Adaptação do cenário de campanhas feministas perante a crise de COVID-19
Em 2020, o mundo inteiro está passando por um momento totalmente atípico. A pandemia de COVID-19 obrigou a todos a repensarem seus hábitos…
Adaptação do cenário de campanhas feministas perante a crise de COVID-19
Em 2020, o mundo inteiro está passando por um momento totalmente atípico. A pandemia de COVID-19 obrigou a todos a repensarem seus hábitos no dia a dia. Além das questões de higiene, muitas pessoas estão trabalhando em regime home-office, para diminuir a propagação do vírus na população. Com essa situação, várias mulheres estão vivendo em suas casas com uma jornada de trabalho muito maior. Se antes conseguiam deixar de lado os afazeres do lar ao sair de casa para trabalhar, agora, todas as funções se misturam, pois não há mais separação entre profissional e o trabalho doméstico. Além do aumento de responsabilidades, um outro fato se torna ainda mais preocupante: mulheres que sofrem violência doméstica precisam passar 24 horas por dia ao lado de seus agressores, sem contato com o mundo de fora e sem poder contar para mais ninguém sobre o que estão passando. Infelizmente, essas situações não serão abordadas profundamente nesse texto, pois sei que não possuo conhecimento suficiente para falar sobre o assunto. Entretanto, a preocupação com essas circunstâncias estão fazendo com que várias “campanhas feministas” sejam criadas para tentar ajudar essas mulheres da melhor forma possível.
Com o cenário atual da pandemia, grupos feministas estão tendo que repensar a forma com que divulgam suas campanhas. Se antes podiam sair às ruas com seus cartazes, se dirigir a comunidades carentes para fazer workshops e dar palestras, hoje é necessário uma abordagem diferenciada, prezando pelas restrições e particularidades que a pandemia impõe, mas que ainda assim consigam atingir o maior número de mulheres possíveis. Porém, essas mudanças não acontecem do dia para a noite, já que é preciso avaliar qual a melhor maneira de dar continuidade aos seus projetos com os recursos que estão disponíveis no momento.

Antes da pandemia, a Coletiva Motim Feminista (@coletivamotimfeminista), promoveu uma roda de conversa na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que teve como objetivo informar sobre a Reforma da Previdência e o impacto que teria na vida das mulheres.
Alguns grupos estão recorrendo à um meio que está sendo bastante utilizado durante o isolamento social, que são as transmissões ao vivo, mais conhecidas como lives. Tal recurso é bem importante em tempos como esse, pois qualquer pessoa que possua um celular ou computador e que tenha acesso a internet, conseguirá transmitir ou assistir à a alguma live. O design nesse caso, pode ter o papel de divulgar essas transmissões através das redes sociais, para que o maior número possível de pessoas sejam alcançadas.
Coletiva Motim Feminista — #EntrelaçadasporTodas
A Coletiva Motim Feminista é um grupo formado por mulheres que tem como seu principal objetivo atuar na luta contra a desigualdade entre homens e mulheres, algo que, infelizmente, ainda ocorre em nossa sociedade, além de buscar fortalecer as mulheres de Mossoró, cidade na qual o grupo se concentra. A Coletiva é composta por mulheres de diferentes classes sociais, diversas raças e etnias, idades, sexualidades e identidades. Têm como princípio ser uma organização totalmente antipatriarcal, anticapitalista e antirracista.
Em suas redes sociais, o grupo se posiciona em relação a diversos assuntos através de suas postagens com artes elaboradas e textos explicativos, além de promover muitos encontros para a realização de workshops e rodas de conversas sobre assuntos pertinentes à luta feminista. Entretanto, com o início da pandemia de COVID-19, o grupo precisou ajustar os seus projetos para colaborar com o distanciamento social. Através dessa nova realidade, uma nova preocupação surgiu, pensar em como conseguir ajudar as mulheres chefes de família que perderam seus empregos e única fonte de renda por causa da pandemia. A partir de então, e com a parceria do coletivo Leila Diniz, surgiu a campanha #EntrelaçadasporTodas, que tem como principal objetivo arrecadar renda para a compra de cestas básicas para mulheres negras, mães solos, moradoras de periferia, agricultoras e pescadoras de bairros periféricos de Natal, Mossoró e outras localidades da costa litorânea do Rio Grande do Norte, que estão passando por necessidades. A campanha é feita através de lives com performances de artistas e ativistas, buscando adquirir doações para as confecções das cestas básicas.
“Muitas trabalhadoras informais e desempregadas, não tiveram acesso ao auxílio emergencial e encontram-se sem recursos para suprir necessidades básicas. Os impactos do isolamento social recai, principalmente, sobre a população feminina em estado de vulnerabilidade social”. @coletivamotimfemnista

Divulgação da primeira live com performances de artistas da campanha, realizada no dia 15 de junho de 2020, com a participação de Clara Pinheiro, Khrystal e Dayanne Nunes. Fonte: @coletivamotimfeminista
Através das transmissões ao vivo e das divulgações nas redes sociais, já no primeiro mês da campanha foi possível arrecadar mais de R$4.000,00, mas para atingir a meta de alimentar as 160 famílias durante os três meses que a campanha ficará ativa, será necessário dobrar o valor arrecadado até o momento.

Publicação explicativa sobre os valores necessários para cobrir os custos das cestas básicas. Fonte: @coletivamotimfeminista
Para conhecer mais sobre a campanha #EntrelaçadasporTodas, siga os perfis nas redes sociais: @coletivamotimfeminista e @coletivoleiladiniz
Campanha “Violência Doméstica: precisamos dar um basta nisso”
A Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, em parceria com a coordenadoria estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte, o Ministério Público Estadual (MPE/RN); a Defensoria Pública Estadual (DPE/RN), Governo do RN, Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SESED/RN), Secretaria de Estado das Mulheres, da Juventude, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos — (SEMJIDH/RN), Prefeitura Municipal do Natal, Secretaria de Trabalho e Ação Social, Secretaria de Políticas para as Mulheres e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RN), lançaram no dia 06 de agosto de 2020, a campanha “Violência Doméstica: precisamos dar um basta nisso”. Segundo o parlamentar Ezequiel Ferreira, presidente da Assembléia,
“No Rio Grande do Norte a violência doméstica praticada contra mulheres teve aumento de 258%, chegando a 300% nos casos de violência doméstica em geral. No Brasil, o aumento foi de 40% em relação ao mesmo período no ano passado. E infelizmente os casos de feminicídio aumentaram também”
A campanha teve início com uma live de audiência pública através do canal do YouTube da Assembléia, com o principal objetivo de garantir o acesso de um maior número de pessoas e obter a participação da população através dos comentários da transmissão. Essa foi a primeira vez na história que a Assembléia Legislativa realizou uma audiência pública online, se adaptando às regras das medidas de isolamento necessárias devido a pandemia.

Publicação informando sobre a primeira campanha em ambiente virtual da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte. Fonte: @assembleirn
Durante o tempo de realização da campanha, diversas lives com outros parlamentares serão feitas para tratar de outros assuntos recorrentes da luta das mulheres, principalmente durante a pandemia. Além das múltiplas transmissões de audiência pública no Instagram da Assembléia, estão sendo produzidas várias postagens com informações sobre assuntos relacionados, como também conteúdos para que as mulheres que estão sofrendo algum tipo de violência doméstica e as pessoas ao seu redor possam notar e notificar as autoridades.

Publicação que apresenta as três fases identificadas durante um relacionamento abusivo. Fonte: @assembleiarn

Publicação informando sobre os 05 tipos de violência identificados através da Lei Maria da Penha. Fonte: @assembleiarn
Além da campanha que está em andamento, a Assembléia Legislativa também conseguiu aprovar dois projetos de lei. O primeiro prevê a fixação de cartazes informativos sobre a importunação sexual nos transportes coletivos, crime esse que pode ser praticado contra qualquer pessoa mas possui maior incidência contra mulheres. O segundo projeto prevê a criação de um programa de atendimento à mulher desempregada e chefe de família, no qual serão ofertados cursos profissionalizantes e orientações para a volta da mulher ao mercado de trabalho. Os dois projetos foram divulgados nas redes sociais da Assembléia Legislativa, como também, pelo instagram da deputada federal Eudiane Macedo, criadora dos projetos, e podem ser acompanhados por esses dois perfis.
Para saber mais sobre as campanhas desenvolvidas pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, siga o perfil no Instagram @assembleiarn
A partir dessas campanhas desenvolvidas tanto por coletivos feministas quanto pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, é possível perceber a importância da presença da tecnologia neste cenário totalmente atípico para todos. Também é notável a relevância do design dentro dessas circunstâncias, pois através de campanhas em redes sociais, é possível ajudar mulheres em estado de vulnerabilidade social, como a Coletiva Motim Feminista vem fazendo com grande sucesso, e juntamente, a Assembléia Legislativa, que através de suas publicações, lives e discussões, transmite informações importantes sobre assuntos relacionados à violência doméstica no Brasil. Por fim, é perceptível a habilidade que esses grupos e profissionais precisaram adquirir para se adequar à essa nova realidade em tão pouco tempo, pois em um dos casos apresentados, por exemplo, foi a primeira vez na história que fizeram o uso da tecnologia de transmissão ao vivo para realizar uma audiência pública.
메타데이터
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