28/05/18 . Itaipava . 18:17
A ideia não se apresenta. A ideia falta. Ela própria priva-se de seu conhecimento, flutua sobre as sinapses e permanece codificada em…
28/05/18 . Itaipava . 18:17
A ideia não se apresenta. A ideia falta. Ela própria priva-se de seu conhecimento, flutua sobre as sinapses e permanece codificada em todos os âmbitos. A ideia foge. A ideia esconde-se totalmente. A ideia de que as ideias nos fogem é amargamente superada pelo absoluto reinado do agora: A ideia nunca existiu. Ou pelo menos nunca existiu agora. O instante que se segue à ausência da ideia é o momento da ideia ausente, a ideia de ideia ausente. Fácil escrever em círculos, evita-se a fadiga de avançar a ideia. Qual é a ideia mesmo? Ideia tola, ideia nula ou até falta de ideia; qualquer que seja o adjetivo preparado eu logo o desprezo pela falta de paixão ao ato. [Tudo aqui em volta está uma bagunça, a madrugada escorre lentamente entre livros e falta de ideias, fácil de prever o arrependimento da manhã seguinte. As coisas ainda estarão pelo chão e o dia já vai ter começado. Os olhos correm pela mesa à procura de um culpado e rapidamente identifica a vítima: aproximadamente 12 horas sem fumar. É bem pouco, pra ser sincero, mas não impede que as mãos suem um pouco apesar do frio, que a insônia ataque apesar do cansaço e que a fome perturbe apesar da barriga cheia. Amanhã tudo se resolverá. Amanhã tudo será igual.] A elegante ideia que me trouxe aqui foi perdida ou roubada, de qualquer forma; então nada me resta a avançar, caminhar duramente pelo vazio do caderno explorando cego todas as linhas antigas pelas quais apenas a máquina fabricante percorreu. Sinto isso com uma responsabilidade gritante. Enquanto que na página anterior, ao seu aproximar do fim, já se largava palavras cedendo à ansiedade de se acabar logo com isso, na página virgem seguinte sente o peso total das palavras escorridas da caneta. Cada traço é vibrante, só ele poderia estar ali, e cada erro é a prova viva de que não faço ideia do que estou fazendo aqui. Qual era a ideia mesmo? A ideia centralizadora é brega, mais que isso, é frágil, talvez ainda mais, e muito mutilante quanto ao processo de fato. Centralizar a própria ideia de ideia é apegar-se ao piano quando Dorothy está pelos ares. Não faz sentido só mantê-lo por perto se não é ele que faz tudo mover-se, e as ideia movem-se. A centralização móvel é uma convenção, um seguir moda. A ideia que estamos falando realmente se centraliza pelo texto, nem no centro ou ora no fim. Mas se o fim cresce com a caneta o centro move-se de página em página. A ideia se disfarça. Finge que não é com ela. Aproveita a virada da página e camufla-se de cotidiano. A ideia está no cotidiano? Hoje na Av. Brasil passei por cerca de oito homens em motos e gritando entre si. Eles entraram em Vila Kennedy com velocidade e talvez soubessem a ideia cotidiana, talvez acreditem na centralização da ideia, pensam que os livros só são escritos do meio para as bordas. Que ideia seria essa? Não há centro enquanto se escreve e após escrito não há ideia mais. Se você tá lendo isso, não há nada pra você, não há ideia mais. Ela não não tinha um farol no centro, ela se perdeu no oceano das palavras, ela navegou por linhas e não seguiu nenhuma direção além da loucura da caneta. Ideia sem mapa, perdida, mas bem alimentada e nunca náufraga. Nunca agora. Enquanto você lê, ela discute Foucault com outra ideia sem rumo, de um outro texto em cima da prateleira no caderno. Elas nem se conhecem, mas depois de se cruzar seguirão seu caminho sem volta rumo ao nada. Estou cansado de ideias. Deixarei elas seguirem os rumos obscuros da invisibilidade.
메타데이터
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- 2026-06-18 07:02:39