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Sociedade do cansaço — pequeno resumo

Byung-Chul Han é um filósofo sul-coreano que, no entanto, tem toda sua base filosófica na Alemanha, onde se formou em filosofia com uma…

Pedro Ruas · 2026-07-01 20:39 · 0 claps · 3.4 min read
#sociologia #filosofia #psicanalise
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Sociedade do cansaço — pequeno resumo

Byung-Chul Han é um filósofo sul-coreano que, no entanto, tem toda sua base filosófica na Alemanha, onde se formou em filosofia com uma tese sobre Heidegger. Nesse livro o autor trata da passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho (que ele também chama de sociedade do cansaço) se utilizando de uma série de conceitos da psicanálise para isso.

Sociedade Disciplinar e Sociedade do Desempenho

Para Byung-Chul Han, nós teríamos passado de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho. A disciplinar foi estudada pela psicanálise e por Foucault. Ela é caracterizada pelas restrições/ repressões que criam o super-Eu/ super-Ego (um Eu interno que vigia e julga nossos comportamentos). Já na sociedade do desempenho (do cansaço) as restrições são muito menores, então o problema deixaria de ser o super-Eu para ser esse Eu-ideal. Traduzindo, o problema deixa de ser a vigilância constante em relação aos nossos comportamentos para uma busca narcisista por esse Eu idealizado que nunca se alcança.

“A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não, sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados.” Quando acreditamos que podemos ser tudo e não alcançamos esse “tudo”, a única coisa que resta é a frustração, o sentimento de fracasso.

A sociedade disciplinar é marcada pela negatividade, ou seja, pelas proibições. A sociedade de desempenho é marcada pela positividade, ou seja, pela crença no poder de alcançar tudo, “Yes, we can”, ele cita. Byung-Chul Han acredita que o sujeito obediente não é tão produtivo quanto o sujeito disciplinar. O inconsciente social assim teria mudado como forma de maximizar a produtividade. Essa forma de exploração seria mais eficiente pois aparenta ser uma autoexploração, ou seja, uma forma de liberdade. “O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos”.

Depressão, Burnout e Narcisismo

Byung-Chul Han acredita que vivemos um excesso de liberdade, só que um tipo de liberdade que leva o indivíduo a coagir ele mesmo em busca de um Eu-ideal que nunca é alcançado. Isso também seria uma forma de narcisismo onde mergulhamos em nós mesmos e dispensamos relações profundas com os outros. Perde-se o contato com o diferente, o que traz vivências e que “prolongam nosso Eu no outro, no mundo”. Essas questões levariam ao burnout (esgotamento na busca do Eu-ideal) e à depressão (um isolamento completo, narcisista que se diferencia do luto e da melancolia pois estes são gerados pela relação com o outro).

“O ego pós-moderno emprega grande parte de sua energia da libido para si mesmo”.

Na sociedade do cansaço temos uma quantidade ilimitada de opções, as relações são caracterizadas pelas ligações fracas, baixo investimento da libido e isso acaba tornando o “trabalho de enlutamento” algo desnecessário. As ligações fracas tornam fácil a retirada da libido de um objeto para outro. Porém, esse sistema de defesa contra frustrações é o mesmo responsável pelo isolamento e a depressão.

Redes sociais e mercado de trabalho

O autor cita alguns casos que ilustram essa nova sociedade. As redes sociais são uma fonte de alegria narcísica além de serem desprovidas do “princípio de realidade”, ou seja, não há restrições negativas, não há grandes limitações que existem e caracterizam a realidade. Acrescentaria que as bolhas ilustram exatamente essa vontade interna narcísica de querer se ver em tudo, criando um mundo que é apenas um eco de si mesmo. Além disso, esse sujeito flexível, sem restrições, facilita a transição da mão de obra de um mercado para outro. Byung-Chul Han cita que passamos de uma sociedade marcada pelos hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas para uma sociedade marcada pelas academias, bancos, aeroportos, shoppings, escritórios e laboratórios de genética. “Nesse sentido, aqueles muros das instituições disciplinares, que delimitam os espaços entre normal e o anormal, se tornaram arcaicos”.

Podemos perceber também que o mercado de trabalho não é mais marcado pelo trabalho fabril e sim por novas formas de trabalho muito mais flexíveis, tanto na ligação entre o trabalhador e a empresa, quanto na forma de trabalho, como no caso do home office. No entanto, essa mudança tornou a divisão entre o momento do trabalho e os momentos fora dele algo completamente difuso. Mesmo os momentos de lazer se tornam momentos de maximização pessoal, essa é a concretização da ideia de ser um empresário de si mesmo.

Resumo

Segundo o autor, atendendo a uma demanda capitalista o inconsciente social teria mudado de uma sociedade controladora e cheia de proibições para uma sociedade onde há liberdade para tudo, o sujeito se torna flexível, deixa de ser controlado pelo super-ego/ super-Eu e passa a acreditar que pode alcançar o que quiser. No entanto, é criado um novo Eu interno, o Eu-ideal, uma competição interna com nós mesmos, uma meta nunca alcançada, uma admiração narcísica. Como consequência nesse foco no Eu temos um isolamento narcisista que leva a depressão e uma autoexploração que leva ao burnout.


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