Vida e morte de um gato de apartamento
— Boa tarde! Eu vim dar uma aula de reforço para o Miguel do trezentos e dois.
Vida e morte de um gato de apartamento
— Boa tarde! Eu vim dar uma aula de reforço para o Miguel do trezentos e dois.
Com cara de paisagem e de poucos amigos, a única reação do porteiro à informação foi ter a certeza de que Paulinho estava no bloco certo.
— Bloco C? — Perguntou, ríspido.
— Isso. — Respondeu Paulinho, pouco entusiasmado.
Interfonou, confirmou. Podia subir.
O porteiro aparentemente nunca decorou sua cara, porque Paulinho estava ali toda terça e quinta-feira. Aquele prédio sempre fora o seu favorito de Brasília. A arquitetura completamente brutalista e imponente, verde preenchia os arredores. Seu sonho era morar ali, pertinho da famosa quadra com design arquitetônico famoso. Mas jamais aconteceria, sobrou para Paulinho apenas subir o prédio que era seu desejo de moradia duas vezes por semana para dar aula de reforço de gramática para Miguel, o filho da Dra. Elisa e do Dr. Carlos e neto da Senhora Camila. O que sempre impressionou Paulinho foi o fato da avó de alguém se chamar Camila. Que tipo de avó é essa que não tem nome de avó?
Subiu o elevador e quando chegou em frente a porta do trezentos e dois, respirou fundo, criou coragem e tocou a campainha. Odiava dar aulas de reforço para Miguel, pois era uma missão já fadada ao fracasso. Miguel odiava gramática e odiava Paulinho. Nas últimas aulas, começou a perceber que, na verdade, não era nada pessoal, Miguel o odiava não porque odiava gramática, o odiava porque odiava, porque podia odiar, era uma criança nascida em berço de ouro, odiar era consigo mesmo. A tudo podia ter aversão, pois tudo lhe poderia ser dado ou trocado. Era impressionante como os ricos faziam vontades de crianças. As vontades de Paulinho só começaram a ser ouvidas quando ele próprio já ganhava dinheiro para pagá-las. Todas as vezes que subia aquele elevador, tocava aquela campainha e começava a aula, um filme imaginário passava pela sua cabeça. Como deve ser, crescer tendo dinheiro para isso e para aquilo? Como deve ser, poder escolher não aprender gramática e ninguém brigar contigo por isso? Como deve ser, crescer em um lugar arborizado e silencioso? Como deve ser, crescer com um professor de reforço toda semana insistindo para que você aprenda? Como deve ser, existir com escolhas e, ainda assim, não as escolher. Como deve ser, ser alguém que nasceu para dar certo e que não precisa aprender verbo intransitivo direto para isso? Como deve ser, ser o Miguel?
Senhora Camila abriu a porta. O rosto sem expressões fruto de procedimentos estéticos sempre impressionava. E a cada aula de reforço parecia que o rosto ficava mais estático. O corpo da avó de Miguel era esguio e o cabelo preto e comprido. Usava uma saia longa que realçava suas curvas, elegante como se estivesse de saída, joias enfeitavam seus dedos, braços e pescoço. Nos pés, um salto. Perua dos pés à cabeça.
— Boa tarde, professor! Entre. A aula vai ser na sala de jantar, como sempre. Pode aguardá-lo lá mesmo, certo?!
— Certo.
Que tipo de avó é essa que não tem nome de avó e nem fala como avó? Uma avó formada é bem diferente de uma avó que cresceu na roça. Uma avó com doutorado é bem diferente de uma avó com mãos calejadas. Uma avó que já leu Camões e Beauvoir é bem diferente de uma avó que não sabe quem é Camões, tampouco quem é Beauvoir. Uma avó com a pele branca é bem diferente de uma avó com a pele negra. E claro, todo o resto também é diferente. O apartamento da avó de Miguel não tinha aparência de casa de avó, nem cheiro de casa de avó, nem móveis de casa de avó. Toda casa de avó deveria ser confortável, mas o apartamento de Camila não era confortável, era brega, vazio, monocromático e sem vida. Um desconforto bastante espaçoso. Uma casa morta onde habitava uma mulher de cara estática que, provavelmente, não sabia fazer um bolinho de chuva para os seus netos, móveis feios, uma empregada, Neide, presença que Paulinho nunca vira, pois a serviçal nunca saía da cozinha e, o último habitante vivo — ou quase isso — daquele apartamento sem graça, o gato de Camila.
O gato era lívido, de bigodes compridos, gordo e corpulento, tão velho quanto Camila e tão feio quanto o seu apartamento. Apesar da brancura, o gato levava o nome de Machado de Assis. Irônico. Paulinho ficou curioso em saber se sua avó sabia quem foi Machado de Assis, provavelmente não, mas perguntaria. Machado de Assis estava deitado no centro da mesa de jantar, sem reação alguma a não ser por um miado falho e fraco, quase inaudível. Miguel entrou na sala de jantar com a cara de quem acabara de acordar, se arrastando como um zumbi. Soltou uma “boa tarde” quase tão inaudível quanto o miado de Machado de Assis. Como um menino quase sem vitalidade poderia aprender gramática?
Paulinho começou a análise de sintaxe com Miguel. Sujeito e predicado, complemento verbal e nominal, adjunto adnominal, adjunto adverbial e aposto.
— APOSTO, Miguel, com “A”, não oposto.
— Não entendi.
— O que você não entendeu?
— Tudo.
Não entendia o tudo, nem o nada. Criança burra! Tem de tudo e não será nada. Mas continuará tendo de tudo, afinal, é dinheiro quem define o nada e o tudo.
— Vamos lá, novamente. O aposto é…
“Miaaaaaaau!”, a explicação foi interrompida com o miado mais forte que Paulinho ouviu Machado de Assis expressar. Estranho, aquele gato nunca havia tido reação tão viva.
— Ele tá morrendo, professor. Hoje é o derradeiro dia. Tudo que é velho uma hora morre.
“Miaaaaaaaaaaaaaaau”, o miado se fortalecia. “MIAUUUU!” “MIAAAAAU!” “MIAAAAAAUUUUUUU!”. Parecia um pedido de socorro. O gato então começou a se debater e a babar em cima da mesa. Quase uma crise epiléptica.
— Viu! Eu disse, tá morrendo.
Miguel tinha razão, Machado de Assis estava morrendo. Paulinho se apressou em busca de Camila, “D. Camila!, D. Camila!” chamava por entre os cômodos. Na cozinha, encontrou Neide a limpar armários.
— Eeeh, oi. B… boa tarde! O… eh… hum… o… o ga… o gato está morrendo.
— GRAÇAS A DEUS!!!!
Neide foi logo se apressando corredor adentro para contar à patroa a boa-nova. Paulinho ficou estático sem entender a euforia positiva em torno da notícia de que o bichinho de estimação de um lar estava a morrer. Tinha a morte se tornado algo bom e ninguém o avisou, ou Neide apenas odiava o gato? Ou a morte do gato era boa por algum motivo religioso ou algo assim? Um grito fino e seco e desesperado ecoou. Camila agora vinha pelo corredor emitindo pranto de desespero. Uma máscara de argila lhe cobria o rosto. Quando adentrou o cômodo, o gato já estava duro no chão.
— Ai, meu Deus! Não, não, não, nããããããããããããão… cof cof… aiiiii… meu gatinho… Machadinho, acorde, pelo amor de Deus!!!!… cof… Machadinhoooooo!… cof cof cof… meu bebê, acorde!… não pode ser… MACHADO DE ASSIIIIIIIIIIS… cof cof.
Paulinho achou a reação demasiadamente desesperada. Também tinha uma gatinha, Capeta. Recebeu esse nome por não deixar ninguém dormir, sempre subindo no telhado e brigando com outros gatos, ao passo que sua avó a determinou como encapetada. Paulinho sofreria quando Capeta morresse, mas aquela performance de Camila não era uma opção.
— Psiu! — Era Neide chamando da cozinha.
Hesitante, Paulinho abandonou Miguel a contemplar o desespero mórbido da avó com a maior cara de tédio que podia expressar — ou não expressar — e foi ao encontro da empregada.
— Ainda bem que esse maldito gato morreu. Tu viu acontecer, foi? Menino do céu! O bicho era velho demais, meu fih, já tinha o cú frouxo, cagava a casa inteira. E adivinha pra quem sobrava limpar tudo depois? Isso mesmo, a bonitona aqui. Todo santo dia limpando mijo de gato, cocô de gato, pelo de gato… ah, nem! Ninguém merece isso não, ô… como é teu nome mesmo? Paulo. Pois é, Paulo! O gato dava trabalho demais, e ainda é capaz de quererem fazer um enterro para o gato. Vê se pode, enterro pra gato. Vou te contar, viu! Gente rica é tudo cheia de frescura.
A única reação de Paulinho foi uma risada rápida e sem graça.
— E digo mais, Piet… é Pietro, num é? Paulo? E digo mais, Paulo, já tava fazendo hora extra, viu! Eu ouvi dizer de Dona Elisa, filha de Dona Camila, a mãe do Miguel, que esse tal gato, o Machado de não sei o que lá, tá na família desde que ela era pequena. Daí fui perguntar pra D. Camila se era verdade, porque um gato viver mais de trinta anos eu nunca vi. No que eu perguntei, D. Camila ainda aumentou a mentira, disse que o gato era o bicho de estimação do pai dela quando o homem ainda era criança. Isso mesmo, do pai de Dona Camila. Agora me diga, professor Pedro, como é possível um gato viver três gerações de gente. Tenho pra mim que nesse gato habitava era alguma coisa ruim, só pode. Porque não é possível viver isso tudo. E tem mais, Pablo, tu reparou na brancura daquele gato? O bicho parecia o Michael Jackson, esquisito igual. Eu não chegava nem perto, porque vai que um bicho desse, todo adoentado e velho desse jeito passa alguma coisa pra gente. Falo não só de doença, não, falo também de espírito ruim. Sei lá, o gato sobreviveu por mais de oitenta anos. Rapaz…
O monólogo apressado, hiper informativo e um tanto supersticioso de Neide foi interrompido pelo chamado cheio de melancolia da patroa. “Neeeeeide!”. Paulinho apenas ouviu da cozinha o balbuciar de uma ordem, algo sobre pegar um pano ou algo assim. Neide voltou à cozinha apressada.
— Vai levar o bendito gato ao hospital, tu acredita nisso? Vão ver se conseguem ressuscitar o bicho. Olha! Vê se pode um trem desse?
Neide se apressou em direção a outro cômodo e voltou com um lençol nas mãos. Dona Camila enrolou o gato e chamou o neto.
— Vamos, Miguel! Neide, você vem conosco! Precisamos de auxílio nesse momento. Meu Deus! Por que aqueles a quem mais amamos sempre têm de partir tão cedo?
Nesse momento, o olhar direcionado e irônico de Neide o encontrou. A expressão dizia tudo, o gato viveu três gerações, ora! Paulinho teria rido, se tudo aquilo não fosse tão esquisito a ponto de anular completamente qualquer situação cômica e transmuta-la para uma situação trágica. Todos saíram de casa e deixaram Paulinho para trás. Camila ainda estava com a máscara de argila pregada ao rosto. Paulinho adoraria ver o espanto da velha quando percebesse que saiu com o rosto vulnerável à piadas. Suspeitou que nem sequer lembravam dele, exceto por Neide. Do alto do apartamento ainda era possível ouvir o pranto de D. Camila. Avó de pobre também chora, mas não daquela maneira.
Sentou-se por um momento na cadeira em que estava a dar aula para Miguel e tentou processar o ocorrido. Como era possível que o gato tivesse vivido três gerações. Custou acreditar. Pensou, pensou e concluiu que certas coisas, de fato, não poderiam — ou não deveriam — ser explicadas. O gato era velho. Esquisito e quase impossível, mas a história era essa. Curioso, talvez nisso D. Camila fosse igual a avó de Paulinho, adorava contar histórias com características improváveis. Quando criança, Paulinho ficou exausto de escutar que um lobisomem invadiu a casa da avó quando esta ainda era criança e que ela se lembrava bem dos olhos e dos dentes da fera. Quando cresceu, Paulinho passou a tomar isso como algo que a avó contava para entreter ele e seus primos. Mas agora, era mais fácil acreditar na história do lobisomem que na história do gato quase centenário.
Racionalizou, precisava voltar para casa. Levantou-se, recolheu seus pertences e se prostrou a sair. A porta estava destrancada, “cortesia da Neide”, pensou. Desceu o prédio.
— O gato morreu, foi? — O porteiro o questionou estridente.
— Foi. Começou a dar um treco lá. D. Camila levou no hospital para ver se ainda tinha jeito.
— Rapaz… sei não, viu! Aquele gato era velho que só, acho que já deu o que tinha que dar. Dona Camila passou aqui se acabando de chorar, coitada! Aquele gato esquisito é a única companhia da bichinha. A Neide não gosta da patroa, o velho, marido dela, morreu já tem uns dez anos. A filha, só passa aqui pra deixar o menino, o Miguel. O menino só gosta do celular dele. É o dia inteirinho que Deus dá naquele celular. Isso tudo é ela quem me conta. Coitada! Agora que o gato bateu as botas, é bem capaz dela adoecer. O gato faleceu hoje e ela falece já, já, escuta!
Paulinho não teve resposta para aquilo. Apenas virou e seguiu seu caminho. Desceu para a L2 e pegou o primeiro ônibus em direção à rodoviária. Chegando lá, esperou cerca de quarenta minutos para o ônibus em direção a sua cidade sair. A frota de ônibus para Santo Antônio do Descoberto era pequena e os veículos que existiam eram incrivelmente precarizados. No caminho, começava a escurecer. Não via a hora de chegar em casa e descansar. Assistir a morte de um gato e o desespero de uma perua fez daquele dia um dos mais longos de sua vida.
Depois de um bom tempo dentro do transporte, desceu, andou mais um pouco e logo estava em casa. Paulinho morava com a avó, Lindaura. A senhorinha com mais jeito de avó que era possível para uma senhorinha se ter. Estava na cozinha mexendo numas panelas. O cheiro podia ser sentido da entrada do portão, cheiro de comida de avó. Quando Paulinho entrou, sentiu o aconchego da casa colorida e quente de D. Lindaura.
— Oi, meu fih. Chegou?!
— Cheguei, vovó.
Capeta, preta e de olhos amarelos, imediatamente começou a miar e a roçar em suas pernas.
— Cansadinho, meu fih? Senta! Puxa uma cadeira.
— Hoje o dia foi estranho, vovó. — Falou enquanto acariciava Capeta.
— Ué, por que?
— Tive um problema com a aula de reforço hoje. Ao menos vou receber por ela.
— Oh, meu fih, é tudo tão difícil, né? Mas tô fazendo um quiabinho que você gosta pra jantar. Vá tomar um banho que a janta tá quase pronta!
— Vovó, quantos anos a Capeta tem?
— Paulinho… — refletiu — acho que deve ter quase dez, tá velha que só.
— Vovó, lembra daquela história do lobisomem que a senhora contava para nós quando éramos crianças? Aquela história é verdade?
— Éééééé. É verdade. Me lembro como hoje dos ‘dentão’ enorme do bicho. Entrou quebrando TUDO dentro de casa, meu fih. Pai correu e pegou uma peixeira e foi pra cima do bicho. Menino, coisa de louco. O bicho rosnava igual cachorro e avançava mesmo. Pai penou pra matar. Eu, meus irmãos e mãe gritava igual doido, enquanto pai travava uma batalha feroz com o bicho. Roça, meu fih, em roça tem coisa que até Deus duvida. Passei mais de ano tendo pesadelo com aquele cachorrão imenso em pé sobre duas patas. Horrível! Imagem do cão.
— Nossa!
— É, meu fih. Há mais coisas no céu e na terra do que supõe a nossa vã filosofia.
Aquilo o espantou. Como sua avó conhecia Shakespeare?
— Onde a senhora ouviu essa frase vovó?
— S. Leopoldo, aquele meu patrão que morava ali no Lago Sul, me falou uma vez e eu nunca esqueci. Lembra do Seu Leopoldo? Trabalhei lá por uns oito anos, até que aquela perua da mulher dele me mandou embora.
— Hum… não lembro. E vovó, a senhora sabe quem foi Machado de Assis?
— Machado de Assis? Num foi um escritor?
A resposta foi mais que satisfatória. Fez seu coração palpitar. Capeta agora estava deitada em seu colo.
— Isso mesmo. Um escritor famoso, brasileiro. Cresceu no Rio de Janeiro.
— Conheço. Não é ele quem escreveu aquela história de um gato preto que atormentou o homem até o homem ficar doido e matar a própria esposa?
Banho de água fria.
— Não, vovó… esse aí é o Edgar Allan Poe. Ele é britânico e essa história se chama O conto do gato preto.
— Ah, bom! Então não sei, não. Só sei que essa história do gato preto me lembra a Capeta. Porque essa gata já me atormentou tanto, já me deu tanto trabalho, que eu vi a hora endoidar também. Mas eu ainda acho que ela só é atentada desse jeito porque você colocou esse nome nela. Meu fih, a palavra tem poder. A gente amaldiçoa até os bichos a depender do nome que damos pra eles. É sério, ‘cê’ rir, mas é sério. A bichinha vive metida em confusão, em tribulação. Daí ‘cê’ me pergunta o porquê, por conta do nome do coisa ruim que tu colocou nela.
Paulinho achou curioso que Capeta, apesar de se chamar Capeta, era a gata mais carinhosa do mundo. Atentada, mas carinhosa. E curioso também, era o fato de que Machado de Assis, apesar de receber nome de negro, era branco. Capeta agora ronronava em seu colo, mais confortável do que Machado de Assis alguma vez foi.
— A janta tá pronta, meu fih. Vamo comer? Fiz quiabo.

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- 2026-07-20 00:12:32