Eu, um pombo e a Cidade
Desde os oito anos, moro no centro de uma metrópole no interior do estado de São Paulo. De um tempo pra cá, cerca de três anos para ser…
Eu, um pombo e a Cidade
Desde os oito anos, moro no centro de uma metrópole no interior do estado de São Paulo. De um tempo pra cá, cerca de três anos para ser mais exato, ando sentindo uma espécie de fobia relacionada a pombos. Na verdade, acho que seria mais preciso dizer que é uma fobia relacionada ao medo de ver um pombo sendo atropelado. Sempre que saio de casa, em geral para comprar cigarros, mantenho meu foco no chão ou no céu, sempre com medo de dar o azar de ver um pombo ser espatifado por um ônibus nas movimentadas ruas e avenidas do centro. Já vi acontecer algumas vezes: um pombo manco vai atravessar a rua e pumba! Um caminhão o espatifa no asfalto. Isso não é novidade para mim, mas o episódio mais recente — com certeza — foi o mais difícil e, por isso, o desencadeador de minha fobia.
Certo dia, estava precisando andar. Não me lembro bem o porquê, pode ser devido ao fim de uma relação que me apresentou um eu muito melhor do que o eu com que estava acostumado. Pode ser devido a um processo judicial pelo qual passei e que me obrigou a fazer coisas e passar por situações que não me apetecem. Não importa, caminhar sempre é uma escapatória quando não consigo lidar com minha presença. Nesse dia, em meio ao estupor de emoções, resolvi ir até o quartel onde cumpri meu serviço militar obrigatório. É uma caminhada dura para um fumante como eu, cerca de quarenta minutos de muito sol e subidas, mas, no estado em que estava, não cheguei a considerar isso. Coloquei no bolso meus itens críticos: chaves, cigarro, isqueiro e RG, e tomei o elevador, que parecia estar mais lento que de costume.
Depois de andar algumas quadras em direção ao meu destino, enquanto esperava o sinal de pedestre ficar verde para que eu pudesse atravessar a rua, vi um filhote de pássaro perdido em meio ao movimentado cruzamento. O coitadinho parecia um filhote de pombo e ainda possuía a plumagem marrom e fofinha, característica dos filhotes. Deve ter caído de um ninho e vagado sem muito destino. Ele estava completamente perdido em meio ao caos de carros, ônibus, motos, buzinas e caminhões. Ali, bem perto da faixa de pedestres, o jovem animalzinho se esforçava para voar e escapar da morte certa. Os carros passavam sem saber o que acontecia, eu olhava o filhote se debater sem saber o que fazer, o filhote olhava o caos sem saber o que faria; em meu íntimo, minha fobia começava a nascer. A ansiedade aumentava, minha respiração acelerava, minha mandíbula contraída e minhas mãos pareciam tremer. Uma intensa vontade de ajudar o pobre passarinho, aliada a algo parecido com aquele congelamento que precede o atropelamento retratado em filmes, fazia eu ter vontade de chorar, pois sentia que eu era o único que sabia o que estava acontecendo.
De repente, como um cessar-fogo em meio à guerra ou uma vela se acendendo na mais completa escuridão, o pobrezinho finalmente conseguiu levantar voo! Bem, foi um voo baixo e desengonçado, até porque deve ter sido seu primeiro, mas acreditei que poderia ser o suficiente para que ele escapasse daquela enrascada sem que eu precisasse me envolver; ledo engano. Após um breve bater de asas, ele acaba indo em direção a um SUV — é óbvio que seria um SUV — e colide com o maldito veículo. Devido ao patético voo, o SUV não conseguiu amassar o bicho com seus mil quilos de inutilidade para assim acabar, em definitivo, com a sua agonia. O filhote atingiu a altura da lanterna do veículo, o que o arremessou, ainda com vida, a poucos metros de mim. Consegui olhar bem para ele e, mesmo com o sinal verde para os carros e o fluxo sendo intenso, não consegui ignorar o passarinho e entrei — com toda a caridade de um homem machista, heterossexual, pobre e burro — no meio dos carros para salvar o bicho. Muitas buzinas foram ouvidas, alguém me xingou, quase fui atropelado, mas consegui capturar o infeliz que gritava enquanto tentava seguir sua fuga. Retornei à calçada em que eu estava anteriormente.
Fiz uma concha com minhas mãos para resgatá-lo. Ele cabia em apenas uma delas, mas achei que o espaço lhe seria agradável; além disso, não gosto da sensação de algo querendo escapar de mim. Enquanto o segurava, sentia suas pequenas asas, suas patinhas e sua fofinha plumagem roçarem entre meus dedos; teria sido bom se eu tivesse dado a devida atenção. Aos poucos, ele parecia recobrar a consciência, se acalmar e perceber que já não corria tanto risco quanto antes. Ainda segurando aquela criaturinha indefesa, atravessei a larga rua em que ele havia acabado de quase morrer e, chegando à calçada oposta, caminhei em direção a um canteiro bem em frente a uma imobiliária, de onde pensei que ele havia saído e — com essas mãos que se amputariam antes de fazer algo genuinamente bom — coloquei aquela pequenina vida em meio às plantas em frente à rua em que ele quase morreu; sem carinhos, sem afeto.
Meu coração, duro e acelerado, não se deu a chance de sentir. Minha mente, fria e atrofiada, não teve a capacidade de pensar. Botei o indefeso pombinho no canteiro, virei as costas para aquela tragédia — mais uma — e, em passo de estrada, segui minha caminhada, sempre fugindo de sentimentos e emoções. Hoje, anos após a fatídica caminhada, ainda penso no destino daquele pombinho. Será que foi atropelado depois de voltar a tentar atravessar a rua? Será que ele estava tentando chegar à calçada em que eu estava, e eu, na ânsia de me livrar da tragédia, acabei levando-o de volta ao início de sua jornada? Será que o jardineiro, pobre e fodido, não reparou no filhotinho e acabou cortando-o junto da grama? Na minha cabeça, a melhor das hipóteses é que um gato ou cachorro de rua o tenha comido. Ficaria feliz se soubesse que foi esse o destino do filhote.
Contando dessa forma, pode parecer que esse evento teve uma duração maior do que a que de fato teve. Todo esse desenrolar de emoções aconteceu no intervalo de alguns segundos, quiçá minutos. É incrível como Deus — força abstrata, aleatória, inanimada e retórica sobre a qual colocamos a responsabilidade de tudo que é bom, impressionante e incompreensível — nos mostra coisas que não queremos ver das formas mais cruéis e repentinas.
Depois dessa historinha, o caro leitor pode pensar — com razão — que é óbvia a origem dessa minha fobia.
“Essa memória, de fato traumática, faz com que você tenha medo que ela se repita, por isso a questão com pombos. Isso, além da projeção que você faz.” É o que mais ouço.
“A demonstração da fragilidade da vida te comoveu e rompeu seu estado de letargia quanto à morte. Isso faz com que você sinta repulsa da ideia da repetição desse evento traumático.” É o que eu pensei de início.
“Fresco!” Também é comum.
Compreendo e, até certo ponto, concordo com afirmações desse tipo. Mas acredito piamente que o verdadeiro trauma não foi simplesmente a experiência da quase morte do pombo ou do abandono; não. Em primeiro lugar, o que me traumatizou foi a constatação de que toda a coragem que utilizei para entrar no meio do tráfego e resgatar aquele animal não estava relacionada a salvar o bicho ou fazer uma boa ação. O que me motivou foi a vontade egoísta de encerrar o sofrimento que aquela situação me causava. Kant com certeza desaprovaria. O que me motivou não foi o ímpeto de salvar uma vida, pois isso poderia ter sido feito antes de o maldito SUV acertar o filhote. Na verdade, minha ação foi motivada pelo ímpeto de evitar um desconforto que, com o atropelamento, havia se tornado insuportável. Porém, agora que adquiri novas referências, hoje em dia outro ponto me vem à mente quando reflito sobre esse episódio.
A vida perturba o funcionamento da cidade, e não o contrário; não é a cidade que atrapalha nossa vida na cidade, são os seres vivos que, apesar de serem o combustível desse organismo, atravancam seu funcionamento. Cidades não são lugares para bichos, não são lugares para plantas, não são lugares para seres humanos; cidades não são lugares para a vida em geral. Os frutos das poucas árvores que restam sujam a tão buscada limpeza das cidades; a pequena variedade de pássaros defeca sobre capôs e para-brisas de objetos que valem anos de trabalho; rios só são aceitáveis quando contidos, encanados e commoditificados; animais não passam de pragas portadoras de doenças e inconveniências; áreas que ainda não foram exploradas são apenas “reservas” para quando for necessário; seres humanos, suas necessidades e possibilidades, são tão valiosos quanto um pedaço de lenha para um fogão. A vida só é aceita quando não é viva.
Lutamos para manter tudo que não é vivo: a indústria; a cidade; o sistema político; a economia; as instituições; os sistemas; os métodos; a informação; a autoridade; a guerra e a paz; o crime e o castigo; Le Rouge et le Noir.
Isso é perfeitamente compreensível, até porque, como já disse, a cidade não comporta o que é vivo. Devido às restrições de tempo e oportunidade impostas pelo modo de vida que, por sua vez, também nos é imposto, essa entidade esotérica conhecida como indivíduo se vê presa entre seres humanos e concreto. O mais completo deserto de oportunidades de interação, contemplação, abstração e experiência humana. Praticamente sem outras vidas com as quais compartilhar a sua, a sensibilidade míngua e se esvazia; a dureza cruel se manifesta em sua excelência devido à forma brutal com que o ser humano é tratado. A partir daí, talvez devido à nossa fantástica capacidade de nos adaptar ao ambiente, coisas não vivas se tornam a prioridade de nossos esforços e experiências.
Para manter coisas não vivas (valores, Estado, segurança, posse, dinheiro, status…): matamos quem quer que seja; traímos quem quer que seja; roubamos o que quer que seja; violentamos quem/o que quer que seja; mentimos sobre o que quer que seja; morremos por o que quer que seja; fazemos o que quer que seja.
Temos tão pouco contato com a vida que isso nos dessensibiliza para ela. Ignoramos, impedimos e repudiamos qualquer uma de suas expressões para evitar inconvenientes. Raiva, amor, paixão, fé, alegria, afeto, compaixão, tristeza. Ideias desse tipo não passam de estorvos para o funcionamento da cidade e daqueles que nela vivem. Já que se tem certeza de que não se vai amar e nem ser feliz, é racional que se deixe de até mesmo considerar essas possibilidades e se afastar daquilo que lembra elas.
Eu deveria esquecer o filhote de pombo, fazer como Winston e tomar gim enquanto sinto o mais verdadeiro e satisfeito amor pelo Grande Irmão. É isso que me pede o lugar onde eu vivo e algumas pessoas com quem convivo, mas, apesar de compreender que aceitar e me juntar ao time que está “ganhando” é a escolha mais lógica e rentosa, talvez por um masoquismo meu, ou um defeito de fábrica, me recuso a esquecer o passarinho. Me recuso a esquecer o passarinho porque ele me mostrou mais coisas do que eu queria ver, e me mostrou coisas que ninguém poderia me mostrar. Mas, mais do que tudo, me mostrou coisas sobre mim que sozinho jamais conseguiria acessar.
Poucos segundos, mas muitas emoções. Confesso que, na hora, nem mesmo percebi a ironia em deixar um passarinho sem ninho na frente de uma imobiliária. Tampouco pensei em como agi exatamente como a cidade que tanto detesto ao me preocupar com o bem-estar do animal apenas quando a sua desgraça começou a me incomodar. Não esquecerei o pássaro porque, a cada dia, quero me distanciar mais e mais daquele homem que colocou o filhote no meio das plantas ao sabor da sorte. Não esquecerei, pois a lembrança do pombinho me ajuda a tirar a cidade de mim enquanto eu não posso sair dela.
Sonho com o dia que vai chegar, em que poderei ver um pássaro morto e não ficar triste, pois ele não morreu atropelado, ele não morreu sob uma marquise.
Sonho com o dia em que os pássaros vão fazer ninhos perto de mim, criar seus filhotes onde moro e cantar como quem ri.
Quando meu sonho se realizar, se um dia um filhote, longe do ninho, eu encontrar, prometo: não vou colocá-lo no mato para algum bicho devorar. Prometo cuidar dele até ter certeza de que já pode voar.
Mas tudo isso — não aqui, não nesse lugar.
Quando estiver com os passarinhos, estarei onde não tiram nossa vida antes mesmo de nos matar.
Que fiquem os prédios, que vivam as pessoas, até mesmo as estradas podem ficar — mas as cidades, como grande prisão do corpo, da alma, da mente e do coração, como forma de controle e organização — essa, essa nós precisamos abandonar.
메타데이터
- post_id
- 4eafd3fd75cc
- slug
- eu-um-pombo-e-a-cidade-4eafd3fd75cc
- url
- https://medium.com/@lucasfahl/eu-um-pombo-e-a-cidade-4eafd3fd75cc
- canonical_url
- https://medium.com/@lucasfahl/eu-um-pombo-e-a-cidade-4eafd3fd75cc
- author_url
- https://medium.com/@lucasfahl
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-27 09:24:25