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Sermões sobre as epístolas do ano cristão, pelo Rev. CFW Walther (lecionário histórico)

Décimo Sétimo Domingo após a Trindade - Efésios 4:1–6

Biblioteca Luterana · 2025-10-15 19:49 · 1 claps · 11.0 min read
#luteranismo #sermões #devocional #paz #cristianismo
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Sermões sobre as epístolas do ano cristão, pelo Rev. CFW Walther (lecionário histórico)

Décimo Sétimo Domingo após a Trindade - Efésios 4:1–6

The Last Supper - Jacopo Tintoretto

The Last Supper - Jacopo Tintoretto

Graça, misericórdia e paz vos sejam dadas da parte de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho do Pai, em verdade e amor. Amém.

Caros amigos em Cristo Jesus

Em todos os tempos em que houve verdadeiros crentes e zelosos confessores da verdade, estes sempre foram acusados de serem inimigos da paz e da unidade. Já no Antigo Testamento, quando o grande profeta Elias encontrou o rei Acabe, lemos que o rei imediatamente lhe disse, irado: “Então é você, o perturbador de Israel?” (1 Rs 18:17). O mesmo ocorreu nos tempos do Novo Testamento. Quando Paulo, o grande arauto do Evangelho, foi levado perante o governador romano Félix, a acusação contra ele dizia: “Porque, tendo nós verificado que este homem é uma peste e promove desordens entre os judeus do mundo inteiro” (At 24:5).

Depois do tempo dos apóstolos, lemos que os cristãos foram declarados inimigos da paz pública e da lei — sim, inimigos de toda a raça humana — não apenas por governantes pagãos, mas, muitas vezes, foram assim chamados até mesmo por outros cristãos, como perturbadores da paz e da unidade. Assim também aconteceu com Atanásio, o corajoso confessor e defensor da divindade de Cristo, que foi acusado de ser inimigo da paz da Igreja e passou vinte anos no exílio. E, novamente, quando há trezentos anos Lutero, o homem de Deus, anunciou mais uma vez o puro Evangelho após um longo tempo de falsidade, e testificou com ousadia contra erros perigosos à alma, ele também foi considerado em toda parte — até mesmo entre aqueles que pretendiam ser amigos do Evangelho — como alguém que causava confusão na Igreja Cristã. E, finalmente, o que também devemos experimentar em nossos dias? Porque não queremos participar da chamada nova união da Igreja Evangélica, somos acusados de estar deliberadamente dilacerando o corpo de Cristo e impedindo aquela unidade à qual todo cristão é tão seriamente exortado na Palavra de Deus.

De fato, é verdade, meus amados ouvintes: se os verdadeiros cristãos pudessem ser justamente acusados de serem inimigos da unidade cristã, estariam em situação trágica. Pois, em verdade, todas as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento estão repletas de exortações à paz e à unidade. O tema central da oração do Senhor por Sua Igreja é: “[20] — Não peço somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por meio da palavra que eles falarem, [21] a fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17:20–21). Por isso Paulo diz a Timóteo: “ Siga a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor.” (2 Tm 2:22). E na Epístola aos Hebreus lemos: “Procurem viver em paz com todos e busquem a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.” (Hb 12:14). Nessas palavras, a salvação eterna é negada a todos os que não buscam a paz com todos.

Meus amigos, ainda que pareça que os verdadeiros cristãos devam abaixar os olhos em profunda vergonha quando acusados de serem inimigos da paz e da unidade, isso não passa de mera aparência. A unidade pela qual o Senhor rogou ao Pai por Sua Igreja, e à qual os apóstolos exortaram com insistência as igrejas por eles fundadas, é algo totalmente diferente daquilo que comumente se entende por esse belo nome. O próprio Cristo, o eterno Príncipe da Paz, foi acusado perante Pilatos de ser o perturbador da paz da Igreja. Seus acusadores clamavam: “Ele agita o povo, ensinando por toda a Judeia” (Lc 23:5). Mas, assim como os verdadeiros cristãos não se empenham em promover uma falsa paz, também demonstram grande zelo em estabelecer e promover a verdadeira unidade. Em que consiste essa unidade, é o que nos é ensinado na Epístola de hoje, da qual agora queremos aprender. Que o Deus da paz e da unidade nos conceda Sua luz e Sua graça para este propósito.

O texto: “[1] Por isso eu, o prisioneiro no Senhor, peço que vocês vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados, [2] com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando uns aos outros em amor, [3] fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. [4] Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. [5] Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, [6] um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” Ef 4:1–6

A Epístola que acabamos de ouvir divide-se em duas partes. Na primeira, o apóstolo Paulo exorta, em termos gerais, que os cristãos andem de modo digno da vocação com que foram chamados, com toda humildade, mansidão e paciência. Na segunda, exorta especialmente que sejam diligentes em conservar a unidade do Espírito. Como a primeira exortação já vos foi dirigida no domingo passado, voltemos hoje nossa atenção principalmente à segunda parte do texto. Apresento-vos, então:

A VERDADEIRA UNIDADE DA VERDADEIRA IGREJA CRISTÃ

Mostrarei a vocês:

  1. Em que ela consiste;
  2. Sobre o que se fundamenta; e, finalmente,
  3. Por quais meios é preservada.

I.

“Fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (v. 3). — Em nossos dias, essas palavras do texto são frequentemente tomadas como lema por aqueles que iniciaram ou abraçaram uma chamada “união eclesiástica”. Supõem que, com essas palavras, o selo apostólico e divino foi impresso sobre sua união. “Fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” — essas palavras são, portanto, muitas vezes dirigidas contra os verdadeiros cristãos que não querem participar dessa nova organização de união eclesiástica, e julga-se que elas os repreendem e condenam.

Mas, assim como fazem com muitas outras passagens das Escrituras em nossos dias, também aqui não se dá a devida atenção ao sentido do texto; ele é mal compreendido e mal aplicado.

Pois, que tipo de unidade é realmente essa que tentam estabelecer por meio dessa assim chamada união eclesiástica? É apenas uma unidade externa, física, terrena e visível. Enquanto, em seu coração e mente, os cristãos creem em coisas diferentes, pensam de modo diverso e têm disposições distintas, pretendem fundar uma unidade que consiste em realizar certas obras piedosas — por exemplo, o trabalho missionário e a difusão da Bíblia; em chamarem-se uns aos outros, ao menos, de irmãos e irmãs, ainda que não o sejam em seus corações; em realizarem juntos um culto formal; em aparecerem juntos diante de um mesmo altar e aceitarem certos ritos. E aquele que não quer tomar parte em tal união meramente exterior é chamado de inimigo da unidade cristã e é advertido com estas palavras: Acaso não leste o que o apóstolo escreve: “Fazendo tudo para preservar a unidade”?

Entretanto, o apóstolo não escreve apenas isto, mas: “Fazendo tudo para preservar a unidade DO ESPÍRITO.” Portanto, não é à mera unidade exterior que o apóstolo exorta, mas à “a unidade DO ESPÍRITO. A verdadeira unidade dos cristãos — ou a verdadeira Igreja cristã — consiste, portanto, em uma unidade interior, invisível, de coração, mente, alma e espírito. E o apóstolo prossegue imediatamente com estas palavras: “Há somente UM corpo e UM só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados.” (v. 4). A verdadeira unidade da Igreja cristã não consiste em ser unida externamente, como pedras mortas de uma casa, mas como membros vivos de um corpo vivo, que é animado e permeado por um mesmo Espírito — o Espírito Santo.

Ainda que os cristãos tenham diferentes vocações e posições nesta vida terrena, sua unidade consiste em possuírem uma só vocação — aquela que diz respeito ao céu, o qual todos igualmente esperam, pois pertence a todos sem distinção. A primeira congregação cristã em Jerusalém permaneceu uma vez nessa unidade; está escrito sobre ela: “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma.” (At 4:32).

Portanto, não vos deixeis enganar, meus amigos, quando, por exemplo, a Igreja de Roma se orgulha de sua unidade sob o poderoso governo de seu chefe visível, e quando, com alegria maliciosa, aponta para a desunião que prevalece no meio do chamado protestantismo. Não vos deixeis enganar pela unidade exterior que aqui e ali é produzida pelas uniões eclesiásticas de nossos dias. Não é dessa unidade meramente externa que as Santas Escrituras falam, nem a ela que nos exortam tão veementemente. Toda unidade exterior, sem a unidade interior do Espírito, nada mais é do que a unidade de um cadáver no cemitério; por mais que brilhe aos olhos dos homens, de nada vale diante de Deus — é uma ilusão, sim, é um sinal evidente de morte espiritual.

II.

Meus amigos, agora que vimos brevemente em que consiste a verdadeira unidade da Igreja Cristã, procuremos, em segundo lugar, aprender sobre o que ela se fundamenta.

O alicerce sobre o qual hoje costumam edificar a unidade da Igreja — e sobre o qual, em especial, repousa a unidade da Igreja dos unionistas — é este: que cada um pode crer o que lhe parecer certo, que as opiniões mais divergentes são toleradas na Igreja, e que essa diferença é coberta com o manto do amor. Nenhuma oposição é levantada contra a falsa doutrina, mas mantém-se silêncio mesmo diante das mais grosseiras deturpações da Palavra de Deus. E, como prova de que isso seria correto, citam as palavras do texto: “fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito NO VÍNCULO DA PAZ.” No entanto, dizem eles, o vínculo da paz nada mais é do que o amor; portanto, a verdadeira unidade se fundamentaria no amor. Mas isso é um grande erro. O apóstolo não diz: “fazendo” por fundar ou produzir a unidade, mas sim: “para preservar” — isto é, manter, proteger — “a unidade do Espírito”. Assim, não é verdade que, segundo o nosso texto, a verdadeira unidade possa ser criada e fundada sobre o vínculo da paz ou do amor. Não, essa unidade já deve existir previamente; e, quando ela existe, então sim deve ser preservada e cultivada pelo vínculo da paz e do amor.

Mas aquele sobre o qual a verdadeira unidade realmente e unicamente se fundamenta é declarado em nosso texto, quando lemos: “[5] Há UM só Senhor, uma só fé, UM só batismo, [6] UM só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (v. 5–6).

Vede, a verdadeira unidade dos cristãos repousa sobre o fato de que eles confessam um só Senhor — Jesus Cristo — , têm uma só fé em seus corações, são batizados com um só Batismo e são filhos de um só Deus e Pai. Se esse fundamento está lançado, então a unidade repousa sobre o verdadeiro alicerce. Por outro lado, se esse fundamento falta — se um confessa isto e outro aquilo; se um crê desta maneira e outro de forma diferente; se um considera o Batismo apenas uma cerimônia, e outro o considera um meio de graça, a saber, a lavagem da regeneração — , em suma, se não há uma só fé e uma só confissão, então toda essa unidade exterior nada mais é do que uma falsa unidade, mera ilusão, farsa, nada além de mentira e engano.

Tão intensamente quanto os apóstolos exortaram à verdadeira unidade interior — a qual repousa sobre um só Senhor, uma só fé, um só Batismo, um só Deus e Pai — , com igual seriedade advertiram os cristãos contra a unidade exterior com aqueles que não são de uma mesma fé e confissão. Com grande ênfase Paulo escreve em 2 Coríntios 6: “[14] Não se ponham em jugo desigual com os descrentes. Pois que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão existe entre a luz e as trevas? [15] Que harmonia pode haver entre Cristo e o Maligno? Ou que união existe entre o crente e o descrente? […] [17] Por isso, o Senhor diz: “Saiam do meio deles e separem-se deles. Não toquem em coisa impura, e eu os receberei.” [18] “Serei o Pai de vocês, e vocês serão meus filhos e minhas filhas”, diz o Senhor Todo-Poderoso.” (vv. 14–15, 17–18). Além disso, o mesmo apóstolo escreve: “Irmãos, peço que notem bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que vocês aprenderam. Afastem-se deles” (Rm 16:17). E clama a Tito: “Evite a pessoa que provoca divisões, depois de admoestá-la uma ou duas vezes” (Tt 3:10). Sim, no primeiro capítulo da Epístola aos Gálatas lemos: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu pregue a vocês um evangelho diferente daquele que temos pregado, que esse seja anátema.” (Gl 1:8). E até mesmo João, o discípulo do amor, escreve em sua Segunda Epístola: “[10] Se alguém for até vocês e não levar esta doutrina, não o recebam em casa, nem lhe deem as boas-vindas. [11] Porque aquele que lhe dá boas-vindas se faz cúmplice das suas obras más.” (2 Jo 10–11).

Portanto, longe de ser verdade que Deus nos ordene manter uma unidade exterior com aqueles com os quais não há unidade de fé e confissão; antes, isso é expressamente proibido na Palavra de Deus e é uma abominação diante dEle. Por isso, quando Lutero, no ano de 1529, na Colóquia de Marburgo, não estendeu a mão de fraternidade ao herege Zwínglio, isso não foi falta de amor, mas fidelidade e obediência a Deus e à Sua santa Palavra. E se, ainda hoje, não desejamos participar da nova união eclesiástica organizada, isso não se faz por egoísmo, teimosia, ou ódio à paz e à unidade, mas por amor à verdadeira unidade, aquela que somente agrada a Deus — a unidade que repousa sobre uma só fé e uma só confissão.

III.

Agora surge a pergunta: se essa verdadeira unidade já existe, como pode ser preservada? Em terceiro lugar, permiti-me responder a essa questão.

Para isso, desde tempos antigos têm sido propostas diversas maneiras. A maioria pensa que o melhor meio de preservar a verdadeira unidade é ter um tribunal eclesiástico supremo, que, por suas decisões, determine e resolva todas as disputas, e às cujas declarações todos se submetam incondicionalmente por causa da autoridade do ofício. O papado insiste nisso. Diz-se: “Como é possível preservar a unidade da Igreja se não houver um juiz supremo, um papa com seu concílio, dentro da Igreja?” A história da Igreja, porém, nos mostra o resultado de tal método: a unidade exterior, de certo modo, é mantida, mas a verdadeira unidade interior se perde.

O apóstolo, entretanto, prescreve em nosso texto um caminho completamente diferente. Ele escreve: “Fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz.” (Ef 4:3). Segundo o apóstolo, o meio correto é o “vínculo da paz”; e o que ele entende por isso podemos ver nos versículos precedentes, onde exorta os cristãos a serem humildes, mansos, pacientes e cheios de amor.

E assim é: quando Deus concede a unidade do Espírito sobre o fundamento da unidade de fé e de confissão, então ninguém deve julgar o outro; então, entre irmãos, ninguém deve pesar cada falha na balança; deve-se, antes, estar disposto a relevar muito — sim, muito — , a perdoar toda sorte de fraquezas e falhas uns nos outros, e a cobri-las; deve-se estar pronto a ceder alegremente ao outro; ninguém deve buscar atrair seguidores para si mesmo. Sim, dessa forma, e de nenhuma outra, o precioso tesouro da verdadeira unidade é mantido e preservado.

Pois bem, meus queridos ouvintes, nosso fiel Deus, em Sua grande misericórdia, também nos concedeu esse tesouro. Pois nossa Igreja e congregação estão edificadas sobre este princípio: “Há UM só Senhor, UMA só fé, UM só batismo!” Portanto, escutemos a exortação do apóstolo em nosso texto: “fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito” Guardemo-nos contra a falsa unidade e a falsa paz — como contra uma serpente venenosa de pele brilhante e reluzente — , mas cuidemos zelosamente da verdadeira unidade do Espírito, da fé e da confissão, sendo gentis, humildes, pacientes e amorosos uns com os outros, em suma, “no vínculo da paz.” Assim, o Deus da paz estará conosco. E, finalmente, quando este tempo de luta e conflito tiver passado, entraremos nas mansões da paz eterna, onde nenhum combate ou discórdia mais perturbará nossa unidade, onde seremos todos perfeitamente um com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e, com todos os anjos e eleitos, O louvaremos e bendiremos com uma só voz por toda a eternidade. Amém.

Fonte do texto: Amerikanisch-lutherische Epistel Postille: Predigten über die meisten epistolischen Perikopen des Kirchenjahrs u. freie Texte by C.F.W. Walther Fonte da imagem: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/46/JacopoTintoretto-_The_LastSupper-_WGA22649.jpg Tradução bíblica: Nova Almeida Atualizada (NAA).


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