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Um futuro de 40 anos atrás

O Batman é um dos personagens mais cativantes das histórias em quadrinhos e de todas as mídias em geral. Mas não por sua história de…

Carlos Victor · 2026-05-30 15:01 · 0 claps · 6.3 min read
#batman #the-dark-knight #comics #ensaio #freud
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Um futuro de 40 anos atrás

Figura 1: Bruce Wayne caminha nas ruas de uma Gotham desolada.

Figura 1: Bruce Wayne caminha nas ruas de uma Gotham desolada.

O Batman é um dos personagens mais cativantes das histórias em quadrinhos e de todas as mídias em geral. Mas não por sua história de vingança que se confunde com um senso de justiça “deturpado” e sim por sua capacidade de renascer. Do seu surgimento, no final dos anos 1930, até sua renascença (na chamada “batmania”), nos anos 1980, percebem-se mudanças gradativas em suas características: da natureza carrancuda com base em estórias pulp aos sorrisos espalhafatosos dos anos 1950 movendo-se à sua abordagem (mais) realista, nos anos 1970, ele sempre se reinventou para diferentes gerações das mais diversas maneiras.

Quando em 1986, Frank Miller, junto a um de seus maiores colaboradores, Klaus Janson, lançaram a minissérie em quatro edições: “The Dark Knight Returns” (1986) o personagem ganhou um tratamento que é revisitado até os dias de hoje - sendo a imagem mais reincidente do personagem. Tornou-se imperativo que ele seja representado sob esse mesmo padrão - sendo considerado um desvio assumir outra forma de adaptação, mesmo que o objetivo seja homenagear o seu passado.

Miller reconstitui a persona mascarada de Bruce Wayne acentuando algumas das pistas deixadas pela dupla Dennis O’ Neil e Neal Adams, nos anos 1970. O seu Batman é um sujeito que guarda um desejo pulsante por violência incutido em sua cruzada por justiça; existe uma inflexão no eu da personagem que esconde a sua verdadeira identidade através da farsa da aposentadoria, ele se recusa ouvir a voz que pede para rasgar o terno preto e caro feito sob medida que esconde as marcas dos anos de serviço prestados para a cidade de Gotham - e para os seus desejos reprimidos. Essa sombra se personifica no morcego, que surgiu como uma resposta aos anseios de Bruce Wayne por uma forma de vestir a sua busca por justiça. Na minissérie o morcego ganha um novo contorno, desenhado de maneira inofensiva na origem contada (pela primeira vez) em “Detective Comics #33”, aqui nessa estória ele assume uma nova forma, a de uma criatura demoníaca sempre voando para fora da escuridão, cuspida das trevas, é incerta a sua origem quando invade os quadros desenhados por Miller: seus olhos brancos são destituídos de “humanidade” de maneira que encararmos a criatura como um monstro, uma potência que existe para além da categorização de seus iguais, a bocarra, que parece cuspir fogo, voa em direção ao pequeno Bruce Wayne assim como voa em direção ao velho Bruce Wayne. São duas recepções diferentes, enquanto um tem medo do desconhecido o outro tem medo do conhecido, do seu eu verdadeiro, porém no fim ele aceita de bom agrado seu destino. O retorno a capa e máscara é um momento de realização para o enredo. A primeira missão do Batman é Harvey Dent, que acusa ter se curado da sua condição como Duas Caras, mas que se mostra tão quebrado quanto Bruce. É do embate com seu velho amigo que Bruce reconhece a si mesmo como quem é.

Miller, de certa forma, estuda a personagem, mas sem negar a sua “natureza”. O Batman é uma força que existe para todo o sempre. Não há um final para ele, mesmo em sua “morte”. Seu destino é existir. Não há como mudar seus impulsos. E é nesse ínterim que temos outro expoente dessa visão de mundo: os vilões. Eles são sujeitos que não mudam, essencialmente relegados a perpetuar sua maldade nesse mundo condenado. O Coringa é o maior exemplo dessa constatação, o personagem passa anos em estado vegetativo vivendo a base da assistência de outras pessoas até assistir o retorno de seu maior inimigo, retomando consciência de si e fingindo uma mudança de perspectiva que explode em uma das sequências de ação mais violentas do personagem até então - o que se tornou a moda de sua representação, chocar o leitor com ações cada mais mirabolantes em todas as instâncias possíveis.

Na diegese da estória, não existe uma salvação para aquele lugar sem a interferência de um indivíduo que carrega a moralidade em seus punhos. Tudo é sujo, desde a cidade até as pessoas, que podem expor a sua sujeira através de suas faces desenhadas de maneira erráticas ou por meio de suas ações - como o taxista que covardemente recusa agir contra o cafetão que estava abusando fisicamente da sua “propriedade”. Cabe ao Batman corrigir esse mundo, retomar sua missão de combater os criminosos “covardes supersticiosos”. Em uma entrevista para o The Comics Journal #101 em 1985, Frank Miller, pontua como o personagem Harry Callahan (interpretado por Clint Eastwood) na franquia de filmes “Dirty Harry” é o exemplo para o que deveriam ser os heróis das histórias em quadrinhos dessa época, um agente da “fúria de Deus” que corrige, através de sua icônica arma de fogo, as problemáticas do mundo a sua volta — e com mundo entende-se a cidade de Nova Iorque. Do prisma oferecido pelas palavras do autor, percebe-se a sua perspectiva sobre os problemas (sociais e econômicos) dos anos 1980 a partir dos fins e não dos meios; que assistem com mais precisão a explosão de criminalidade em dado contexto. Ou seja, o modo “correto” de resolver o que está “errado” é punir as consequências de anos de políticas que excluem grupos ou sujeitos da sociedade. Os dois médicos que gastam esforços para recuperar Harvey Dent e o Coringa, os pais da Carrie Kelley (“ex-hippies” que fumam maconha e reclamam dos fascismos do dia-a-dia enquanto assistem notícias deitados), e mais alguns cidadãos de Gotham, são formalmente apresentados como fracassados enquadrados como párias de um mundo que os rejeita por seus diagnósticos imprecisos sobre os problemas que assolam a sociedade. Eles são fracos e temerosos, sempre apontando o dedo enquanto vivem suas vidas miseráveis aceitando o mal na sociedade.

Essa evidente ira do autor encaixa o alinhamento ideológico da estória em um lugar mais à direita, porém o governo do Ronald Reagan é também fonte da raiva do autor que, por tabela, se utiliza do imaginário do Superman tornando-o uma ferramenta política não só do governo em si, mas dos estados unidos. Somos introduzidos ao personagem através de uma sucessão de quadros que desenham o movimento de balanço da bandeira dos estados unidos da américa que, sutilmente, desvanece tornando-se a capa vermelha e com o símbolo amarelo do Superman. A ideia do personagem ser o “bonequinho” ideológico dos estados unidos como uma crítica pode ser traçado desde aqui. Quando o Superman assume uma função de antagonismo, sendo ele um ator da justiça acorrentada a moral de uma bandeira, fica implícito que Miller propõe o Batman como um agente que supera qualquer tipo de nacionalidade, seu compromisso é para com um poder maior; não a toa ele “é muito grande” para se discutir.

O Batman de Frank Miller está para as histórias em quadrinhos de super-heróis o que Harry Callahan foi para o cinema hollywoodiano dos anos 1970 (e também dos anos 1980). Os dois sujam as suas mãos para fazer o “certo”. Alguns discordam das suas ações repulsivas. Enquanto outros concordam com sua visão de mundo. Os dois são agentes de uma força maior, que é delimitada na forma que o autor dá ao objeto (filme e história em quadrinhos), e que agem à sua própria maneira para espalhar justiça, se destacando em meio aos seus iguais - sujeitos em busca de salvação ou punição.

Porém o limite moral do Batman nunca é ultrapassado, quando ele se utiliza do mal que arruinou sua vida, a arma de fogo, é para um outro fim - disparar, com exatidão, em direção ao helicóptero que acredita estar Harvey Dent - ou ensinar categoricamente aos seus, autoproclamados, seguidores sobre o valor absoluto de impor a lei por meio da inteligência e da força do corpo. Quando o personagem é convidado a não somente usar armas, mas a matar, ele se vê preso a meditações que impedem qualquer tipo de quebra de seus códigos de conduta. A morte de seu arquinimigo, o Coringa, é um gesto consequente do próprio - ao quebrar seu pescoço propositalmente - e não do Batman que, mesmo depois da chacina cometida pelo vilão, se recusa a matá-lo, para a decepção dos dois. Como medita o próprio Batman: “Eu ouço vozes (…) vozes me chamando de assassino (…) eu gostaria de ser…” (MILLER, Frank, 2011, p. 152). Alguns podem enxergar essa versão do personagem como cínica acima de tudo, porém, com tudo que foi descrito, é muito complicado estabelecer ele como um sujeito que existe sobre um dogma de descrença; é tão cristalizado para alguns esse cinismo, que na adaptação mais fiel da estória para as telonas, “Batman v Superman: A Origem da Justiça” (2016), o personagem se comporta como um indivíduo que recusa até o último momento acreditar na humanidade que existe no Superman, que se torna ponto de inflexão da sua mudança. A representação de Miller, pelo contrário, é recheada de momentos aonde ele é um símbolo de esperança e, à sua própria guisa, de alteridade.

Figura 2: Batman e Harvey Dent (Duas Caras).

Figura 2: Batman e Harvey Dent (Duas Caras).

A complexidade dessa obra é retrato do que é a estória: um mar de ideias que expressam diversas noções políticas e de formas de tensionar o limite da “linguagem” das histórias em quadrinhos.

Figura 3: Bruce Wayne busca força na figura do morcego, que o assustou quando criança.

Figura 3: Bruce Wayne busca força na figura do morcego, que o assustou quando criança.


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