Morreu Claudemir Roque Tossato
Tive contato com Claudemir pela primeira vez nas aulas de Filosofia da Ciência, durante minha graduação em Filosofia: era um professor mais…
Morreu Claudemir Roque Tossato
Tive contato com Claudemir pela primeira vez nas aulas de Filosofia da Ciência, durante minha graduação em Filosofia: era um professor mais velho (faleceu aos 65), de personalidade calma e gentil, que valorizava as questões dos alunos e tentava, tanto quanto podia, abrir caminhos para eles. Ele era uma unanimidade na filosofia: uma pessoa fofa pela qual todos tinham carinho e cujo trabalho era muito reconhecido. Filosofia da Ciência nunca foi uma das matérias mais populares da graduação (as pessoas preferiam Estética e Política), mas ninguém passava por seu curso sem reconhecer que aprendera bastante ali.

Lá pelo segundo ano de graduação, comecei a frequentar seu grupo de estudos, junto com outros amigos. Aprendemos de forma expandida aqueles autores que vínhamos estudando nos cursos regulares, como Popper, Lakatos, Kuhn e outros, enquanto também éramos orientados por ele a respeito de nossas pesquisas individuais, que tocavam esses e outros autores. Meu tema, nessa época, era a teoria dos vórtices de Descartes, algo que eu nunca estudaria sem sua interferência e, no entanto, foi deveras divertido e instrutivo. A partir desse estudo, perdi muitas de minhas inibições com a ciência e passei a enxergá-la filosoficamente, como eu nunca antes soubera.
Lembro com carinho do primeiro texto que lhe entreguei, o qual ele devolveu completamente riscado em vermelho, questionando uma por uma as minhas alegações e invalidando quase todas. Tomei um susto, mas valorizei demais aquele gesto. Até então, ninguém nunca tinha lido algo meu com tantos detalhes, dedicando tanto reflexão a ele. A partir dali, incorporei suas críticas e passei a escrever e argumentar muito melhor. Ele nunca deixava meus erros passarem sem que fossem apontados e cresci muito com isso. Inclusive, anos mais tarde, quando lecionei no ensino médio, passei a devolver os textos de meus alunos com rabiscos, instruções e apontamentos, à maneira de meu orientador. Poucos entendiam o motivo disso, diga-se de passagem, eles queriam apenas saber a nota. Porém alguns raros agradeciam e voltavam melhores nos próximos trabalhos — eles não sabiam, mas estavam recebendo um legado.
Claudemir sabia muito a respeito de História da Ciência, Física, Filosofia da Ciência e, que eu saiba, era o principal especialista brasileiro em Kepler. Ao mesmo tempo, admitia rapidamente quando não sabia de algo; a ignorância não era um constrangimento. Ele comentava as teses (nossas ou dos filósofos) de modo inofensivo e acolhedor, como se estivesse ressaltando algo bobo, não aventando razões argutas que poderiam demolir-nos. Suspeito que qualquer tolo se acharia melhor filósofo do que ele, mas, que eu saiba, nenhum tolo lhe fazia companhia e todos os bons filósofos o reconheciam.

Lembro que ele sempre mencionava com carinho Paulo Tadeu da Silva (“é um irmão para mim”), referência brasileira em estudos sobre Mersenne; que gostava do Palmeiras, conquanto dissesse que “filósofo não enche estádio de futebol”; que fumava mais do que devia; que era ateu, viúvo e muito discreto quanto à vida privada. Fechando os olhos, consigo lembrar do timbre de sua voz, o cheiro doce de cigarro que o envolvia e sua risada característica. Filosoficamente, acho que ele estava próximo de algum pensamento pouco comprometido com o realismo filosófico, embora não fosse bem um cético. Parecia interessar-se mais pelas implicações filosóficas do que por adotar e professar filosofias e, malgrado escrevesse belissimamente, não era um filósofo a ser lido por leigos ou iniciantes, apenas por especialistas. Pouca gente se interessava realmente pelo que ele oferecia de melhor em termos acadêmicos. Mesmo sua especialização em Kepler não parecia um grande encontro com um tema com o qual ele se identificasse profundamente, mas uma escolha requerida para continuar estudando filosofia — a academia exigia especialização e, por isso, ele escolheu algo para se especializar e permanecer dentro dela. Noutra vida, ele poderia ter sido especialista noutra coisa, com igual interesse.
Mesmo depois de movimentar meu objeto de pesquisa da História da Ciência para a Metafísica e ser orientado por outros professores, continuei estudando com Claudemir por anos e participando das atividades que ele formulava. Tivemos encontros na universidade, em centros culturais e outros locais; participamos de eventos de Filosofia e História da Ciência com Pablo Mariconda, Eduardo Kickhöfel, Plínio Smith e outros filósofos; também assistimos juntos à última apresentação pública do lendário Osvaldo Porchat.
Só perdi o contato com ele lá pelo fim de meu mestrado, quando parei de frequentar a Unifesp. Cheguei a encontrá-lo casualmente depois, não lembro bem das circunstâncias, e tive a impressão de que ele condenava meu tema de pesquisa como sendo difícil demais para aquela etapa, contudo ele jamais me disse isso abertamente e, se pensava mesmo dessa forma, estava certo. Depois disso, mesmo nos encontros que nossa turma fazia (e ainda faz), uma vez por ano mais ou menos, Claudemir não comparecia. Pensando agora, não tenho certeza se tivemos a delicadeza de convidá-lo todas as vezes, embora também o considerássemos da “turma”.
Por fim, sou ateu como ele e não acredito que vamos nos encontrar novamente. Ainda assim, consigo avaliar o impacto que ele teve em minha vida e naquelas ao meu redor, bem como concluir “de forma clara e distinta” que lhe sou imensamente grato. No tempo que me resta, espero sinceramente poder ser como ele: uma pessoa que passa por esse mundo melhorando os demais e que sai dele deixando saudades.
메타데이터
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