoas ou elogiar-las com seus sentimentos maduros, então ele banca a figura cômica do grupo: “Oh, Jéssica, você cresceu e os peitos também.

O homem mais belo desse mundo.

O homem mais belo desse mundo.

Porém, essas emoções e sentimentos precisarão serem jogadas para fora uma hora, pois agora que ele é pego em uma cadeia de eventos, Battler realiza que deixar a pose e o ódio de lado — a mágoa que ele carrega — pra buscar a empatia com todos ali a sua volta será a chave para que essa história conclua sem ninguém se machucar ainda mais. Ele amadurece tanto durante os oito episódios da Visual Novel, que quando você para pra respirar, é quase impossível de reconhecer o personagem, desde seus olhos até o jeito que ele fala, sua voz, suas linhas de diálogos e seus pensamentos, como alguém que ficou preso nesse incidente e mistério, fazendo parte, criando, sofrendo, por muito tempo observando as dores e os momentos ruins dos Ushiromiya’s a sua volta, não teria como ele não acabar mudando. Pois eu já digo pra vocês, essa história sobre pessoas machucadas só irá se concluir quando todos ali já tiverem se machucado ainda mais. Só que, por mais cômico que seja, nesse drama, uma hora eles terão que limpar as cicatrizes um dos outros, porque por mais que ódio aquela atmosfera contenha, está na hora de ali, uma vez trancados em uma ilha, nos conhecermos melhor, nos ajudarmos, seguirmos em frente. Afinal, “Sem amor, a verdade não será compreendida.

E eu não digo a frase usada pelo Ryukishi— o autor da obra— da boca pra fora, essa frase usada a rodo nessa história nos leva há um infinito de possibilidades, pois francamente, você não achou que o único mistério aqui seriam cadáveres em quarto fechado, certo? Se a cada coração por metro quadrado é uma caixinha de segredos, então nada mais justo que Umineko pegar isso para representar de sua maneira também, pois uma parte importantíssima dessa história eu diria que seriam as “relações humanas”, e como elas, seja parte da própria psicologia interna ou a do próximo, como eu mesmo dizia no início desse texto, tudo isso são causas em excesso para o início de um conflito — uma tragédia.

É 1986, e você tem uma mãe protetora que não quer o filho se relacionando com uma empregada — pois cresceu apenas visando o seu próprio valor, já que ela tinha que provar que poderia ser alguém independente sendo mulher no meio de homens antiquados — você tem uma mãe solteira que desconta seu estresse mental em uma criança — pois o pai da criança simplesmente foi comprar um cigarro e sumiu — você tem pessoas inseguras com o amor do próximo, como também tem pessoas que enlouqueceram por causa do amor ao próximo. A caixa é como o “***Gato de Schrödinger***”, abrindo ou não, a tragédia poderá sair ou continuar nessa caixa. E ela é grande, tem espaço pra muita coisa, por exemplo, em nome de alguns personagens, eles não podem perdoar a traição do próprio pai, e às vezes, a caixa é tão grande que eles não podem se sentir seguro com o próprio gênero e a sexualidade. São diversos temas como a fobia, ansiedade, depressão machismo e causas LGBTQ+, porém, é 1986, Japão, como lidar com tudo isso? A mensagem literal não significa e condiz só pra você — o leitor — mas ao mesmo tempo ela condiz para todos esses personagens ali presentes.

“Há uma tonelada de livros que perguntam quem é o culpado e quais truques eles usaram. De fato, quase todos são assim. Contudo, eu não acho que existem muitos mistérios que pedem para você descobrir o motivo. Quando uma agitação emocional se torna forte o suficiente para fazer uma pessoa querer matar alguém, o resultado é essa tragédia chamada ‘assassinato’. Então eu me pergunto se isso significa que a verdadeira maneira de se resolver um crime é procurar o coração de quem causa essa tragédia? Bom, isso é apenas um motivo pelo qual eu não consigo gostar muito de novels onde o homicida é só um maníaco que mata por diversão. Eu creio mesmo que somente o coração pode matar. Portanto, se uma pessoa foi morta, creio que você deve procurar o porquê no coração do culpado.” — Battler Ushiromiya.

O mistério, o terror e o enigma de uma bruxa.

Afinal, assim como esse texto qual você continua lendo até aqui, sugado, todos somos também junto com o Battler, sugados para Rokkenjima, nós piscamos e vimos tantos parentes rindo, tantos parentes ofendendo uns aos outros, nós testemunhamos corpos, testemunhamos lágrimas desses personagens, os voice actors fazendo um trabalho maravilhosos nas atuações berrando e assustados por mais de 30 minutos e depois de tudo isso, ainda temos que enfrentar Bruxas? Sim, teremos! Pois essa quem diz ser a assassina e cabeça de todos esses incidentes não deixará você partir tão fácil assim. **A trilha sonora agora nos guia em grandeza do luxo ao suspense**, estamos nas palmas da Bruxa.

É uma ilha, temos um número exato de pessoas, temos uma pessoa qual se intitula a verdadeira criminosa, lembrou quando eu disse que ficaríamos com: “E não sobrou nenhum” da Christie? Então, eu realmente não estava mentindo. E para alguns próprios personagens, tal livro é a obra perfeita do gênero mistério, não existe outro. Quanto para outros personagens, certos detetives S&M, isso aqui tem que mudar, não pode ser igual, não podemos virar um ‘third-rate mystery’. Então não há como escapar, enfrentaremos a Bruxa Beatrice, ela mesma que diz que usou “magia” pra assassinar todos e trancar os corpos em um quarto. Porém, isso é possível? Bom, para o Battler jamais! Aceitar algo do tipo é como aceitar que isso não é um “mistério” e sim uma “fantasia”, nos tornaremos outro gênero aceitando essa bruxa. É impossível, por isso teremos que bancar o detetive e resolver esse caso de forma única, teremos que entrar em meta-linguagem e aprender a decorar o ***Decálogo de Knox, pois, ‘magia?’— “Knox .2: “Todas as agências sobrenaturais são descartadas como questão de disciplina.*”—Impossível.

Meta-ficção? É o que não falta nessa jornada, estamos enfrentando uma víbora afiada na questão do gênero mistério, um corpo encontrado em um quarto trancado? O meu quarto, por exemplo? E se eu falasse que então, eu assassinei o corpo e tranquei o quarto antes de esconder a chave? Não! Não posso! Pois isso aqui não pode virar um mistério third-rate, então os detetives serem os culpados?! Hahaha, também não é permitido no decálogo de Knox.

A narrativa é não confiável, eu já disse isso, então em diversos momentos, na visão do Battler veremos “magias”, veremos efeitos de borboletas, corpos se abrindo e sendo rasgados sem serem feitos por mão humanas, porém, é o seu papel duvidar, não acreditar em nada disso, pois uma vez que você cai no script da Beatrice, vai ser difícil sair, e o Battler pode dizer isso completamente pra você. Battler é suposto de enfrentar esse jogo pra descartar qualquer ponto de magia entre ele sua adversária, Beatrice, não perder o foco, a mente ou até mesmo coração. Beatrice é dona desse tabuleiro — essa ilha — ela sabe como mexer essas peças, ela sabe como criar essa história, esses ‘04’ a ’06 de outubro’, que continuarão se repetindo, repetindo e repetindo sem parar é tudo de acordo com o roteiro dela.

Enquanto isso, você é novo aqui, você não sabe de nada, Battler não sabe de nada, seis anos depois ele volta para essa ilha e tudo isso acontece, com certeza ele deve ter pensado alguma hora que seria melhor ele não ter voltado, e talvez, ele não seja o único.

30 dias de outubro, onde eu repeti o 04 a 06 de outubro diversas e diversas vezes, ouvindo essas bruxas rirem, gritarem, se ajudarem, ouvindo o Battler se rebelar com todo o seu psicológico abalado e depois ainda sim, vendo ele sorrindo e estendendo as mãos a quem precisa, observando ele amando, se divertindo, e dançando em harmonia não só com **as valsas mais belas, mas como também outras valsas que em batalhas quais desafiavam a própria realidade ou fantasia, tons de [tecno, house e trance](https://youtu.be/gXv-h5WIMms?t=158) nos acompanhavam, deixando a atmosfera ainda mais frenética durante a leitura. A vertente não simplesmente não importava, mas sim que mais uma vez eu me divertia com esses personagens e essa história. Eu vivendo com Battler Ushiromiya, Beatrice, a família e essas outras Bruxas, eu não diria que só li Umineko, porém, mais que isso, eu senti essa tragédia quase-Shakespeariana na minha pele, essa história a cada dia que passa cresce ainda mais dentro de mim. E assim como a “caixa do gato de Schrödinger”, eu infelizmente não vou poder seguir os desejos desses personagens de enterrar essa caixa de Rokkenjima no oceano, pois [eu trago agora pra vocês o destino](https://youtu.be/vEH9Q8SCRjc?t=51)** da mesma, estou mostrando pra vocês nesse momento!

Battler Ushiromiya e Beatrice?! Para sempre como um dos dois melhores personagens que já conheci na ficção. E a conclusão é que, 10 horas escrevendo esse texto é breve até demais pras 100 horas que vivi lendo essa Visual Novel, e se eu pudesse fazer um único desejo?! Seria de esquecer tudo sobre, só pra poder uma última vez ler de novo como se fosse a primeira vez.

Parece até Magia, mas eu sou maravilhado com essa história, essa peça, essa arte. Umineko consegue lhe fazer sentir-se ridículo quando ele transpira para você, que ele é muito mais que o seu próprio gênero, e talvez ele seja ainda muito mais para o seu próprio nicho, porém, isso é só um medíocre apaixonado apresentando sua carta de amor por uma história. Afinal, você aprendeu, não foi? Sempre procure pelo coração. Pois, sem amor, a verdade não será compreendida.

Eu ofereço esse texto para minha amada bruxa, Beatrice.

• 01/01/20.


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