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Imagine uma escola pública onde seus filhos realmente aprendessem…

A realidade da educação pública no Brasil é alarmante. Dados recentes do PISA — exame internacional que avalia o desempenho educacional —…

Paulo Cacto · 2025-06-08 14:58 · 1 claps · 4.7 min read
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Imagine uma escola pública onde seus filhos realmente pudessem aprendessem…

A realidade da educação pública no Brasil é alarmante. Dados recentes do PISA — exame internacional que avalia o desempenho educacional — colocam o Brasil na 65ª posição em matemática, entre 81 países. Em leitura, ocupamos o 53º lugar. Esses números, divulgados pelo site da Agência Brasil, são o retrato de um sistema que há muito tempo não evolui. E quem está dentro das salas de aula não vê perspectiva de melhora.

Professores, sobrecarregados com tarefas que ultrapassam o ensino, enfrentam o descaso, a ausência de reconhecimento e, o mais grave: a perda de autoridade.

Agora, eu te pergunto sinceramente: Você colocaria seus filhos nessas escolas?

O problema da escola pública brasileira está longe de ser resolvido. A ideia de que valorizar o professor se resume a aumentar salários e oferecer formação está equivocada — embora, ironicamente, nem isso se tenha de fato. Mas mesmo que o Estado resolvesse essas duas questões, isso ainda não resolveria os problemas centrais da aprendizagem dos alunos. Grande parte dos obstáculos está fora da escola: na família, na comunidade, no cotidiano do aluno.

Contudo, oferecer salários dignos, formações periódicas e até mesmo licenças remuneradas para cursos de mestrado e doutorado seria um passo importante. Isso não solucionaria a crise da educação, mas traria dignidade e qualidade de vida para quem alfabetiza e forma todas as outras profissões do país.

Valorização vai além de salário. É também respeito. E é profundamente desmotivador entrar em uma sala de aula e não ser respeitado. Ter o quadro apagado enquanto ainda se escreve. Ver alunos saindo da sala sem autorização. Ser agredido verbal e até fisicamente. Pedir para um aluno trocar de lugar e ser ignorado. Perder metade do tempo da aula apenas tentando conter o caos. Como ensinar, nessas condições, o básico a quem deseja aprender?

Se apenas os alunos desinteressados fossem prejudicados, talvez você até pudesse pensar: “Cada um escolhe seu caminho”. Mas essa desordem atinge o professor, que adoece. Adoece de verdade. Estafa, burnout, depressão, crises de ansiedade — doenças emocionais que afastam muitos da sala de aula. Alguns voltam, mas são readaptados porque já não conseguem mais enfrentar essa rotina. Pior: a saúde mental raramente volta ao estado anterior.

Já presenciei professores entrarem em crise de choro só de se aproximarem da porta da sala. Quem está de fora não tem ideia do que se passa ali dentro. Muitos pensam que os alunos estão em silêncio e que o professor não quer ensinar. Nada mais distante da realidade. Imagine, agora, o tempo perdido com alunos que sequer levam a mochila para a escola. Sim, há casos em que o aluno simplesmente esquece ou deixa de propósito. Há casos onde o aluno leva até travesseiro pra dormir. Agora pense: o que ele fará lá dentro?

E os pais? O que fazem quando são chamados à escola por conta do mau comportamento dos filhos? Nos melhores cenários, nada, porque em alguns se viram contra os educadores. E assim, a escola vira um campo de batalha diário.

E os alunos que querem estudar, onde eles se encaixam nisso tudo?

Sim, eles existem. E são os mais prejudicados. São aqueles que levam o material, fazem as tarefas, têm pais presentes, estudam, perguntam, participam. Mas perdem metade da aula esperando o professor lidar com quem não quer nada com a escola. Eles são punidos da pior maneira: com a poda do conhecimento. É injusto. Porque vieram para aprender, mas recebem menos atenção do que aqueles que todos os dias interrompem o processo educativo.

E se houvesse uma solução?

Falamos aqui de vivências reais de sala de aula: do professor, dos alunos desinteressados, dos que querem estudar, do tempo perdido e das consequências para todos. Mas e a solução?

Além da valorização financeira, há um ponto basilar que precisa ser enfrentado com coragem: a disciplina. Sem ela, não há pedagogia que funcione. Nenhum método dá resultado num ambiente caótico. Nenhuma metodologia inovadora será eficaz onde reina o desrespeito. Escola não é lugar para fumar maconha, sexo, usar drogas ou agredir professores. Parece óbvio, mas é preciso dizer.

Se um extraterrestre viesse à Terra e observasse nossas escolas, diria: antes de pensar em qualquer inovação pedagógica, resolvam o problema da disciplina. Porque isso é urgente, visível e absolutamente negligenciado.

Mesmo assim, há quem pense diferente. Nesta primeira semana de junho de 2025, por exemplo, a ONU recomendou que o Brasil proíba as escolas cívico-militares. A recomendação partiu de um parecer motivado por parlamentares de SP, e eu ficaria surpreso se algum deles tivesse filhos matriculados em escolas públicas.

O que vemos, com frequência, são políticos e militantes contrários às escolas militarizadas, mas com filhos estudando em escolas particulares. Gritam contra a privatização do metrô, mas andam de carro com motorista pago com dinheiro público. Lutam contra a presença de policiais nas escolas, mas têm segurança armada 24 horas. E com a educação não é diferente.

Eu mesmo, com salário bem abaixo de qualquer político, pago escola particular para minha filha. Não por escolha, mas por não ver alternativa. Pago duas vezes: nos impostos e diretamente à escola. E ainda banco plano de saúde — mas isso é assunto para outro texto.

Se a disciplina é o primeiro passo para salvar a escola pública, por que ela incomoda tanto?

Talvez porque ela exija algo que muitos evitam: responsabilidade. Responsabilidade dos alunos, que precisam compreender que a escola não é uma extensão da rua. Responsabilidade dos pais, que devem educar em casa e não transferir para o professor o papel de figura paterna, materna, conselheira, psicóloga, assistente social e, ainda assim, pedagoga. Responsabilidade do Estado, que precisa garantir meios para que a escola funcione — com infraestrutura, apoio psicológico, mediação de conflitos e segurança. E, sim, responsabilidade dos educadores, que não podem mais fingir que está tudo bem, nem romantizar um sistema falido.

A verdade é que muitos evitam a disciplina porque ela expõe as fragilidades de um modelo permissivo, frouxo e ineficiente. Um modelo onde o erro é sempre da escola, nunca da família. Onde os direitos dos alunos são exaltados, mas seus deveres são ignorados. Onde exigir respeito virou autoritarismo, e manter a ordem, opressão.

O que é mais opressor do que condenar gerações inteiras à ignorância?

A disciplina não é inimiga da liberdade. Ao contrário: é sua base. Nenhuma liberdade pode florescer onde reina o caos. Nenhum aprendizado pode prosperar onde o professor é refém da indisciplina. Nenhum país pode crescer quando sua escola pública apenas reproduz a exclusão que deveria combater.

Portanto, se queremos de fato imaginar uma escola pública onde nossos filhos aprendam — e não apenas sobrevivam — , precisamos parar de tapar o sol com a peneira. Precisamos resgatar o valor da autoridade do professor. Precisamos unir esforços para recuperar o prestígio da sala de aula. Precisamos entender que respeito, disciplina e aprendizagem caminham juntos.

Enquanto fingirmos que o problema está apenas na metodologia, ou no currículo, ou na formação docente, estaremos apenas enxugando gelo. É hora de encarar o óbvio: sem disciplina, não há educação que funcione.

E a pergunta que fica é: Quantas gerações ainda vamos perder até admitirmos isso?


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