A padaria e a Tabacaria
Ele chega trêmulo, cambaleante — assim se constituem seus passos. Imagino que por alguma questão de saúde. Conheço, tenho certeza, gente…
A padaria e a Tabacaria
Ele chega trêmulo, cambaleante — assim se constituem seus passos. Imagino que por alguma questão de saúde. Conheço, tenho certeza, gente mais velha que ele em melhores condições físicas. Na padaria, ele já não precisa ir ao balcão para pedir ou retirar o pedido. Senhor dos seus hábitos, soberano dos seus desejos, come religiosamente um pão com manteiga e um pingado em copo americano.
Sou avesso à ideia de líquidos quentes em copo; ensinaram-me tarde essa lição que rigorosamente aprendi: copos sem alça para líquidos frios, copos com alça — xícaras — para os quentes. Sei que há, por exemplo, copo de cerveja para líquidos muito gelados e uma infinidade de taças. Cada líquido tem seu copo.
Ele também me acompanha no restaurante. Lá, mesmo esse Luís XIV do hábito, levanta-se e, com auxílio de uma das atendentes, dita sua refeição diária. Come ali, fora de casa, como eu. Não tenho ido à minha cozinha. Ainda a temo. Vou pouco ao mercado — mais por necessidade severa do que por zelo comigo. Acabou o papel? Vou. Os produtos de limpeza se esvaíram? Vou. Não porque gosto, mas porque tenho de ir.
Penso se ele vai ao mercado. Na acessibilidade do trajeto. Se lá o ajudam e o chamam pelo nome: bom dia, Seu Carlos.
Faço refeições com os alheios. Tenho ido mais à padaria do que à Tabacaria. Em ambas acontece o mesmo: descubro que não sou nada e me pergunto sobre todos os sonhos do mundo. Seu Carlos me faz pensar na brevidade; no amanhã; no privilégio do amanhecer; na solidão.
Ontem tive concerto. Seu Carlos não pode me acompanhar nas minhas refeições musicais, que agora começam a rarear diante das datas festivas. Um concerto que regi — de samba. Gosto quando as coisas fazem sentido no palco; quando os gêneros antes marginalizados sobem ao palco do Teatro e tomam de assalto nossa atenção. Não deixe o samba morrer na voz lírica de um mezzo-soprano. Confesso que quis chorar, que me emocionei, mas não soube muito bem sobre o quê. Tenho buscado, nestes dias, lágrimas sorrateiras. Sinto vontade de chorar, mas não choro. Falta-me água.
Por qual dor se chora? Qual dor faz o oceano de dentro transbordar pelos olhos? Só uma ciência, a ciência da história ecoa na minha mente.
Será que Seu Carlos chora? Será que me observa na padaria, de esguelha, tentando adivinhar o que leio? Será que me vê e pensa que estou só? Descubro que talvez eu não seja nada diante de Seu Carlos — que sou apenas transeunte, parvo, coro, alheio; síntese da não-companhia.
Na padaria encontro a Tabacaria, e não há mendigo que não me inveje só por não ser eu. Sou velho o suficiente para saber quem sou e o que serei. No meu café silencioso com Seu Carlos, hoje havia uma moça simpática, faceira. Ela chama todo mundo de amor, talvez porque queira fazê-los amor, ou para trazer um pouco da positividade do sentimento a este mundo que nos cerca.
No caixa: “Amor, a conta, por favor.” Às atendentes: “Não precisa limpar a mesa, amor, já limpei com o guardanapo.”
Observo aquilo com os ouvidos, olhos no livro, e me pergunto se o amor dela sabe dos outros amores. Talvez ela seja do time dos amores necessários e dos amores contingentes.
Ontem, no Theatro, não havia ninguém para me ver. Não porque eu não convidara — convidei. Mas, dada a quantidade de concertos, é pouco possível acompanhar-me em todos. O Theatro estava lotado, casa cheia. Todo mundo quer ouvir samba.
Regi, mas ninguém me viu. Recebi aplausos e congratulações tímidas após o concerto. Faz parte. Há concertos que tocamos e que nos tocam do início ao fim. Outros são para a plateia, para o público. Há concertos — e há consertos.
O concerto de ontem desconcertou minha solidão. Perguntei-me onde estavam todos e todas que convidei. Descobri que fiz pouca manutenção das amizades, que não fiz convites suficientes, que não chamei todos de amor. Não chorei.
Foi um concerto bonito, alegre. Do povo e para o povo. Não chorei. Regi e assisti. Voltei para casa e dormi. Tomei café com Seu Carlos e lhes escrevi este texto.
Parece que tenho participado da existência para a não-plateia. Para os Seus Carlos hipotéticos que dividem meu tempo e espaço sem saber que existo, que escrevo, que como, desejo e pulso.
Queria ser como Esteves, sem metafísica. Todavia, sou prenhe de desconforto. Sou a ostra infeliz que não faz pérola.
“Me botaram pra trabalhar na roça a vida inteira. Trabalhar feito um jumento pra, no fim… nada! Nenhum capinzinho fresquinho, nem uma cenourinha, só grama! Grama seca! Vai ver que é por isso que de vez em quando me chamam de burro.”
Quisera eu ter a inteligência de um Jumento e a caneta de um Chico Buarque.

O velho guitarrista cego — Picasso
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