O que a Bíblia verdadeiramente diz sobre submissão feminina
E porque é impossível seguir Cristo e a redpill
O que a Bíblia verdadeiramente diz sobre submissão feminina
E porque é impossível seguir Cristo e a redpill
Vamos começar estabelecendo o mais importante: a Bíblia não te dá direito em bater, violentar e maltratar mulheres. E quem age ou prega assim, ou não entendeu o texto bíblico, ou está usando a religião como esconderijo, ou está ganhando fama e dinheiro dentro da bolha redpill. E para combater essa ideia de “permissão bíblica” para prática de violência contra mulheres, vamos nos debruçar sobre um das passagens mais polêmicas do livro sagrado cristão para mostrar que nem mesmo ela dá esse direito aos homens, e que a polemização dessa passagem é apenas o fruto da falta de uma leitura bíblica mais cuidadosa.
Olhando para Efésios 5:22: “O homem deve ser o ‘cabeça’ da mulher?”
Efésios 5:22–24¹, o apóstolo (São) Paulo parece ir direto ao ponto, sem negociações:
“Esposas, que cada uma de vocês se sujeite a seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da esposa, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também a esposa se sujeite em tudo ao seu próprio marido.”
“Mulheres submissas à homens que são cabecas”. Um conceito controverso, que, aparentemente, dá brechas para muitas coisas. Líderes religiosos estão cheios de pregações e palestras sobre a necessidade e a suposta biblicidade da submissão feminina aos “homens cabeça da casa”, como se isso fosse um ativo precioso para uma religião cujo único ativo deveria ser a Graça que Cristo nos dá.
O problema é que a ideia de submissão feminina carrega coisas bem mais nocivas que a piedade religiosa. Feminicidios, violência doméstica, violência sexual, assédio no ambiente de trabalho: estes seriam apenas os primeiros itens de uma lista interminável de violências que mulheres sofrem todos os dias. E todos eles tendo como DNA a ideia de que mulheres devem abaixar suas cabeças pra tudo.
Assim, temos uma contradição. Como pode Deus mandar mulheres se submeterem, quando essa submissão, na prática, significa submissão à violência? Como Deus pode mandar homens serem cabeças se eles vão usar isso como desculpa para violência?
As respostas podem ser muitas: Deus está errado? A religião está errada? A Bíblia está errada? As interpretações bíblicas estão erradas?
A minha defesa é que as interpretações bíblicas à respeito estão erradas, o que, por consequência, faz com que a religião também esteja. E esse texto tenta ensaiar esse caminho, para ver onde conseguimos chegar.
E podemos começar por esse versículo, mesmo. Ele tem uma transitividade: o homem sendo cabeça da mulher; assim como Cristo sendo cabeça da igreja. É um encadeamento proposital. Num mundo predominantemente patriarcal, com raríssimos exemplos que apontavam para a igualdade de gênero — fosse em Israel, Samaria ou nos confins da terra — a carta aos crentes de Éfeso acabara de estabelecer limites para essa patriarcalismo: homens são cabeça como Cristo é cabeça.
O termo de busca que vai te jogar diretamente neste mundo é o “Ius Vitae ac Necis”², ou “direito de vida ou morte”, um poder absoluto dado legalmente ao chefe de família no Império Romano. Essa legislação dava ao patriarca romano o poder, entre outras coisas, de matar escravos, filhos e até esposas, além de poder jurídico sobre as posses da família. Daí o termo “cabeça” (caput) e a sua analogia “homem como cabeça da mulher”, que não foi uma invenção literária ou teológica de Paulo e sim o uso de um conceito já conhecido na época. Paulo apenas aproveita o que a lei já dizia sobre o “homem cabeça da mulher” para subverter a lógica jurídica e cultural romana com o novo ensinamento cristão.
Embora essa legislação, em sua forma original, já estivesse em processo de desuso na época da carta aos Efésios³, tendo sofrido limitações progressivas durante o avançar do Império, até ser oficialmente extinguida no século IV, o poder patriarcal absoluto ainda imperava como cultura nos dias da sexta década depois de Cristo, época em que Paulo escreveu sua carta à igreja de Éfeso.
Assim, podemos entender que Paulo, mesmo não escolhendo o caminho da revolução completa, coloca limites à barbarie que imperava naqueles dias. E o limite claro é um Cristo que lidera, mas invés de matar, morre. Aquele homem patriarca, influenciado pela cultura do seu tempo, segundo este mandamento, deveria abrir mão deste direito cultural e até mesmo legal em nome de Cristo. Se a lei dava o direito da espada a este homem, Cristo o chamava para agir como um restaurador das relações da sua família. Assim como Deus havia escolhido a restauração invés da execução, aquele homem estava sendo chamado para um outro caminho, onde a violência não era mais a solução. No fim, a ideia de ser “cabeça da mulher como Cristo é cabeça da igreja” não era uma validação permissiva, mas restritiva ao poder do patriarcado.
(E me permitam uma divagação: essa lei do patriarcado romana dava plenos poderem ao chefe da casa contra esposa, filhos e escravos. E sobre o que Paulo fala em Efésios 5 e 6? Relacionamento, à luz de Cristo, com esposa, filhos e escravos — e essa passagem sobre relacionamento com escravos, inclusive, merece um texto. Aguardem… — Paulo não iria lançar um folheto abertamente “anti lei romana” pelas ruas do império, mas ele teve o cuidado de contrariar o absurdo permitido pelo Estado ao comparar o comportamento da época com a famosa frase “o que Jesus faria”. E até mesmo se considerarmos que Paulo, no fim, só estava seguindo os ventos de uma legislação romana que estava progredindo, ainda seria revolucionário para os padrões conservadores de uma bancada evangélica de hoje um apóstolo que, uma vez não encontrando em Cristo motivos para conservar, não inventa e decide progredir. Essa Bíblia anda muito Woke… Tem que mudar isso aí, talkey?)
Mas ainda temos um segundo termo problemático aos olhos de hoje: a submissão. E para entendermos o que é submissão no contexto desse texto de Efésios, precisamos fazer aquilo que é o terror de qualquer pastor inescrupuloso: ler um capítulo inteiro da Bíblia — e não apenas um versículo isolado.

“A Biblia não foi alterada. Na verdade, ela sequer foi lida.” (Foto de Ninthgrid na Unsplash)
Estudando Efésios 5 — por inteiro
Ler o verso que vem antes desse que tratamos já quebra, por si só, o argumento de quem defende submissão como uma coleira que colocamos no pescoço dos outros:
Sujeitem-se uns aos outros no temor de Cristo. (Efésios 5:21)
Anexando este verso àquele do início do nosso texto, já percebemos que a ideia de submissão não é um presente de grego de Deus para as mulheres. Aparentemente, a ideia de submissão é ampla, e unissex.
Portanto, sejam imitadores de Deus, como filhos amados. E vivam em amor, como também Cristo nos amou e se entregou por nós, como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus. (Efésios 5:1–2)
O início de Efésios 5 já aponta isso, recomendando que vivamos todos em amor, tendo como exemplo um Cristo que se entregou por nós. Este Cristo que se entrega é um Cristo submisso, que dá a vida pelos seus. E esse mesmo Cristo nos recomenda, ainda que metaforicamente, fazer o mesmo pelos nossos, sem distinção de gênero. O texto de Efésios 5 é claro: em Cristo, todos são submissos uns aos outros, porque Cristo, sendo filho de Deus, foi submisso a todos nós. Logo, se até Cristo foi submisso, então não há uma submissão exclusivamente feminina, como tanto se prega.
E o trecho que vem logo após aquele da “submissão feminina”, então, encerra qualquer dúvida:
Maridos, que cada um de vocês ame a sua esposa, como também Cristo amou a igreja e se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também o marido deve amar a sua esposa como ama o próprio corpo. Quem ama a esposa ama a si mesmo. Porque ninguém jamais odiou o seu próprio corpo. Ao contrário, o alimenta e cuida dele, como também Cristo faz com a igreja (Efésios 5:25–29)
Esse trecho aqui conversa diretamente com o primeiro parágrafo do capítulo e com a primeira parte do nosso texto: maridos, ao invés de executar a legislação sumária sobre suas mulheres, vocês também devem ser submissos, assim como um Cristo que foi submisso. Ame sua esposa como Cristo amou sua igreja, a ponto de se entregar — o maior ato de submissão — por ela. E, se quisermos ir além, um texto que diz que maridos devem amar esposas “como o seu próprio corpo (…) porque ninguém odeia o seu próprio corpo” finaliza qualquer discussão sobre permissividade — ainda que legalizada — para violência contra mulheres. Marombas de academia, um tipo recorrente nas notícias de violência contra mulheres, precisam ler mais a Bíblia.
O que existe aqui é uma submissão cruzada: você se submete a mim enquanto eu me submito a você. Ideia que é completa no verso 21: “sujeita-vos uns aos outros”. Em termos práticos, quando você ajuda um idoso a atravessar a rua, ou quando você abre mão de um privilégio ou até de um direito legal em nome de um grupo minorizado, é isso que você está fazendo: se submetendo, ou seja, priorizando o bem do outro. E não existe casamento sem a cessão mutua. Quando eu me caso, não é mais o que eu quero, nem o que a minha esposa quer: é o que nós queremos. E todo conflito que surge disso precisa do “alguém tem que ceder”. E numa relação saudável, onde há submissão mutua, não deve haver o peso da mulher que se anula e se dobra diante de todas as vontades masculinas. E, diferentes das “fúrias e tradições” da Internet, homens não são heróis dignos de condecoração por fazerem o que é obrigação. Pois um homem que segue o que está escrito em Efésios 5, não se coloca em nenhum pedestal. E quando for necessário se colocar na cruz, não pede nada em troca. Nem fama, nem palmas, nem likes, nem honrarias domésticas.
Amar mulheres como Cristo amou — E como Cristo amou as mulheres!
Efesios 5 fala sobre como maridos devem amar esposas: “assim como Cristo amou sua Igreja”. E “igreja”, nesse contexto, não é uma instituição sectária ou denominacional. O termo aponta para o grupo de pessoas que crêem em Jesus como Salvador. E este grupo, claro, compreende mulheres. Então, nada mais justo do que analisar como era a relação de Jesus com as mulheres de seu tempo, para ver se isso sustenta o masculinismo redpill pregado, inclusive, por religiões.
A palavra “amor”, hoje, ou é uma palavra piegas, ou, para alguns, mais puritanos, um eufemismo para sexo. Mas Cristo propôs amor numa via diferente: de cuidado, carinho, escuta, empatia e defesa. Distante dessa “defesa redpill”, que alega que homem deveria ser louvado por fazer o básico. Era o amor sem nada embutido.
João 8 por exemplo, nos traz aquele famoso episódio da mulher que, alegadamente pega em adultério, estava prestes a ser morta pelos seus acusadores⁴. Quando Cristo diz “quem não tem pecados, que atire a primeira pedra”, ele está claramente dizendo que, ainda que aquela mulher realmente estivesse num ato sexual “clandestino”, segundo os padrões da época, ela não era a única a fazer isso. E que num padrão de igualdade, ou todos deveriam ser apedrejados, ou todos deveriam ser perdoados. E após seus acusadores desistirem da pena sumária, quando Cristo diz “se eles não te condenaram, eu não também não te condeno”, ele, sendo filho de Deus, reverte a lógica moralista da punição. Nem mesmo o filho de Deus saiu por aí caçando bruxas.
Em Lucas 10, quando Jesus vai visitar Marta e Maria, aqui já está o primeiro estranhamento: Jesus tinha amigas — no feminino. A relação de Jesus com as mulheres não estava limitada a sexo — como algumas correntes insistem — , nem a ideia de submissão servil da mulher para com o homem. Jesus tinha amigas. E discípulas — lembrando que nas culturas judaico-greco-romanas, normalmente o discipulado, o ato do “aprender a pensar” era lugar masculino. Quando Jesus chega à casa das irmãs, uma “vem pra sala” enquanto a outra escolhe permanecer nos afazeres domésticos. Porém, Cristo insiste que as duas estejam no discipulado. Neste episódio, podemos ver como Jesus não enxergava as irmãs como meras cuidadoras, supridoras de necessidades domésticas, lugar tão comum às mulheres ainda hoje. Cristo não foi à casa das irmãs para receber roupas limpas, água e comida. Ele foi ver suas amigas. Ele foi partilhar conhecimento, experiências e discipulado com elas. Colocar a conversa em dia.
Em João 4, então, acontece um dos episódios mais escandalosos e significativos sobre a relação de Jesus com mulheres, quando ele decide cruzar a fronteira para Samaria e encontra aquela mulher no “poço de Jacó”. Embora a conversa comece com uma provocação “dos seus cinco homens, nenhum pode buscar água pra você?”, não passa muito tempo e os dois estão discutindo a teologia — outro assunto de exclusividade masculina — da adoração no Templo. E aquela mulher é a primeira pessoa a receber a confissão daquele homem que ele era o Messias prometido. A vida sexual daquela mulher não foi considerada um sinal de impureza, para que Cristo decidisse se afastar dela (o que até hoje contrária conservadorismos mundo afora).Os discípulos, que tinham saído atrás de almoço, voltam estranhando porque o mestre deles está batendo papo com uma mulher de Samaria, o que reforça a cultura de divisão de gênero presente (não só) naqueles tempos.
Ainda poderíamos falar que, após morto, são mulheres discípulas que vão ao túmulo de Jesus o procurar. E que após ressurreto, Cristo aparece primeiro para uma mulher. Poderíamos falar, também, que entre seus financiadores — porque sim, Jesus tinha apoiadores financeiros, pois embora ele não ostentasse BMW e Rolex no Instagram, ele precisava fazer suas três refeições diárias — havia mulheres. E tem, também, a “mulher pecadora” de Lucas 7, que coloca um dos discípulos de Jesus numa crise de fé, pensando: “se ele soubesse que ela é pecadora, não deixaria ela sequer tocar nele”, enquanto Jesus pregava palavras de perdão para aquela mulher.
Podemos concluir que Jesus não parecia tratar mulheres como cidadãs — ou crentes — de segunda classe. A relação deles com elas não era baseada no interesse sexual — o que parece alimentar grande parte do ressentimento red pill. Jesus tinha amigas e discípulas. Ele as visitava, conversava com elas, mantinha laços de amizades tão fortes que foram elas as primeiras a procurarem ele no túmulo depois de sua morte e constatar a sua ressurreição. E até mesmo quando elas não se encaixavam nos padrões moralistas da época, elas não era excluídas por Cristo. E a forma como, muitas das vezes seus discípulos reagiam a essa disrupção aponta para um padrão de compreensão do feminino que estava além do que a cultura da época poderia aceitar. Talvez isso explique como as religiões estabelecidas sobre os fundamentos do ensino de Cristo foram, sistematicamente, falhando em manter o padrão tratamento às mulheres estabelecido por Jesus.
Embora o Cristianismo tenha sido decisivo para o declínio da legislação patriarcal vigente no Império Romano, é impossível não reconhecer que, depois de dois mil anos, o Cristianismo foi muito mais influenciado do que influenciador nesse jogo de forças, sendo a cultura redpill a última infame novidade, que não apenas demonstra mais uma rodada de abandono ao sola scriptura⁵, mas também deixa claro que os interesses financeiros e de crescimento religioso a qualquer custo estão sendo priorizados, enquanto as mulheres pelas quais Cristo morreu, seguem morrendo sem a piedade de muitos que se dizem cristãos.
Só que aqui, eu lanço a blue pill, sendo propositalmente declarativo ao dizer que:
É impossível seguir a Cristo e a redpill. Se você diz que segue ambos, então você é um seguidor falso de Cristo.
Elaboro mais sobre isso abaixo.
“É impossível servir a dois senhores…
… porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas. (Mateus 6:24)
Esta é um das famosas frases de Jesus em seu Sermão da Montanha (Mateus 5 a 7), e que vem a calhar perfeitamente com o nosso assunto. A impossibilidade de dividir-se entre dois polos é mais que uma verdade cristã, é uma verdade universal, que quando estressada, fica impossível não ver as fissuras. Por isso é tão estranho ver homens se dizendo cristãos e redpill.
A impossibilidade de alguém seguir fielmente o ensino de Cristo e a cartilha da misoginia reside num sentimento comum à essa bolha que delega às mulheres a culpa pelo seu insucesso: o ressentimento.
O Michaelis explica esse termo como sendo o “ato ou efeito de ressentir(-se)”, ou o “rancor seguido do desejo de vingança”, ou ainda como a “lembrança dolorosa de palavra ou ato ofensivo”.
O sujeito redpill, segundo o que é possível verificar em suas vastas produções de conteúdo, toma como ofensa um mundo onde, pela primeira vez, mulheres parecem ter alguma voz. Movimentos como o Me Too, que gerou uma bola de neve de denúncias de violência contra mulheres, que começou em Hollywood e se espalhou por toda a sociedade — inclusive em igrejas — faz o homem redpill acreditar que ele está sob constante ameaça de ser o próximo da lista de denúncias, já que, segundo eles, mulheres ganharam superpoderes para denunciar, ainda que falsamente, quando o que sabemos pela vida real é que mulheres são violentadas de todas as formas e resistem em procurar ajuda⁶, seja por medo, vergonha ou dependência financeira. Este sujeito, também, toma como ofensa um mundo onde parece que mulheres têm mais espaço no mercado de trabalho do que nunca, e associam isso ao declínio do espaço masculino neste mercado, sendo que os grandes ladrões de empregos da nossa época são o acúmulo de riquezas e a hiperautomação de tudo, que parece ter chegado a sua forma final com as IAs.
Dessa forma, o sujeito redpill carrega em si um misto de medo, rancor e desejo de vingança: ele não tem (o) emprego (que deseja), não tem (a) renda (que deseja), acredita que isso não lhe dá acesso ao sexo oposto, e quando consegue, alimenta uma relação de desconfiança, achando que aquela mulher está de olho em seu vale refeição de 300 reais, que é toda a riqueza que lhe sobrou. Acha que mães solteiras são um perigo ambulante, tentando colecionar o máximo de pais possíveis para pagar a pensão dos seus filhos (sendo que os dados da vida real mostram o contrário: milhões de crianças registradas sem sobrenome paterno no país⁷). Ou acreditam que sempre há um macho-alfa, um “chad” mas forte, bonito e rico, e pronto para capturar a sua mulher. E é claro que a mistura desses sentimentos de medo, rancor e injustiça, elevado a potência máxima que uma câmara de eco de redes sociais podem fazer, cria o verdadeiro perigo ambulante: o homem que pode chegar em um nível em que considera razoável matar mulheres.
Mas, Cristo nos mostra um caminho inverso. Sendo ele Filho de Deus, tendo ele vindo à Terra como homem comum, tendo sido injustiçado e morto por um pecado que não cometeu, Jesus é o ápice da injustiça cometida contra um homem. Se ele era Deus, de fato, o que se esperava dele como resposta, segundo muitas mitologias ao redor do mundo, era a ira, a fúria. Deus pisou entre nós e foi humilhado, torturado e morto como o pior dos homens. Mas o que vimos foi diferente: Jesus, às vésperas da sua morte, reuniu os seus discípulos, bebeu um bom vinho, comeu um bom pão, comungou, comemorou e tranquilizou seus amigos. (João 13 a 17). Nem parecia que era ele quem estava no corredor da morte naquela noite. Onde estava o ressentimento? A vingança? A lembrança da ofensa? O rancor? Esses sentimentos tão cultivados pela cultura redpill?
Jesus, que fez discípulos e os recomendou que o seguisse, escolheu o caminho da gratidão. Ele bebeu, ele comeu, ele esteve com os seus. Não se ouviu nenhuma palavra contra os seus perseguidores. De coração limpo, ciente da sua própria escolha e das consequências, ele faz o que tinha que ser feito. Seria Cristo o verdadeiro estóico? O verdadeiro sigma?
A masculinidade de Jesus não tinha alvos, não delegava culpas, não se vitimizava. Enquanto a redpill sugere rancor, vingança e ódio; Jesus apontava pra gratidão, perdão, assumindo suas responsabilidades — ou as consequências infalíveis do mundo — sem terceirizar culpas. Quando lemos os quatro evangelhos, tudo o que Jesus viveu e tudo o que ele pregou, fica bem claro: não dá pra seguir Cristo e a redpill. Há de se aborrecer um para agradar o outro. E qualquer homem que esteja seguindo a redpill, certamente, está negando Jesus Cristo.
Então, diante deste homem que se diz cristão e redpill, mais uma vez temos Morpheus, com as duas mãos estendidas e em cada uma delas, uma pilula: uma oferece a verdade, que é largar o ressentimento, o vitimismo e o desejo vingança, seguindo Cristo verdadeiramente; a outra oferece a continuidade nessa simulação onde homens são oprimidos a ponto de não poderem sequer marcar um date sem o medo de sair preso por assédio, ou onde toda mãe solo é um vírus solto na sociedade, pronta pra abocanhar toda a riqueza deste coitado, que consiste em seu vale-transporte.
E aí: diante de tudo o que foi dito nesse texto, qual pílula você vai tomar?

Ainda vai tomar a red pill, Neo? Tem certeza?
Conclusão
Efésios 5, em sua aplicação original, não dá plenas liberdades para homens sobre mulheres. Pelo contrário, estabelece Jesus Cristo como um limite para o patriarcado.
Ele que, sendo o Filho de Deus, contrariando todas as mitologias vigentes, não exerceu o paterfamilias⁸ divino sobre os humanos. Antes, exerceu sobre si o sacrifício, para que ele fosse a base viva (depois morta e ressucitada) de tudo o que ensinou. Logo, ser cabeça como Cristo nunca será exercer um patriarcado opressor. Pelo contrário: Cristo foi um cabeça que se submeteu até às últimas consequências. Não existe outra forma de ser cabeça que não seja essa. E Jesus deixou isso bem claro não apenas com palavras, mas com exemplos.
É preciso dizer — e esse texto deixa claro — que quem usa a Bíblia como ferramenta de validação pra violência contra mulheres, está errado. Em muitas passagens, o livro sagrado cristão relata episódios de violência contra mulheres, mas isso não significa abono à violência. Pelo contrário, apontar a existência desses episódios é justamente trazer à luz as contradições daquelas sociedades que viviam sob um padrão religioso e se reconheciam como “nação de Deus”, o que, aliás, comunica diretamente com os nossos dias. E até mesmo quem faz esse tipo de leitura na tentativa de refutar a Bíblia e o cristianismo, precisa tomar cuidado para que, no fim, não acabe endossando esse coro. É mais efetivo tentar contextualizar textos bíblicos isolados ao seu tempo de produção e publicação, à cultura onde estava inserido o leitor desse texto e à completude do cânone bíblico. Não é difícil encontrar muitas contradições religiosas quando fazemos esse exercício. Este texto é um bom exemplo disso.
É importante dizer, também, que quem usa a Bíblia para pregar e validar barbáries de qualquer tipo, exerce, acima de tudo, a má vontade em fazer o bem. Quando estes líderes religiosos precisam encontrar justificativas para aumentar e validar seus ganhos financeiros ou defender causas políticas, eles relacionam velho e novo testamento, praticando uma teologia criativa como nunca se viu, para que, no fim, possam ter um discurso bonito com música hillsonica no fundo de suas igrejas com parede preta. Mas não vemos a mesma disposição em vasculhar textos bíblicos e históricos — atividade também conhecida como “fazer teologia” — quando a urgência em salvar vidas femininas batem a porta. E olhando mais uma vez para o tratamento que Cristo dava as mulheres em seu ministério, podem ter certeza de uma coisa: se, de fato, houver um Juízo Final (o que, como cristão, acredito), olha… A maior parte do nosso pastoreado está em terríveis lençóis. Que possam se arrepender e, finalmente, praticar o verdadeiro ensino de Cristo enquanto ainda há tempo.
¹Os trechos bíblicos utilizados nesse texto seguem a tradução Nova Almeida Atualizada.
²Segundo a “Lei das Doze Tábuas”, (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_das_Doze_T%C3%A1buas) e (https://pt.wikipedia.org/wiki/Pater_familias)
³*https://en.wikipedia.org/wiki/Women_in_ancient_Rome*
⁴O episódio da mulher adúltera em João 8, até hoje, é uma disputa no campo da teologia, pois há quem diga que esse texto está no cânone mais por tradição do que por veracidade dos fatos. Ora, ainda que possamos assumir que esse trecho não passa de anedota, o fato da anedota contar uma historia de um Jesus que perdoa uma mulher que, segundo a lei judaica, deveria ser condenada à morte, mostra como o autor enxergava a relação de Cristo com as mulheres. Ou seja: se for anedotico, prova ainda mais o nosso ponto.
⁵Um dos cinco princípios da Reforma Luterana.
⁸Termo jurídico romano para “pai de familia”, ou “patriarca”, o homem que tinha o direito jurídico sobre toda a familia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Pater_familias)
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