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Crônica de Domingo

Apartamento 84 · 2024-05-05 11:06 · 100 claps · 4.2 min read
#home-sweet-home #morar #casa #lar
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Crônica de Domingo

A história das coisas

Episódio de hoje: nossa casa é o melhor lugar para falar sobre nós

O conceito de casa vai muito além do espaço físico onde a gente mora. Envolve sonhos e cotidiano de todos que habitam aquele lugar. A casa com a qual a gente sonha começa a ser construída na nossa infância quando, ainda na casa de nossos pais, a gente passa a adquirir consciência do lugar temporário que ocupamos. “Quando eu tiver a minha casa”. Todos nós já dissemos isto lá atrás. E a casa passa a existir no mundo das ideias, nos desejos, no sonho que vai florescer junto do sonho de mais alguém. Então, vem a rotina e, dentro dela, a gente vai descobrindo o que gosta de fazer “em casa”. Os hábitos desenham as necessidades na prancheta das possibilidades. Uma cozinha bem equipada, uma mesa que torne a recepção acolhedora, um quarto que vire sala de cinema, um sofá bom pra leitura. A adega sob medida. Estantes para meus livros e para os gadgets dele. A nossa vista para o pôr do sol.

Uma coisa que eu tenho descoberto sobre mim é que eu gosto de desenho e decoração. Eu teria sido uma boa desenhista, se tivesse treinado certas habilidades mais cedo. Acredito que a gente desperta apenas alguns dos nossos talentos ao longo da vida. Hoje, por exemplo, sinto falta de não ter me dedicado ao desenho, por causa dos livros infantis. Eu mesma poderia ilustrar minhas histórias. Mas fiquei nos bonecos-palito, vamos ser francos. O que não quer dizer que eu não saiba reconhecer um design de bom gosto. Os traços retos e discretos — sobretudo na alta-costura e na arquitetura — as sobreposições de cores e os estilos bem definidos. Talvez venha daí o meu fascínio pela pintura. Museus para mim são parques de diversão.

Gosto de séries e revistas sobre arquitetura, aprendo tendências. Mas, tem um ponto que me inquieta um bocado nesta descoberta: o preço que a gente paga por algo que não conta uma história. Explico: dia desses, estava escolhendo um centro de mesa para a cozinha. Escolher não é a palavra certa, eu estava bisbilhotando. Além do linho, do couro, do concreto aparente e do verde, eu gosto muito de madeira. E foi assim que fui parar nos centros de mesa em madeira entalhada. Que custam o preço de uma geladeira! Para quem ainda não entendeu, a função do centro de mesa é servir de fruteira ou de vaso para uma planta. O centro que me fascinou, uma gamela em cabaça recortada, tem uma assinatura. E o preço é só esse mesmo. Aquele centro não contaria nada sobre mim, mas sobre quem fez. Chique, porém absolutamente impessoal.

O que me incomoda nesses programas de casa e estilo é justamente isso: a forma — muitas vezes plástica — de se construir um ambiente. Poucos detalhes contam, de fato, uma história. Um ou outro quadro na parede, uma escultura. Mas, na maioria das vezes, o objetivo é mostrar a assinatura: a mesa do Fulano de Tal, a cristaleira desenhada por Beltrano Pompompom, as almofadas da nova coleção da marca Ciclaninha, feitas por bordadeiras do Ceará, que não ganham sequer dez por cento daquele valor. O trabalho de todo mundo precisa ser valorizado e precificado, mas não é sobre isso. É sobre morar num showroom. É maravilhoso poder receber os amigos num ambiente cujo trabalho magnífico foi feito por algum profissional que pensou exclusivamente na gente ao executá-lo. Objetos impessoais que trazem a assinatura e o certificado de autenticidade falam somente sobre quanto você pôde pagar por eles.

Quando eu era mais nova, já pensava assim. Mas, ainda não sabia organizar a ideia do “garimpar” nas viagens. E, com isso, entulhei a decoração da minha casa. Hoje, com a necessidade de me livrar de todo excesso, vejo que vai ser difícil dar um fim digno a bibelôs que vieram de tão longe na minha mala. A história da nossa casa vai sendo escrita junto com a nossa. As fases da vida, os sonhos, os objetivos, os lugares que visitamos, onde moramos. Nossa casa não está pronta depois de comprada ou ao findar uma construção. Ela sempre foi intuitiva, já estava sendo pensada muito antes e continuará se modificando, ao longo dos anos, porque não somos perenes. E aí, a gente precisa ser safo para descobrir como construir a identidade visual de um lar. Hoje em dia, parece ser prática comum as reuniões com designers de interiores que nos propõem trazer objetos para enfeitar os ambientes. “O que você gostar, fica na decoração. Nossos parceiros trabalham sob consignação”. Isso é tão confuso quanto pendurar um dragão vermelho chinês na mesma parede do Chat Noir. Hoje eu penso que o perrengue de trazer a cúpula de uma luminária da Capadócia tem grandes vantagens sobre todas as bugigangas das feirinhas da Turquia, que parecem mais fáceis de guardar na mala. Um objeto com significativa identidade visual que você garimpou em uma viagem vai ter uma história para contar na sua casa. A luminária que custou vários cifrões só dirá isso mesmo.

Particularmente, gosto de chegar na casa de amigos e observar o que, ali, se parece com eles. A fragrância dos ambientes, o livro que alguém está lendo deixado sobre o sofá, que tipos de brincadeiras as crianças daquela casa andam fazendo, os quadros nas paredes. Muito mais do que o jarro fashionista que custou uma fortuna, eu gosto de ouvir a história de quando estavam em Trancoso e compraram a manta do sofá em pleno verão. Há um conto infantil que se chama Pela casa se conhece o dono. Você até pode morar num cenário de revista de arquitetura, mas esse lugar não vai dizer nada sobre você, se precisar parecer uma vitrine o tempo todo. Então, é assim que eu imagino a minha casa: ela está sendo construída pelo lado de dentro, onde moram meus desejos e onde já habita um universo bem particular de tudo o que me compõe. O lugar mais lindo da minha nova casa é o coração do meu marido e tudo o que ele guarda para também chamar de seu. Nossa casa tem cheiro de café coado pela manhã e música no fim da tarde. A gente vai andar descalço, pendurar em alguma parede nosso quadro autografado pelo Vilaró, de quando encontramos com ele na Casapueblo. Vai ter umas plantas brasileiras para eu regar e uma cachorrinha pra gente cuidar. Será uma casa para os amigos dividirem momentos com a gente, mas o mais lindo dela é que ela já existe desde sempre e a gente já mora nesse lugar há muitos sonhos.


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