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Celebrando o tempo pascal: ideias e recursos

ESTUDOS PASCAIS: INTRODUÇÃO

𝖁𝖎𝖆 𝕸𝖊𝖉𝖎𝖆 · 2026-04-19 03:04 · 51 claps · 9.8 min read
#páscoa #liturgia #teologia-bíblica #patrística #anglicanismo
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Celebrando o tempo pascal: ideias e recursos

ESTUDOS PASCAIS: INTRODUÇÃO

Olá!

Já faz um breve tempo desde o meu último texto, e vale aqui uma explicação para esse breve sumiço, sendo que construímos o clima para a Páscoa por tantos meses.

Na verdade, não é uma explicação, é um pedido de desculpas. Simplesmente acabei focando em outras coisas e me distraí.

Quando comecei a escrever mais ativamente no Advento de 2025, eu tinha um plano ambicioso de terminar na semana das Oitavas da Páscoa com um texto por dia, porém conforme as quadras foram acontecendo, eu fui mergulhando nos textos e temas que me vinham ao coração, e quando a Quaresma chegou, eu fui ainda mais fundo nas minhas próprias questões.

Eu demorei para chegar ao texto que queria soltar no Domingo de Páscoa, e quando percebi estávamos na Vigília Pascal, e eu simplesmente ainda não havia digerido o tema do texto o suficiente para escrever. Era o momento propício para soltá-lo, já que ele parte do encontro de Cristo com Maria Madalena, e amarra muitas das coisas que eu vivi na Quaresma. Era o final perfeito.

Porém, não consegui amadurecer o texto para a ocasião. Além disso, foi um domingo extenso na minha paróquia, voltei para casa tarde, e enquanto estávamos nas Oitavas da Páscoa, meu trabalho como professor foi intenso, uma semana atípica de atribuições que me impediram de mergulhar nessa semana com densidade.

A coisa foi tão rápida que não fiz até agora minhas tradições de Páscoa: rever meus filmes de Páscoa, ouvir o Precônio Pascal, comer minha columba pascal, não fiz nada além de fazer uns desenhos e ouvir as duas playlists que montei para a Páscoa (mas eu acertei em cheio nelas, não ouço outra coisa!).

Ou seja, eu simplesmente não consegui observar as Oitavas da Páscoa. A semana passou, e quando eu vi já estávamos no 2º Domingo da Páscoa.

Eu não consegui me organizar para escrever, e escrever costuma ser a forma fundamental da minha alma manter a direção: quando eu escrevo sobre algo, eu estou pensando nela, e pensando nela, ela aflora em mim no dia a dia. Escrever pra mim é o gesto mais pessoal e básico de adoração que eu tenho. Escrever pra mim é meditar, é orar, é elevar a mente a Deus, deixar que Ele a encha, é ser um com o Espírito Santo.

Não podendo escrever, não consegui manter a mente centrada nos mistérios pascais do Senhor, e na verdade acabei me esquecendo que meu plano original era expandir textos antigos meus e postar um para cada dia da Oitava. Por ter me esquecido disso, acabei desistindo de escrever porque na minha cabeça tinha proposto a mim mesmo escrever textos novos.

Mas isso é parte da verdade. A real é que a Páscoa trouxe um tempo de renovação pra mim que eu não esperava. O sermão do Domingo da Páscoa virou uma chave na minha cabeça de que eu precisava voltar a me abrir para algumas coisas, e eu senti vontade de retomar algumas coisas que eu havia pausado na Quaresma, e outras no Advento!

E foi o que eu fiz. Revisitei coisas simples e enfrentei memórias incômodas de 2025. Voltei a sair. Fui ao cinema muitas vezes. Gastei com livros que queria há muito tempo (nisso eu me arrependi, admito), e nesse meio tempo me despedi com dor da turnê atual da Lady Gaga (sim, vou falar disso, e em breve escrever sobre, porque vocês devem muito desse blogo a ela!). E é bom lembrar que passei as últimas duas semanas cadastrando 300 adolescentes no site do Governo. Isso desconcentra qualquer um.

Além disso, acho que meu coração precisava de um descanso. Eu escrevi muito do Advento pra cá, e os textos da Semana Santa foram extensos e trabalhosos! Eu admito que estava exausto depois do texto sobre a Eucaristia.

Eu só queria aproveitar o Domingo da Páscoa com minha comunidade, curtir esse momento em família, e processar as mudanças na minha vida.

Porém sinto que preciso retomar a escrita. Já está começando a transbordar de novo em mim, e antes que a Quadra passe, decidi tomar esse feriado prolongado (vantagens de ser professor!) para retomar a produção e botar os espíritos de vocês na direção certa para a Páscoa!

E na verdade eu já tenho planos para os dez dias antes do Pentecostes, e estou tentando lembrar o que eu queria postar no Domingo de Pentecostes. Não só isso, mas quero escrever para o Mês do Orgulho e homenagear James Dunn também. Tenho muitos planos ainda!

Porém, nosso foco agora é a Páscoa, e é sobre ela que vamos nos debruçar aqui!

A Páscoa, enquanto centro do ano litúrgico cristão, não é apenas um dia, mas uma quadra que celebra o mistério da paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus. A palavra “Páscoa” deriva do hebraico Pesach, que significa “passagem”. Com raízes judaicas antigas, o festival foi ressignificado por cristãos logo cedo, que já no século I a observavam (cf. 1Cor 5,7–8), e que já no século II causava disputas a respeito da data correta. A consolidação da festa ocorreu no Concílio de Niceia (325 EC), que definiu que a data seria celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia do equinócio de primavera no hemisfério norte.

Enquanto a sociedade civil considera a Páscoa apenas o Domingo da Ressurreição, a Igreja insiste nessa tônica e nesses mistérios por um longo período de 50 dias, começando no Tríduo Pascal, que compreende da Instituição da Ceia do Senhor (Quinta-feira Santa) até as Vésperas do Domingo de Páscoa. Segue-se a Oitava da Páscoa, composta pelos oito dias imediatamente após o domingo, celebrados liturgicamente como se fossem um único dia de festa, e assim dão início ao Tempo Pascal, um período de 50 dias que se estende do Domingo de Ressurreição até o Domingo de Pentecostes. A ideia central e teologia baseiam-se na celebração e instrução a respeito dos mistérios pascais; é agora que aqueles que foram catecúmenos durante toda a Quaresma, enfim participam plenamente dos mistérios e da fé da Igreja, da sua mistagogia, de modo que a Páscoa é a “Festa das Festas”. Toda a vida da Igreja, a partir de então, passa a ter como tônica, como tom, a vitória de Cristo sobre os poderes da morte e a participação na vida de Cristo através da Escritura, da oração comum, dos sacramentos e dos demais ritos da Igreja, para o cumprimento da nossa missão.

Grande parte desse tom não existia antes do Concílio Vaticano II (1962–1965) e a subsequente reforma litúrgica de Paulo VI, que trouxeram mudanças significativas para enfatizar a unidade do mistério. Houve a restauração da Vigília Pascal, recuperando a importância da celebração noturna de sábado como a “mãe de todas as vigílias”. Estabeleceu-se a unidade do Tríduo, pois antes a Quinta, Sexta e Sábado eram vistos como celebrações isoladas ou devocionais, sendo a partir Vaticano II consideradas como uma única unidade litúrgica contínua, além de uma ênfase batismal na Quaresma que reforçou a Páscoa como o tempo por excelência para o batismo de adultos e a renovação batismal dos fiéis.

A liturgia pascal utiliza elementos e imagens tradicionais com significados próprios. O Círio Pascal, aquela vela de grandes dimensões que só acendemos na Páscoa, representa Cristo, a “Luz do Mundo”, sendo acesa no fogo novo durante a Vigília e permanecendo no presbitério durante os 50 dias. A água é o símbolo de purificação e novo nascimento pelo batismo, enquanto o Cordeiro (Agnus Dei) é a referência ao sacrifício de Cristo que cumpre o cordeiro pascal da tradição antiga. O branco e o dourado são utilizadas por simbolizarem alegria, pureza e a glória da ressurreição. Além disso, o Aleluia, aclamação omitida durante toda a Quaresma, retorna de forma solene como o canto característico deste tempo, bem como o Gloria.

Além da liturgia oficial, a quadra pascal é rica em práticas devocionais e expressões de piedade popular que variam conforme a cultura. A Via Lucis (Caminho da Luz) é uma devoção moderna, análoga à Via Sacra, que medita sobre as 14 aparições de Jesus ressuscitado até a vinda do Espírito Santo. Há também as Procissões do Encontro, comuns em países de tradição latina, que encenam o encontro de Jesus ressuscitado com sua mãe, Maria, e a tradicional Visita às Igrejas realizada na noite de Quinta-feira Santa em adoração ao Santíssimo Sacramento. Muitas dessas práticas refletem uma época em que a Páscoa era fragmentada. Se nos primeiros séculos a Páscoa era a única festa cristã anual, no século IV, o Tríduo começou a se fragmentar para cronometrar os eventos históricos da Paixão e, na Idade Média, o foco tornou-se muito visual e focado no sofrimento da Sexta-feira Santa, chegando a ser algo mórbido.

A Reforma se colocou contra essa ênfase ascética na Paixão, que considerava os sofrimentos de Cristo não como dons e fonte de salvação, mas como obras a serem imitadas. Lutero defendeu desde sempre que a Igreja havia esvaziado o Evangelho de sua graça. Contudo, no século XX, o movimento litúrgico e o Vaticano II resgataram o equilíbrio desejado pela Reforma, trazendo o foco de volta para a Ressurreição como o ponto culminante, e não apenas o sofrimento da Paixão.

Nesse espírito, eu trabalho com a premissa de que a quadra da Páscoa não é uma celebração da ressurreição de Jesus, e sim dos mistérios pascais do Senhor como um todo sob o prisma da ressurreição: não é um tempo de falar apenas da ressurreição, mas de celebrar a plenitude dos mistérios proclamados pela pregação cristã primitiva, a paixão, o sepultamento, a ressurreição, as aparições, a ascensão e o envio do Espírito da parte do Cristo exaltado.

Esses são os temas fundamentais da pregação cristã primitiva.

Pegue, por exemplo, o livro de Atos dos Apóstolos, que apresenta muito da pregação cristã primitiva. No centro dela sempre temos um testemunho (At 1,8) tendo por objeto a morte e a ressurreição de Jesus (2,24) e sua exaltação (2,33.36). Junto também aparecem pormenores sobre sua missão, anunciada por João Batista (10,37; 13,24), preparada por seus ensinamentos e milagres (2,22; 10,38), concluída pelas aparições do Ressuscitado (10,40–41; 13,31), e a efusão do Espírito (2,33; 5,32). Em todas as narrativas, sempre são abertas perspectivas mais largas, explícita ou implicitamente, mergulhando no passado pelas profecias do AT (2,23.25) e olhando para o futuro: a chegada dos tempos messiânicos carrega consigo um apelo à conversão que alcança tanto judeus quanto gentios (2,38), sempre tendo em vista a Parusia (3,20–21).

É por isso que a Páscoa é uma celebração da plenitude desses mistérios, não apenas da ressurreição. Na Páscoa nós revemos toda a saga de livros após o lançamento do seu desfecho. É impossível separar esses eventos do tema do “mistério de Deus”, como argumentei aqui:

Até porque isolar os temas não faz sentido em termos de teologia bíblica. Todos os temas bíblicos só fazem sentido à luz da ressurreição, porque ela muda a própria forma de lermos o mundo, é a própria base da fé cristã, não algo numa lista maior de proposições, isso porque a ressurreição é a subversão fundamental de todo o paradigma escatológico que vemos na apocalíptica judaica. Todas as demais mudanças são resultado disso, como argumentei aqui:

É verdade que a trama toda é mais longa. Ela começa na reflexão sobre o mistério da Encarnação que celebramos no Natal, e a respeito do qual escrevi algumas vezes:

Também já escrevi bastante sobre a natureza da salvação trazida por Cristo. Eu enfatizo bastante o motivo Christus Victor, como já elaborei antes:

Diferente do que muitas pessoas pensam, não se trata de uma teoria da expiação, mas de um tema teológico que apresenta a obra de Cristo a partir de imagens de guerra e batalha. Para entender a natureza dessa batalha, é importante se aprofundar no assunto dos anjos e demônios a partir da Escritura:

Falamos também do ministério público de Cristo, do seu batismo, tentações e pregação, e especialmente sobre a Semana Santa, desde sua última pregação pública, até a instituição da Eucaristia, sua Paixão e sepultamento:

Essa não é a única imagem presente no Novo Testamento, como ilustrei em três textos antigos meus que pretendo revisar esta semana:

A minha crítica à teoria padrão entre os evangélicos, a Teoria da Substituição Penal, veio recentemente num texto à parte, onde defendo uma outra teoria da expiação:

A forma central de participação nesses mistérios, na teologia cristã, é através da vida sacramental, notadamente a Eucaristia, a respeito da qual já escrevi algumas vezes:

A vida sacramental nos nutre enquanto esperamos o retorno de Cristo, a respeito do qual escrevi algumas vezes:

Esses são os temas fundamentais que moldaram a pregação pública da Igreja, a chamada “Grande Tradição”, que eu já expliquei nos seguintes textos:

Na verdade, eu já publiquei uma série comentando a partir da patrística esses temas fundamentais da pregação da Igreja pós-nicena:

Eu desenvolvi esses temas mergulhando sempre em muita dose de tipologia, e já expliquei e exemplifiquei isso algumas vezes:

A Quaresma era o tempo da preparação. O verdadeiro tempo de buscar ao Senhor é agora. É o verdadeiro tempo de fazer vigílias, jejuns, leituras bíblicas, devocionais, frequentar a paróquia, contemplar o Sacramento e os ícones, escrever, publicar, cantar, enfim, celebrar os mistérios da nossa salvação!

Estamos na Páscoa, é tempo de celebrar os mistérios da nossa fé! E espero que esses textos, a participação na Eucaristia e a meditação nas Escrituras e a oração elevem seu coração para a alegria da ressurreição!

Cristo ressuscitou!

Verdadeiramente o Senhor ressuscitou!

Aleluia!


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